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Paixão platônica
Belos e sedutores, estes padres despertam olhares apaixonados, mas garantem uma postura fiel aos princípios da Igreja Católica.
Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Daniel de cerqueira
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Eles são jovens, bonitos, sarados, transitam sempre bem vestidos, e, atentos à moda, mantêm o visual impecável. O corte está sempre em dia, tipo moço-bem-comportado. A presença desses gatos não passa incólume – todo mundo, disfarçadamente ou não, dirige-lhes nem que seja um discreto olhar atento, quando eles estão por perto. Educados e sociáveis, alguns ainda gostam de dançar, cantar, ir a festas, estar em grupos, ir à academia e a shows. Não fosse um pequeno detalhe na camisa: o colarinho romano ou o anel clerical, esses rapazes seriam cidadãos comuns. Todavia, são padres. Fizeram voto de castidade anos antes de entrar para o seminário.
E a Igreja Apostólica Romana sabe do poder de marketing que esses noviços representam.
O Vaticano, sede do catolicismo, divulga, desde 2003, um curioso calendário. Se o Calendário Pirelli expõe top models em poses sensuais, a publicação do Vaticano reúne a nata da estética masculina: jovens clérigos, lindíssimos, em poses comedidas. As imagens, de muito bom gosto, contêm certo poder sedutor, o que faz do calendário dos padres um líder em vendas. Amém!
A Viver Brasil entrevistou três jovens padres, lindíssimos e superqueridos por seus fiéis, para saber o que pensam, conhecer os medos e tentações que os cercam: o paulistano radicado há 15 anos em Belo Horizonte, Marcelo Apolônio Policarpo, 29 anos, e os mineiros Fábio de Melo, 37, que se tornou um campeão nacional de vendas de CDs; e Gleicion Adriano da Silva, 37, dono de um sorriso cativante, cujas missas são disputadíssimas. Nascido em Formiga, de pai pedreiro e mãe costureira, Fábio de Melo tomou a decisão pela vida religiosa na adolescência. “Via no padre uma pessoa feliz, realizada, fazendo o bem às pessoas, quis ser também”, diz. A reação da família e dos amigos foi de respeito, sem resistência. Atualmente, Melo trabalha na diocese de Taubaté (SP) e na Pastoral Universitária, além de fazer shows por todo o país e no exterior, tendo se apresentado em Portugal, Itália, Inglaterra e Estados Unidos.
Na carreira artística, ele se inspira no padre Zezinho, “um grande referencial dos cantores católicos”. O último CD, Vida, lançado em 2008, já bateu recorde, com 600 mil cópias vendidas, e a música-título integrará a trilha-sonora da próxima novela das sete, de Walcyr Carrasco, Caras & Bocas. Viajando constantemente pelo país e exterior, Melo levanta multidões por onde passa. Famílias inteiras e milhares de adolescentes e jovens o acompanham.
É unânime entre todos que Fábio fuja ao estereótipo comum dos padres. Quanto ao assédio das fãs, ele diz que é raro e que não o alimenta. “O assédio é distante. Sempre me coloco de uma maneira muito firme, estabeleço limites. Mas são raros. O que recebo mesmo é o carinho das pessoas que se identificam com meu jeito de evangelizar.” Quanto à vaidade que é natural no meio artístico, padre Fábio diz que se policia. “Foco na certeza de que não tenho direito à vaidade do meio artístico. O princípio do meu ministério tem que ser a simplicidade.”
E parece que a forma como o padre Fábio se posiciona perante as fãs é entendida perfeitamente por elas. Juliana Maia, 21, estudante de economia, elogia a beleza do religioso, mas logo explica sua posição. “Sei que ele não gosta desse assédio. O que me atrai é a sabedoria dele, ele fala o que buscamos. Minha família toda frequenta seus shows”, diz. Já Alessandra Deusdete de Jesus, 22, acha normal a identificação com a linguagem do jovem padre. “Acho ótimo que existam padres da nossa idade, que sabem o que passamos. Adoro a música dele, Humano demais”, conta. Para Karoline Martins, 21, estudante de relações públicas, tudo o que padre Fábio fala “cai como uma luva”. “Ele mostra que para tudo há uma saída. O que me atrai nele são suas palavras”, confessa.
E a beleza e juventude? Para o psiquiatra e homeopata Aloísio Andrade, a atração que o público sente pelos
jovens padres foge mesmo à estética. “A projeção da beleza, como transferência, é explicada na psicanálise.
