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Entrevistas
Entrevista com Carol Marra
28/07/2012 - 10:00:00 Por: Daniela Nahass

Foto: Leo Castro
Descoberta nos bastidores do mundo da moda, a modelo transgênera Carol Marra foi destaque nas últimas edições do Minas Trend Preview. No dia seguinte à sua estreia nas passarelas da capital mineira, foi reconhecida nas ruas de BH, sua cidade natal, por um frentista que lhe pediu autógrafo. “Achei engraçado. Nunca havia me imaginado naquela situação. Nem sabia como dar autógrafo.” Há menos de um ano, Carol trabalhava como produtora de moda. A semelhança com a também modelo transexual Lea T chamou a atenção dos fotógrafos no Fashion Rio. De lá para cá, tudo aconteceu muito rápido. Recebeu convites para participar de editoriais de moda, catálogos, campanhas e desfiles. “Não foi algo planejado. Aconteceu.”Aos 24 anos, a mineira é bem resolvida ao falar de sua sexualidade e se diz orgulhosa de ser mais uma representante da onda genderless. “A condição sexual não me faz melhor ou pior do que ninguém. Genitália é mero detalhe.” Confira a entrevista de Carol à Viver Fashion.  
 
O que você pensava em ser quando crescesse?
Sempre quis trabalhar com moda. Ainda criança desenhava modelos e cheguei a ganhar um concurso da revista Moda Moldes aos 9 anos. Depois me apaixonei pelo jornalismo, fiz faculdade no Rio de Janeiro, onde moro, e quis ser jornalista especializada em moda. 
 
Você chegou a trabalhar como jornalista de moda?
Ainda na época da faculdade, apresentei um quadro de moda e comportamento em uma emissora de televisão. Também fiz a cobertura das semanas de moda para um canal de TV a cabo e escrevi alguns textos.
 
Como você entrou para o mundo da moda? 
Foi por acaso. Fiz um trabalho como assistente de produção e, como me saí bem,  logo comecei a produzir sozinha. Não apenas para revistas de moda, mas também para publicidade, cinema e teatro. Nunca me imaginei na frente das câmeras. Minha paixão sempre foram os bastidores.
 
E como foi essa mudança?
Um amigo pediu para me fotografar. No princípio eu resisti, mas acabei topando. Outro fotógrafo viu o resultado e pediu pra fazer também. Quando vi, já estava fazendo catálogos e editoriais para revistas. Não foi algo planejado. Aconteceu. Nunca busquei isso, mas abracei a profissão.
 
Gosta de ser modelo? 
A profissão não é apenas glamour. É um trabalho sério. Precisa ter disciplina, cumprir horários, ficar horas na mesma posição, ter os cabelos alisados, desfiados, anelados, sem falar nos sapatos. Já calcei todas as numerações e, no fim do dia, os pés estão machucados. Mas vale a pena. Amo ver uma foto bonita com a equipe e cliente satisfeitos. 
 
Quando e como surgiu a Carol Marra? 
Ela sempre existiu dentro de mim, mas não entendia bem o que eu era. Levei anos para entender e, com ajuda psicológica, me encontrei. As pessoas não entendem  bem a transexualidade. Ligam à marginalidade, à safadeza e até mesmo à loucura. Não é uma escolha, é condição. A ciência explica bem. Nasci menina, mas meu corpo não se encaixava com meu pensamento. Sentia-me como roupa do avesso.
 
Como se sentiu sendo um dos destaques do Minas Trend?
Sabia que seria notícia, mas não imaginei tanta repercussão. Toda a imprensa queria falar comigo. Fiquei meio assustada no início, mas depois foi tranquilo.  Da noite para o dia, meu nome e minha imagem estavam estampados nas capas de jornais, sites e programas de TV. No Google tem mais de um milhão de citações com meu nome. Na manhã seguinte ao desfile de abertura do evento, ano passado, saí normalmente, como todo dia, e fui abastecer o carro. Logo o frentista veio com um jornal  perguntando se era eu que estava na foto e me pediu um autógrafo. Achei engraçado tudo aquilo. Nunca havia me imaginado naquela situação. Nem sabia como dar autógrafo.
 
Como gosta de ser definida?
Sou uma mulher, é assim que me sinto. Mas também não me importo de me definirem como transgênera, acho menos pesado. Infelizmente, ainda há muito preconceito em relação aos transexuais. É lamentável. 
 
Já sofreu algum tipo de preconceito por ser transgênera?
O preconceito existe, mas as pessoas estão entendendo que  podemos ter uma profissão digna. Sinto-me orgulhosa de poder abrir portas para ver outras transgêneras nas passarelas. Vou me sentir  feliz quando isso acontecer e saber que valeu a pena passar por tudo. A condição sexual não me faz melhor ou pior do que ninguém. 
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