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Brigas de amor
A solidão é traumática para os seres humanos, pois se inscreveu em nossa subjetividade como perigo, ameaça.
Texto: Cibele Ruas
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Temos profunda necessidade básica de manter uma conexão segura e confiável com outra pessoa, e saímos pela vida à cata de alguém capaz de nos oferecer tranquilidade, carinho, proteção – em outras palavras, vamos em busca do amor. Desejamos manter por perto quem nos inspira sensações ternas, para podermos usufruir de um vínculo de dependência afetiva mútua, de preferência. A dependência é, e sempre foi, uma questão ligada à sobrevivência: o bebê necessita de um vínculo forte e confiável com a mãe. Essa necessidade nos acompanhará ao longo da vida, sob a forma de demanda de contato emocional. Estar fortemente vinculado a alguém permite-nos experimentar deliciosa e relaxante sensação de segurança –sentimos que o parceiro responderá a nossos apelos porque se importa conosco, gosta da gente e é sensível às nossas carências afetivas. A solidão é traumática para os seres humanos, pois se inscreveu em nossa subjetividade como perigo, ameaça. É castigo milenar, que varia do “criança, vá para o seu quarto!” com que os pais costumam disciplinar os filhos, à pena de reclusão carcerária aplicada aos criminosos sendo a detenção na solitária castigo ainda maior. A experiência amorosa tem seus percalços. Na valsa da vida, algumas vezes nos afastamos da pessoa querida; em outras tantas, embaralhamos nossas pernas e tropeçamos fora do ritmo.
Por uma série infinda de motivos, muitas vezes banais, experimentaremos momentos de desconexão afetiva. A perda da proximidade emocional ameaça nossa segurança. Se o afastamento for vivenciado como abandono, poderemos entrar em pânico. Na verdade, a qualidade da relação amorosa ao longo do tempo dependerá de como se vai reagir aos inevitáveis momentos de afastamento. Podemos elaborar o acontecido, dar meia-volta e retomar a conexão. Se isso não for possível, começaremos a sentir que o outro ficou realmente distante. E surgirão diálogos ásperos, repletos de mágoas e ressentimentos dois dos piores conselheiros que se pode ter.
As mulheres costumam ser mais sensíveis aos primeiros sinais de desconexão e sua reação geralmente segue direção comum: tentarão desesperadamente obter a atenção do parceiro, mas de um modo que apenas promete confirmar aquilo que temiam o parceiro não liga mais para elas. Tendem a culpá-los integralmente pelo que está acontecendo. A maioria dos homens aprendeu a esconder suas necessidades afetivas, e não entrar em conflito, exacerbando o distanciamento emocional. A raiva delas e o silêncio deles são apenas máscaras que escondem a vulnerabilidade, a insegurança e o desejo de proximidade, que agora está sob ataque do medo de perder e da tristeza que essa perda acarreta, já sentida antecipadamente. Do ponto de vista da teoria do vínculo, as brigas surgem como reação ao distanciamento emocional não sendo apenas conflitos de poder, como preconizam certas correntes de psicoterapia. Os homens costumam reclamar de que suas mulheres não conseguem compreender que tudo que eles fazem trabalhar, trabalhar e trabalhar, na maioria das vezes é seu jeito de dar carinho. “Elas parecem querer só abraços, beijos e palavras de amor”, reclamam. Eles costumam se esquecer de que também gostam de abraços, beijos e palavras de amor. Brigas de amor costumam ser protestos contra a desconexão afetiva. O que se quer de fato é saber se o outro ainda se importa, se ainda confia, se ainda deseja o relacionamento. Grande parte das desavenças se esvazia assim que um dos parceiros resolve desistir de brigar e se aproxima carinhosamente do outro.
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