O que atrai, nesses padres, é o carisma, um conjunto formado pelo caráter, pela companhia agradável. Seria a estética energética, ou seja, a verdadeira beleza interior”, explica o psiquiatra. Para o público, a pregação e o trabalho dos padres-bonitões fazem bem à alma, ao intelecto e, claro, aos olhos.
Ave!
Gleicion Adriano da Silva é um dos que fazem parte do time dos padres-galãs. Aliás, ele é famoso pelo natural e cativante sorriso. Ele lembra que a vocação o transformou, aos 21 anos. “Vi o testemunho de jovens padres, e um deles me emocionou. Ele dizia que era preciso deixar ser chão para que os outros passassem. Até ali eu havia vivido uma vida normal, tive muitas paixões, mas confesso que não me sentia completo e feliz. Hoje, estou realizado.” De muito bom humor, padre Gleicion conta que adora dançar músicas modernas, frequenta dança de salão, gosta de festas e de reuniões com amigos. “Tenho de ser eu mesmo em todos os momentos.
Acho que não adianta se fechar em um casulo, alheio à vida e às tentações. Somos humanos como qualquer pessoa, temos desejos, vontades. A diferença está em como lidamos com esses sentimentos, principalmente sem machucar outras pessoas.” Para evitar vínculos, o religioso diz que procura dançar com amigas diferentes, sempre em lugares públicos e cheios de gente. Ele acredita que a postura de respeito, sendo autêntica, afasta quaisquer outras intenções das pessoas. “Todos me respeitam muito. Claro que alguns fiéis brincam que eu sou muito jovem e bonito, que deveria aproveitar a vida. Mas ser padre não quer dizer abrir mão de ser feliz. Tomei minha decisão sem influências e sabia dos limites e imposições que permeiam a profissão.
A vocação está acima de qualquer coisa.” Há seis meses ele é pároco na igreja de Santo Antônio, no bairro Jaraguá. Anteriormente, pertenceu à igreja Santa Clara da Piedade, no Caiçara, cujas missas eram disputadíssimas entre os jovens, com igreja sempre lotada.Outro que celebra missas sempre muito concorridas é o padre Marcelo Apolônio Policarpo. Ele garante que a questão de ser bem-apessoado não interfere. Será?
O fato é que o ex-estudante de engenharia da Universidade Federal de Viçosa estava destinado a cumprir o destino de todo jovem: formar-se e se casar. Aos 20 anos, trabalhava com grupos de jovens, na igreja, quando começou a se interessar pela evangelização. “Vi que a pobreza das pessoas ia além da falta de recursos materiais. Elas precisavam de apoio espiritual e moral, me encantava o contato com elas. Naquela época, foi difícil convencer meus pais e minha namorada, pois tínhamos um relacionamento firme, todo mundo achava que íamos casar. A galera da faculdade não entendeu nada. Aos 26 entrei para o seminário.” Tempos depois, já seminarista, ele re-encontrou a ex-namorada. “Ela compreendeu minha opção. Disse entender que realmente eu não poderia ser de uma só pessoa.”
Do antigo cotidiano universitário e das festas, Marcelo passou a subir favelas, atender doentes, moribundos, órfãos e pobres. Pe. Marcelo diz que ouve mais das mulheres que dos homens desabafos do tipo “nossa-você-é-muito-jovem-para-ser-padre, poderia-levar-uma-vida-normal”. Ele ri e diz compreender que alguém pense dessa forma. “O celibato não é um castigo, estou dedicado a algo maior, que ultrapassa qualquer desejo, qualquer interesse ou fragilidade. Hoje, pela minha experiência, sei que a vocação é um apelo existencial, é uma entrega maior. Somos meros discípulos.” Atualmente, padre Marcelo é pároco da Santa Maria de Nazaré, que atende as comunidades dos bairros Nazaré, Parque Belmonte, Dom Silvério, Vista do Sol e Três Marias. Que Deus os abençoe.
Força do hábito
Vai-se longe o tempo em que famílias brasileiras sonhavam ver pelo menos um dos filhos ordenado padre, o que significava status e poder. Bentinho, protagonista do romance machadiano Dom Casmurro (1899) quase entrou para a igreja forçado por uma promessa da mãe, d. Glória, que tentara engravidar, sem sucesso.
O pré-adolescente, que amava Capitu, custou demover a mãe do sonho, pois não achava justo cumprir algo que poderia mudar o curso de sua vida. Tanto no século 19 quanto no início do século 20 era comum ver nas famílias numerosas, filhos optarem pela vida religiosa, bem como moças que trocaram vestidos e festas pelo austero hábito negro e pela reclusão.
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