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ESPECIAL
Cura pela fé: Limites do corpo
Várias cirurgias, internações, recaídas, paradas cardíacas, ressuscitação: até que ponto o corpo humano suporta?
Texto: Danilele Hostlácio | Fotos: Daniel de Cerqueira, Alexandre Mota e Marcos Pinto | Fotomontagem: Paulo Werner
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Para o corpo físico, o limite é a morte. Mas, quando ainda estamos vivos, nosso corpo também se depara com diversas barreiras, como a fome, a dor, a sede, o sono. E há um momento crucial, quando alguém se descobre com doença grave, que remete imediatamente à ideia de fim. Ocorre que hoje a medicina consegue estender a vida, mesmo diante de enfermidades muito graves. Inúmeras internações, cirurgias e remédios pesados passam a ser a rotina de muitos pacientes e a existência se mantém, à base de uma mistura de sofrimento e esperança.
Diante desses quadros, algumas perguntas se impõem: qual o limite de resistência de uma pessoa a se submeter a tantas intervenções? Como descobrir e respeitar esse limite? Que movimento é esse que a medicina tem feito?
“Estamos no tempo da leitura médica do mundo. O enfoque da cura, predominantemente no início do século XIX, deu lugar ao enfoque na reparação de um mau funcionamento de determinada estrutura”, observa a psicanalista Marisa Decat de Moura, coordenadora da Clínica de Psicologia e Psicanálise do Hospital Mater Dei. Trata-se de um tempo, lembra Marisa, dominado pelo discurso da ciência, e isso traz importantes consequências. Uma delas é o movimento que vem sendo denominado de síndrome do sobrevivente. “Com os avanços da medicina, muitas doenças podem ser tratadas – ainda que não possam ser curadas”, avalia.
Sandra Ferreira Rodrigues foi testemunha do esforço dos médicos para estender a vida do seu marido, Luís Carlos. Em outubro de 2005 ele morreu, aos 49 anos e nove meses depois de ser diagnosticado com um tipo bastante agressivo de tumor cerebral. “Parece pouco tempo; mas para nós foi muito, porque foi um período de muito sofrimento”, conta. Graças à cirurgia, que conseguiu retirar 99% do tumor, e de 20 sessões de radioterapia, ele sobreviveu um período além do que seria possível, anos atrás. “Depois da cirurgia, ele não nos reconhecia mais. A memória ficou muito comprometida.
Ele nem sabia mais que estava doente e nem mesmo a gravidade da doença”, relata Sandra. Por isso, ela diz que as pessoas que o amavam foram as que mais sofreram ao longo do processo de doença dele. “Cheguei a um ponto em que não aguentava mais.
Eu o via definhando, ele já não andava, não tinha memória. Até por fim entrar num coma superficial e morrer”, recorda-se. Médicos oncologistas convivem com a morte todos os dias, e observam de um fórum privilegiado como a doença afeta o paciente e seus familiares. “Em minha experiência, percebo que o ser humano quer estender ao máximo a sua vida”, observa Renato Nogueira Costa, diretor do Oncocentro Minas Gerais e membro da equipe de Oncologia do Hospital Felício Rocho. Mas, evidentemente, existe um limite para isso: o sofrimento. “E a tolerância individual a ele depende, entre outras coisas, da crença, da fé, da esperança”, observa o médico.
Nogueira conta que geralmente a pessoa desiste de viver quando perde a esperança. Daí advém depressão, abatimento, falta de energia, entrega, por fim, o inexorável. A dor também acaba sendo um grande limite. Mas, em todos os casos, o limite é sempre individual, porque, na iminência da morte, a pessoa irá reagir de acordo com a sua biografia. “Uma pessoa bem centrada, emocionalmente equilibrada, forte, determinada e com sólidos princípios religiosos, tem perfil mais apto a aceitar um diagnóstico desfavorável, com prognóstico sombrio. Essas pessoas tendem a encontrar e reunir forças vitais que as movem e ajudam a superar as adversidades”, diz.
É por isso que muitas vezes os pacientes surpreendem os médicos, ultrapassando as fronteiras que os diagnósticos oferecem. A dona de casa Tânia dos Santos foi uma dessas pacientes. A batalha dela para vencer a morte começou há 17 anos, quando, em função de uma pré-eclampse, não devidamente diagnosticada, começou a apresentar problemas renais. “Há cerca de dois anos, descobrimos que um dos rins dela já estava paralisado e o outro só apresentava 10% de suas funções”, conta o irmão, o representante comercial Salomão Santos. Ali começava a saga: incluiu três sessões semanais de diálise, cirurgia para colocação de marcapasso, outra para colocação de válvula no coração, uma terceira para implantação de prótese em uma veia do braço, e mais quatro intervenções, em função de uma infecção abdominal aguda.
