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Brasil esquecido
Nesta edição

entrevista
Aberrações humanas

Criança estuprada por padrasto, filha mantida em cativeiro e sofrendo violência sexual do próprio pai, outra atirada do sexto andar de um edifício. O psiquiatra e psicanalista Stélio Lage tenta explicar o inexplicável, e fala das barbaridades praticadas por seres (des)humanos.

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Daniel de Cerqueira
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Desde o ano passado temos acompanhado alguns casos que mais parecem fruto de roteiros de filme de horror. Izabela Nardoni, 5 anos, atirada pela janela do apartamento. Principais suspeitos: seu pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta. Descoberto, após 24 anos, o cativeiro em que o austríaco Josef Fritzl manteve a filha Elisabeth, com quem teve 7 filhos, todos resultado de estupro. Há dois meses uma menina de nove anos, da cidade de Alagoinhas, Pernambuco, fez aborto de gêmeos: as crianças eram filhas do padrasto, que a violentava. Os médicos que realizaram o procedimento foram excomungados pelo arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho. Pedofilia, violência sexual, incesto, estupro, ignorância. Tudo ao mesmo tempo. A recorrência de acontecimentos de tal natureza é no mínimo intrigante e coloca questionamentos: serão estas pessoas doentes ou criminosas? Quem é capaz deste tipo de comportamento? E nós, o que temos com isto tudo? São tantas as perguntas que a Viver Brasil procurou o psiquiatra e psicanalista Stélio Lage para tentar jogar luz sobre comportamentos que o próprio denomina de bizarros. Numa entrevista exclusiva, o especialista discorre sobre o tema e não deixa dúvida: o buraco é bem mais embaixo do que pode crer nossa vã filosofia. 

Estes acontecimentos são esporádicos e por coincidência repercutiram na mesma época, ou não, resultam dos rumos da sociedade? Como caracterizá-los?
A estupidez nas relações humanas vem de tempos remotos. Alguns falam no avanço dos processos civilizatórios, mas os fatos mostram que nem tanto assim; basta lembrar barbaridades recentes ocorridas nas prisões do Iraque. O que mantém o equilíbrio dos laços sociais está sujeito a rompantes. Há bolsões no mundo, de estruturas frágeis, em que os homicídios e aberrações sexuais estão exacerbadas; a maldade se sujeita sem se submeter. Embora vivamos sob a égide da moral cristã, que prega amar ao próximo como a si mesmo, estes casos mostram que o que há é destruição. É nas sombras do lar doce lar – que não é o mar de rosas e bondade como querem os preceitos morais e religiosos – que as pessoas sentem-se protegidas para agir, submetendo os mais íntimos a violências, tratando-os como objetos, mas sempre deixam alguma pista e acabam descobertos. É parte de um prazer bizarro.

Isto tudo nos desumaniza?
Questiono o conceito ingênuo do que é o homem, humanitário, humanidade. De que o âmago do homem é bom. Na verdade somos uma interrogação onde habitam o melhor e o pior. Causa espanto quando o dito homem bom comete violência, porque revela algo que queremos desconhecer. Para nos mantermos na linha, é a custa de disciplina. É como matar: para dar o primeiro tiro é difícil, o segundo também e talvez o terceiro. Mas a partir de certo momento, mata-se como a um mosquito. O que causa espécie em um, para outro é cotidiano. Os vínculos são questionáveis e se lida com o outro como se coisa fosse. Tanto que se diz: objeto de paixão; que pode até ser eliminado em nome do amor. A ideia romântica de que dois fazem um é balela, não há nenhuma completude – sonho que se revela pesadelo – e temos que aprender a viver com dignidade. A indiferença existe durante o amor, a violência está presente no trabalho, quando os chefes ignoram os funcionários, passam e não olham. Desde Freud e da derrocada das utopias marxistas assistimos uma reviravolta em que é necessário repensar o ser humano como dimensão vazia em que o que vai ordená-la está fora, tem que ser introjetado.

