|
PROFISSÂO
Escrita rápida
Profissão de taquígrafo continua valorizada, principalmente em órgãos públicos
Texto:Lilian Lobato | Fotos:Daniel de Cerqueira
Opiniões e sugestões sobre a matéria?
Mande
para redacao@revistaviverbrasil.com.br
Como diria o escritor francês Le Clézio, “escrever é ouvir o barulho do mundo.” A frase pode soar piegas, mas para quem convive com a escrita diariamente, observa o que se passa ao redor, escreve em símbolos, traduz e também revisa textos, a frase faz, sim, muito sentido.
É, por exemplo, o que acontece na taquigrafia, sistema de escrita abreviada e rápida que resiste à tecnologia moderna e continua atraindo adeptos, principalmente pessoas interessadas em disputar vagas em órgãos públicos com bons salários. Contraditoriamente, não há cursos específicos em Belo Horizonte, que conta apenas com professores particulares.
Em geral, na taquigrafia usam-se sinais da geometria para se escrever, mas há métodos em que os sinais são tirados das letras comuns. É uma escrita fonética, em que cada sinal taquigráfico refere-se a um determinado som ou sons. Para exercer a profissão, são necessários agilidade, concentração, velocidade, percepção múltipla, raciocínio rápido, bom português. Observar, captar o discurso, perceber os gestos, escrever com o uso de códigos e transcrever para o padrão culto da língua portuguesa.
“A taquigrafia é a arte de escrever com o uso de sinais na mesma velocidade com que se fala”, resume a taquígrafa Francisca de Alencar, pós-graduada em linguística. Rapidez essa que não é sinônimo de erros no momento da tradução para o português. De acordo com a professora particular de taquigrafia há 20 anos, Rosângela Baêta, existe um processo de revisão depois de se traduzir o taquigrama, o que é feito com muita qualidade. “Não é difícil, mas é preciso ser dedicado e persistente no aprendizado”, diz. É o que também afirma a professora particular Fernanda Oliveira. “O curso é muito detalhista, voltado para quem realmente gosta de ler e de escrever, tem raciocínio rápido e persistência. Primeiro vem a metodologia e, depois, a prática por meio dos ditados.”
Para Fernanda, a tecnologia não substitui o trabalho do taquígrafo. Esse é feito por um ser humano que tem a capacidade de escutar, registrar os códigos e transcrever para o português. De acordo com ela, tudo é realizado com exatidão, com o máximo de clareza e fidelidade possível. “É difícil uma máquina ter a precisão que o taquígrafo possui. Temos o feeling e conseguimos captar os gestos e a forma com que o orador fala”, afirma. Tânia Quintão já foi taquígrafa no Tribunal de Justiça de Minas Gerais e exerce essa atividade há sete anos na Assembléia Legislativa. “Trabalhar como taquígrafo é mais do que ser copista, é ser uma testemunha ocular dos fatos”, diz. Para ela, a influência da tecnologia é benéfica e vem para auxiliar o trabalho.
Atualmente, em Belo Horizonte, existem concursos para taquígrafo no Tribunal de Contas, no Tribunal de Alçada e Justiça, no Tribunal Regional Eleitoral e na Assembléia. O salário inicial está entre 2,4 mil e 3,8 mil reais, dependendo do local. O concurso não está entre os mais concorridos, o que faz com que muitas pessoas se inscrevam sem saber o que realmente é a taquigrafia. Para conseguir a velocidade exigida pela instituição, que varia entre 105 e 116 palavras por minuto, é necessário estudar e praticar o método por, no mínimo, oito meses.
|