Quanto o corpo dela aguentaria? No caso da Tânia, ela suportou tudo com força impressionante. Entre os dias 18 e 19 de outubro, ela teve nada menos que 34 paradas cardíacas. “Estava desenganada. No dia 20 ela acordou sem sequela nenhuma, dias depois teve alta, foi para casa e ainda a tivemos conosco por mais dois meses e meio, até que outras paradas vieram e ela faleceu no dia 20 de fevereiro deste ano”, conta o irmão. Acumulados, foram muitos dias de CTI, outros tantos de internação, diálises que consumiam os dias entre as 4 da manhã (quando ela acordava para viajar de Lagoa da Prata para a cidade de Formiga, onde se submetia ao tratamento) e às 6 da tarde, quanto voltava para a casa. “Mas ela sempre demonstrou uma força sobrenatural”, reitera.
O exemplo de vida de Tânia revela que as limitações do corpo não estão somente no arcabouço físico de cada um. “Em se tratando do ser humano, ele vai viver o limite experimentado no corpo de maneira singular”, diz a psicanalista Marisa. O padre Augusto Pinto Padrão, que há cerca de 40 anos presta atendimento espiritual a pacientes do Hospital Vera Cruz, também é testemunha de como a relação de cada pessoa com a doença e com os tratamentos é diferente. “Alguns têm um espírito muito forte e também contam com a fé”, declara.
O temor da morte, avalia o filósofo José de Anchieta Corrêa, está na base desse esforço que ocupa a medicina atual, que não busca necessariamente a cura, mas o adiamento do fim da vida. “Nossa sociedade não sabe lidar com a morte. Além disso, temos hoje tecnologia que permite conservar um ser vivo indefinidamente. A aliança entre essas duas coisas tem levado a um furor terapêutico”, observa o filósofo, que é autor do livro Morte (editora Globo).
“Mas é preciso distinguir ser vivo e vida humana. Esta só existe para um sujeito de linguagem e supõe relação, afetividade, criatividade. Quando uma pessoa não consegue se relacionar, comunicar-se, criar e ter uma vida afetiva, ela está, na verdade, à margem da vida”, acrescenta.
Aí entra uma difícil questão, palco de intenso debate. Qual o momento de reconhecer o limite de um paciente, que nem sempre tem condições de decidir isso, e interromper o tratamento? Essa decisão, normalmente, envolve médicos, pacientes – quando ainda podem exercer o livre arbítrio – e familiares. “Temos que reconhecer as limitações médicas e respeitar os limites de cada paciente, rendendo-nos ao inexorável, que é a morte”, observa Renato Nogueira.
A hora de interromper o tratamento, para o oncologista, é aquela em que se reconhece que insistir com terapias ineficazes ou quando a doença não cede, pode acarretar desgastes emocionais desnecessários para todos. A família, nessas circunstâncias, também é testada. Afinal, ninguém está preparado para ver um ente querido passar por sofrimento intenso. Fernando Durão não estava. Ele perdeu a esposa para o câncer, em setembro do ano passado, depois da luta que durou oito anos. “A Jane tinha uma vontade imensa de viver. Ela dizia ‘eu quero vida’”, recordase. A esposa de Fernando foi diagnosticada com câncer de mama em fevereiro de 2000 e teve metástase.
Ela foi submetida a anos de medicamentos pesados, frequentes internações, algumas cirurgias, períodos de convulsões em sequência (fruto de cirurgia para a retirada de outro tumor, no cérebro), dias e dias em CTIs. “Foram anos de sofrimento. E ela foi chegando ao limite dela”, desabafa Fernando.
Mantê-la viva era o maior desejo do marido de Jane, que sempre acreditou na cura. “Enquanto houver vida, há esperança”, diz Nogueira. Contudo, é preciso reconhecer que a luta pela vida tem contornos demarcados.
“Mas já presenciei milagres divinos, ocorridos com pacientes desenganados por mim e por outros colegas; casos em que não houve intervenção médica que contribuísse para a cura. Não tenho a menor dúvida de que a fé e a misericórdia divina foram fatores determinantes para que aqueles pacientes vencessem a doença”, declara.
Numa prova de que limites há, mas estão aí para serem vencidos, num esforço que cada um deve empreender não somente com seu corpo, mas também com sua alma. Está aí o vice presidente da República José Alencar como exemplo maior.
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