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Brasil esquecido
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Ao deus dará

Distrito de Galos, litoral do Rio Grande do Norte: comunidade com 400 moradores, esquecidos pelo tempo e pelo estado

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Pedro Vilela
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O vento muda a formação das dunas. A ação do homem pouco interfere no seu tempo: se apequena na rotina daquele lugarejo. Os homens pescam e está de bom tamanho, as mulheres ficam em casa. O sol a pino impossibilita ficar fora da sombra. No dia anterior havia chovido, era domingo, as pessoas conversavam, no final da tarde, nas soleiras de suas moradias, entremeadas por música alta, do forró ao carimbó, outros assistiam TV na praça Tancredo Neves ou jogavam vôlei, participavam de culto na única igreja, a Evangélica. Mar de um lado, o rio Aratuá do outro e areia por todos os cantos. Lá, naquela península só se chega de barco ou carro com tração traseira, vindo de Caiçara, nos confins do Rio Grande do Norte. A vida, alargada pelas redes sem fio neste século mundo afora, quase se restringe ali, no pequeno Galos, de três ruas oficiais, cerca de 400 moradores, distrito de Galinhos. Sobrevivem das entrelaçadas redes ao mar à cata de peixes e do trabalho na prefeitura.

Há posto de saúde, mas não funciona, escola, só até o 5º ano (4ª série do ensino fundamental), abastecimento de água, salobra, apenas por poço furado nos quintais das casas. A vida se foca sob este ângulo num Brasil esquecido, largado no canto deste gigante geográfico, à beira do oceano Atlântico, onde há poucos anos começou a passar turistas por raras horas e encontrar Irene da Penha Alves, dona do restaurante. A que teve 16 filhos, 9 são vivos, e se junta a outras duas mulheres,  Eliete Guarabira da Silva e Maria Eugênia da Cruz, na procriação em série. As três deram à luz a 65 crianças, 39 morreram, a maioria com menos de um ano, e 26 se criaram. Elevaram a taxa de mortalidade infantil a mais de 50% entre o final da década de 1960 até os anos 90. Hoje está em 33,6 por mil nascidos, dados do IBGE.

“Nascia um e depois do resguardo já estava grávida”, diz dona Eliete, mãe de 20 homens e sete mulheres. Doze sobreviveram às doenças, à fome, à falta de roupa. A última filha veio quando ela estava com 48 anos. “Foi Deus quem me operou.” Não havia médicos, nem contraceptivos, nem o que fazer. Hoje há TV na praça e nas casas, mas a filha Jeane segue a mãe: aos 21 anos tem um menino e espera a chegada de gêmeos. Vão se somar à população, compor a história do lugarejo de tantos descendentes, onde Maria Eugênia teve 22 filhos em 23 anos, dos 13 aos 35. “Todo ano era um, não parava. Cinco vingaram”, conta. Os outros se foram sem completar 12 meses e um morreu com 34 anos. A mãe resigna-se com as perdas. Hoje a vida é melhor em Galos: o marido pescador aposentado, os filhos casados, 21 netos, 3 bisnetos.

A sua filha Maria Salete, que ficou grávida oito vezes, é casada com descendente de dona Eliete, que cata mariscos nas praias, e assim se entrelaçam as famílias das três em Galos. “Sou feliz aqui, onde criei meus filhos. Só saio para ser enterrada em Galinhos”, diz Irene. Dos 9 sobreviventes, duas mulheres fizeram curso superior, de pedagogia e turismo: Maria dos Navegantes é diretora da Escola Municipal José Afonso Tinoco e Chesma, secretária de Turismo de Galinhos. Os três homens são analfabetos. “Eles iam para a escola, mas o pai chamava para ajudar a pescar.” Entre o trabalho e o aprendizado, a sobrevivência ditava a lei: formaram-se na profissão do pai, o senhor Avelino Alves Neto.


Todos os dias, com raras exceções aos domingos, lá estão eles a jogar e tirar as redes apinhadas de peixes espada, coró, bagre, barbudo e camarão, com a supervisão de seu Avelino, há 62 anos nesta labuta. “Pesquei 15 anos em alto mar.” Ficam até a maré encher e as mulheres restritas aos afazeres domésticos numa rotina espartana, só quebrada quando ocorrem imprevistos e mobiliza o lugarejo, como o daquela manhã da última segunda-feira de março.