Desde o anúncio de que o casal Nardoni irá a júri popular aumentou o número de candidatos a jurados. Quando passamos a nutrir ódio por Nardonis, Fritz e que tais, não adotamos comportamento em algo semelhante aos deles?
Aí estamos falando na catarse, cerimônia de expiação. Cada um faz a sua purificação tentando, neste mal que o habita, limpar o que não presta, é difícil de carregar. Assim eu condeno e elimino neste alguém. A mídia faz o papel do teatro em que as emoções profundas são oferecidas para expiação pública. Esta hiperdramatização, em que os telejornais cospem sangue na cara da gente, aumenta a comoção e é uma arapuca que nos captura. Então, estes fatos já não provocarão nada, pois se faz um blábláblá interminável, caem no esquecimento e tudo volta à estaca zero. Primeiro tomamos susto, depois vem a banalização e, finalmente, o esquecimento. No entanto, o caso dos Nardoni em especial revela como num país onde reina a impunidade, nepotismo, as instituições são frouxas, há estímulo para levar a cabo certas situações. A madrasta enlouquecer e fazer aquilo é horrível, mas plausível. Entretanto, montar um cenário e sustentá-lo juridicamente é acreditar na impunidade. Bandidos e crápulas sabem que sairão impunes e dão gargalhadas. No Brasil, os artifícios são o corpo de advogados, os recursos infindáveis que a lei permite, as 300 mil páginas de processos que todo mundo sabe que não serão lidas. Escândalos um atrás do outro. O risco é a banalização, como no Holocausto, em que todos ficaram hipnotizados. 

Mas o que fazer com quem comete estes crimes e como caracterizá-los? São doentes, carecem de tratamento ou punição?
É um terreno polêmico o que é doença ou não. Cada um de nós carrega fardo e peso que carece de tratamento em maior ou menor grau. Quem nasce num aglomerado, é abandonado pelos pais e por aí vai, tem as chances diminuídas. Mas a cada um é apresentada a possibilidade de se curar. Todo doente merece cura e tratamento, que pode até ser a cadeia, mas não o mau trato. Também a escola, a terapia são recursos nesta moldura ampla.

O quanto estamos próximos ou distantes de quem comete atos desta natureza?
A humanidade é composta do sublime e do terrível. Há aquele que dedica a vida ao bem, para o outro, como também a fazer mal; aberrações que não deixam de ser inerentes ao homem. Entretanto, há fatores a considerar: pessoas que não suportam frustrações, ambientes perniciosos. É perigoso aquele que não lida com a adversidade, que reage a ela explosivamente e extravasa com agressividade. Isto é assustador e há que se tomar cuidado para não virar ator das páginas policiais.

Vivemos período de degradação moral ou não, a natureza do homem é destrutiva mesmo?
Não de degradação moral, mas de declínio de valores. A autoridade da figura do líder, do pai, do governante e do professor, por exemplo, passam por questionamentos de ordem prática e teórica. Não temos mais modelos universais de famílias, de pai, de homem, de governo, nada. Tudo caiu e estamos vendo os desdobramentos destes questionamentos. Por um lado é excelente, mas por outro, não há mais parâmetros, estamos em contínua invenção.

Mas também não é bizarro que um bispo excomungue quem fez aborto na menina de 9 anos e ache que o padrasto estuprador é menos pecador?
Este tipo de julgamento é exemplo de restrição, de simplificação e incapacidade de refletir e avaliar os acontecimentos. Puro preconceito.

Por que os comportamentos bizarros, aberrações estão associadas ao sexo?
O campo sexual é o que nos interroga como sujeitos. É onde se revela o que há de mais característico em cada um. Junto com o trabalho e o amor, o sexo faz o nosso verdadeiro retrato. São estes também os campos abertos para a violência, em que as aberrações determinam o que há de fundamental nos laços sociais. A aberração tem a ver com a fixação numa maneira de gozar. A pessoa arrisca a descumprir uma regulação social por uma forma de gozar a qualquer custo.

O fato das vítimas serem crianças é coincidência? Por algum motivo elas estão perigosamente desprotegidas na sociedade contemporânea?
A infância sempre esteve desprotegida, mas na sociedade contemporânea está até mais resguardada porque há leis. Mas crianças são vítimas porque se dão como objeto em seu evidente desamparo. Ela se vê à mercê e estar assim faz delas vítimas potenciais. Assim como as mulheres.

Somos seres condenados, uma vez que parece cada época apresentar mais problemas do que soluções?
Condenado é uma palavra forte, mas acho que existe, sim, este espírito condenado a um corpo e o que os conecta é um abismo. Este campo mostra um espaço aberto e cada orientação, dogma, princípio não desvenda isto. A plena compreensão nos escapa. Carregamos a natureza no corpo, nos assustamos com dores que nos mostram que temos braços e pernas. Somos expressão e testemunha disso.

O que há de bom e de ruim no nosso modo de vida atual?
O que há de bom é o mesmo que o que há de ruim: podemos escolher, talvez como nunca dantes.

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