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Gastronomia
Gosto de história

Cantina do Lucas, um dos mais tradicionais restaurantes de BH, contém no cardápio pitadas da vida cultural e política vivenciadas nos últimos 50 anos.

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Daniel de Cerqueira
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Há raros restaurantes que guardam muito mais do que histórias gastronômicas em seu espaço. É o caso da Cantina do Lucas, que há quase 50 anos se tornou um espaço tão íntimo para tantos que foi tombado, em 1997, como patrimônio cultural de Belo Horizonte. Se quiser um pouco da história política, alinhavada com o perfil gastronômico do belo-horizontino e pitadas da vida cultural das últimas quatro décadas da cidade, bas­ta ouvir um pouco de sua história.

A Cantina do Lucas nasceu nos anos 60 quando escritores e intelectualida­de de esquerda se juntavam ao pes­soal da cultura, e entre discussões sobre o rumo do país e a próxi­ma intervenção teatral, de cinema ou musical, todos iam se deliciando com nacos de filés de diferentes pratos ou o famoso macarrão à parisiense. Em 1965, em plena ditadura, destacava-se no cardápio o filé à cubana. Por razões óbvias: a militância e intelectualida­de de esquerda que frequentavam o Lucas naquela época. Já o predileto do cenógrafo Raul Belém Machado era o macarrão à parisiense. Junto com a classe artística da época, ele fez do Lucas ponto de referência da cultura da cidade. “Éramos muito bem atendidos e não havia qualquer restrição a barulho, podíamos circular de mesa em mesa, com música, conversa”, conta.

O diretor e ator Jota Dangelo é outro que passou os anos 60, 70 e 80 jantando no Lucas e se encontrando com amigos no espaço. “Me  lembro com saudade do garçom Olímpio Peres Munhoz, o popular sr. Olímpio”, diz. Morto em 2003, Olímpio trabalhou por 30 anos na casa. Antifranquista, ele encontrava coro nos intelectuais e frequentadores de esquerda para suas convicções. Como a época de ditadura era perigosa para o público do restaurante, o proprietário Edmar Roque, também dono da Casa dos Contos, fala que Olímpio arrumou um tipo de senha gastronômica para quando infiltrados do regime militar frequentavam o local. “Hoje não tem salada russa e nem filé à cubana, era o código para informar que podiam estar no local pessoas como o agen­te da polícia norte-americano Dan Mitrione, responsável por ensinar táticas de tortura para agentes da ditadura brasileira”, conta Roque.

O ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, conta que desde os anos 70 era assíduo à cantina e também se lembra com saudade de figuras inesquecíveis. “Nos defrontávamos com personalidades como Murilo Rubião, Francisco Iglesias e tantos mais”, con­ta. O ministro não se esquece de listar a comida gostosa e a cerveja sempre gelada, além dos garçons liderados pelo sr. Olímpio. “Nun­ca tive um prato preferido não. Sem­pre gostei do filé e, na verdade, preferido mesmo era a cerveja, sempre geladinha”, afirma. 

Atento ao gosto de clientes fiéis como Patrus, Jota Dangelo e Raul Belém, mas sem perder o foco nos novos frequentadores, o proprietário conta que a partir dos anos 80 foram incorporados outros pratos ao cardápio. Roque se lembra da criação do filé à piemontesa  filé mignon grelhado com molho madeira além da intensificação da comida mineira e de pratos com lombos no cardápio. Já nos anos 90, foram inseridos pratos como o filé Olímpio  fatiado, acompanhado de arroz com açafrão e champignon, batata-palha, brócolis e molho da casa  e outros com picanha. “A partir de 2000, fomos criando os chamados pratos mais ligths com frango, peixes”, conta o proprietário da cantina.

Outras novidades do cardápio surgiram em momentos específicos, como os das turbulências econômicas brasileiras. Roque conta que os pratos sempre foram muito fartos e como as crises sempre atingiam os frequentadores, criou o Luquinha, individual para aqueles que queriam continuar comendo fora, mas sem pesar no bolso. “Era preciso criatividade para não perder o cliente”, conta.

Cliente como o ator e diretor Maurício Canguçu, que frequenta a cantina há mais de 20 anos. Ele destaca que Roque cria uma intimidade tal em seu restaurante, que é comum se sentir como se estivesse em casa. “Sou fã do filé à surprise  filé mignon recheado com presunto e mussarela, servido com risoto de frango ou arroz piemontês, batata ou banana frita, mas, às vezes, chego e não sei o que quero comer. Adivinha? O Edmar prepara um prato exclusivo”, diz entre risos. E assim as décadas vão se passando e o cardápio do Lucas, claro, sempre com muitas histórias para contar.

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