“Minha irmã morreu”, ouve-se pela rua, num burburinho que atrai as mulheres e joga o problema: ninguém sabia dirigir o bugue para levar Kadja Chanttally, de 10 anos, diabética, que tinha desmaiado, ao posto de saúde em Galinhos, a 2,5 km de distância. Os homens estavam longe. Logo naquele dia havia o repórter fotográfico Pedro Vilela, da revista Viver Brasil, a registrar este Brasil esquecido e convocado a fazer parte desta história. Levou a menina, voltou à casa dela para pegar insulina, em falta no posto. Ela foi transferida para hospital na capital, Natal, e tudo voltou à rotina, com sol a pino em Galos.

Dona Irene sentada na cadeira, na sombra, a contar que gosta de conversar com os bichos, porque os filhos e o marido não lhe dão atenção. “Pergunto uma coisa e eles nem ligam. Meu marido só gosta de dormir, ronca muito.” Assiste TV? “Vejo, mas não entendo nada”, diz. O que entende e gosta de falar, de exibir, é da horta cuidadosamente erguida em vasos, madeira suspensa, consequência da areia por todos os cantos naquela aridez à beira do oceano. Mostra satisfeita o resultado do seu trabalho: coentro, salsinha, berinjela, linhaça, hortelã, couve, erva cidreira, alface, hortelã, arruda, romã, pimenta malagueta. “Há imbu, para as crianças, palma, que pode comer e tem vitamina”, explica. Fartura destes tempos.

Antes já passou fome, com os filhos. O dinheiro da pescaria só dava para comprar farinha. Hoje não: “Agora o povo me chama de rica, mas trabalho para criar a minha família”, afirma a dona do restaurante, onde sempre aparece turista para almoçar no meio da tarde, indiferentes à carência da região, à falta de saneamento básico, onde as casas só têm fossas rudimentares. Nem os moradores se importam com eles, chegam, tomam cerveja, capirinha, comem peixe ou galinha caipira e logo vão-se embora. “Tanto faz”, diz dona Eliete. São 400 moradores frente à infinidade dos mais de 191 milhões de brasileiros. Não aparecem, estão esquecidos até mesmo pela prefeitura de Galinhos.

Lá não se encontra quem possa dar entrevista. O prefeito Francisco Rodrigues de Araújo (DEM) não está, o chefe de gabinete Alfredo França pode falar, mas desaparece. A revista liga, insiste, ora ele está numa reunião na Câmara, no horário de almoço ou numa audiência. Há muito a fazer e atender os menos de 2 mil habitantes do município espalhados pelos 342 km² na península, 0,004% do território brasileiro. Quem pode socorrer? O governo do Rio Grande do Norte tem projeto de melhoria da região, dentro do Plano de Desenvolvimento do Turismo Sustentável (Pedits) do Polo Costa Branca, onde se localiza Galinhos, para daqui a dez anos.

“Este plano tem série de ações a serem definidas com a sociedade. Haverá reuniões nos municípios”, informa o secretário de Turismo do Rio Grande do Norte, Fernando Fernandes de Oliveira, mais acessível do que o prefeito de Galinhos. Aí, o secretário avalia que a infraestrutura rudimentar do distrito será melhorada, sem interferir nas suas belezas naturais, as dunas estarão lá para serem mudadas pelos ventos. “Não adianta investir em turismo sem saneamento básico”, afirma. Sem oferecer educação, serviços de saúde, condições de sobrevivência à população, não se repetir as mortes de 39 crianças de três mulheres nesta terra, antes de propriedade do padre jesuíta João de Melo. É, realçar o distrito no mapa, polir, interferir no seu tempo, não deixá-lo jogado nos confins do imenso mapa brasileiro.

Que distrito é este?

Galos pertence ao muniCÍpio de Galinhos.
Fica no litoral norte do Rio Grande do Norte
  • 400 moradores
  • 40,8% são analfabetos (*)
  • 57% é o índice de pobreza (*)
  • 0.612 é o Índice de Desenvolvimento

Humano (IDH) (*)

  • 36,93 por mil nascidos é a taxa de mortalidade (*)

Estrutura

  • Sobrevivem da pesca e do trabalho na prefeitura
  • Abastecimento de água é feito por poços
  • Para beber, há chafariz da prefeitura ou a compra, se o morador tiver condições financeiras, de galões de água mineral
  • Não há saneamento básico. As casas têm fossas rudimentares

* Estes números se referem a todo o município de Galinhos e são de 2003 e 2004, os mais recentes
Fonte: IBGE                                                                              

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