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lazer
De alma lavada
Turismo a pé cresce no mundo inteiro e em Minas Gerais os 197 km do Caminho da Luz são um convite para o autoconhecimento.
Texto:Silvânia Arriel |
Fotos:Daniel de Cerqueira
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Lá vai o João, com seu cajado, mochila nas costas, debaixo de chuva. O que faz ali, no meio da estrada de terra, que se intromete nas montanhas, depois de Caparaó, quase no pé do pico da Bandeira, na encruzilhada de Minas com o Espírito Santo e Rio de Janeiro, um engenheiro carioca? Não dá para imaginar na sequidão da lógica, nem pode quem o vê na foto, num satélite ou o encontra na curva, de supetão, tão absorto, fora daquela realidade interiorana. Só ri, nem se incomoda com o tempo. “Vem tudo na medida certa, o sol, a chuva”, diz João Carlos de Araújo Moreira Neto, na toada de quem acredita que se localiza, aos poucos, na bússola da vida finita por caminhos infinitos. Só entende quem sabe que ele é mais um dos peregrinos das rotas que começam a proliferar no Brasil, num retorno de costume dos antigos que cortavam o mundo à procura da terra prometida, da sabedoria, do sentido da existência. João está no Caminho da Luz, na Zona da Mata, numa etapa sem contar os quilômetros, mas já se foram 146 e havia 51 pela frente, até ao final do trajeto.
Puxá-lo, numa retrospectiva, ao início dos passos destes 146 mil metros em Tombos, na cachoeira de sete quedas, imperceptíveis em época de chuva, quando despeja um mundo d’água. Saber que foi levado até lá, depois de conversar com um amigo no réveillon, num bar em Búzios. Contava as agruras passadas com processo de separação e buscava alguma coisa que não sabia o quê. Ele lhe sugeriu fazer peregrinação, correu para a internet, localizou o Caminho da Luz e lá estava o João, na trilha com outros caminhantes, não só brasileiros, com outras histórias, num lugar impregnado de acontecimentos da época do ouro, com outros propósitos, de busca da espiritualidade, contato com a natureza, desafio ou esporte.
É gente de todos os cantos, que se iguala no sobe e desce de montanhas, com resquícios de mata atlântica, quedas e mais quedas de água, pássaros, bichos, aos moradores da beira do caminho, sempre dispostos a ajudar neste desafio, à primeira conta de quilômetros, sem fim. “É uma viagem interior, nunca se deve ter a preocupação com a chegada”, diz a professora Eliane Maria Figueiredo de Almeida, de Tombos, que já fez o percurso e não se cansa das andanças com a proteção de Nossa Senhora da Luz. Logo ela, a santa iluminadora, que tem, não por acaso, sua imagem encravada na gruta quase no pé da cachoeira, de onde começa a saga, e atrai até mesmo andarilhos incrédulos. Fia-se também no trecho da música de Renato Teixeira: “É compreender a marcha e ir tocando em frente”. Está dada a partida, com setas amarelas a indicar o caminho rumo ao pico da Bandeira, tão distante.
Ir em frente, com o mapa em mãos a informar quantos metros percorreu, o que virá, sempre diferente do que se imaginava, no ineditismo de cada curva. Encontra-se com o belo-horizontino Hiero Amaral Bonatti, gerente de projetos, sozinho, com mochila equivalente a 12 quilos, a subir a montanha íngreme que leva a Catuné. São 24,7 km. “É trajeto prazeroso”, garante ele, que doa roupas ao longo do caminho para diminuir o peso que carrega. A capa de chuva também se vai. “Ela transpira muito. É melhor molhar.” Conversa com dona Francisca, personagem real e pontual de quem passa por lá, e chega à casa de Neusa Areal Ferreira, uma das três famílias que recebem os forasteiros neste lugarejo, de pernoite, sem hotel.
Repete o ritual de abraçar a todos que chegam e também na hora da partida. Prepara escalda-pés, com vinagre, arnica, sal, sabonete e bolas de gude. “Muitos estão com bolhas nos pés. Se for preciso faço até massagem”, conta dona Neusa, que se entende com seus hóspedes, mesmo se forem em linguagem tão díspare como japonês, alemão ou francês. As duas partes se adaptam, mas ela não cede no quesito comida, recomendação até dos idealizadores que pedem para não mudar a culinária local por causa dos caminhantes. No dia em que Hiero esteve por lá, no jantar havia arroz, feijão, couve, jiló, angu, lombo, macarrão e muitos casos para contar. Não sobra tempo nem para ver televisão, tão trivial neste tempo. Amanhã é outro dia e há pela frente 19,2 km até Pedra Dourada.
Chove, mal dá para ver a paisagem, os percalços aumentam e nosso caminhante resolve desistir. “Eu só tive o desafio de andar, mas sem prazer”, diz o gerente de projetos. Não queria se limitar aos passos e, sim, ver o local, e encontrar um atalho para o autoconhecimento. “Vou voltar”, se promete, já em Pedra Dourada na pousada de Paulo e Rosângela de Almeida, um antigo hotel inacabado, da época em que o presidente Fernando Collor de Melo confiscou o dinheiro de todos os investimentos e o antigo proprietário abandonou o lugar. Os novos donos recebem os hóspedes chamando-os pelos nomes. Parece que já os conhece há tempos tamanha a familiaridade. “Quer café,8 água”, pergunta Rosângela. Mostra os quartos, logo o jantar está pronto, regado a muitas histórias de pessoas que passaram por lá: a de três mulheres que se perderam na noite chuvosa pelas montanhas e Paulo as resgatou.
“Elas disseram que era Jesus Cristo montado a cavalo”, lembra Rosângela. Há o casal que estava lá no dia em que comemorava a data do casamento, os que haviam namorado há 25 anos e se encontraram na pousada, por mera casualidade. Outras histórias registradas no livro dos hóspedes, nos correios eletrônicos (coisas da modernidade bem adaptadas por lá), e ensinamentos com os caminhantes. A filha Amanda, a mais velha, aprendeu a fazer artesanato e a mais nova, Fernanda, a receber bem, mostrar a cidade, com seu trio: pontalinho, pontal e pedra dourada, que reflete a luz do sol e dá mais pistas do caminho.
É escarafunchar e encontrar nas margens quem tem conhecimento do trajeto, percorrido por mais de 3 mil pessoas desde 2001, mas já pisado e repisado pelos índios do Espírito Santo e Minas. “Eles passavam por aqui em direção ao pico da Bandeira, morada de Rudá, o deus do amor e da procriação”, explica o indigenista Itatuitim Ruas, em Pedra Dourada. Também faz parte desta história, de um dos idealizadores do Caminho da Luz e de ser índio, marcado para o sacrifício logo que nasceu na aldeia juruna, no médio Xingu, porque sua mãe morreu após o parto, quando ainda amamentava. Pela cultura indígena, deveria ter sido enterrado junto, mas a madrinha Joaquina Cardoso de Andrade fugiu com ele. Só foi voltar a aldeia com 15 anos para conhecer o pai, assim mesmo no anonimato. Daí rodou o país, foi parar em Tombos, Brasília, onde ocupou a delegacia do Funai e assessoria do ex-deputado Juruna, e agora em Pedra Dourada, por ter descoberto há cinco anos a filha Marcela, gerada há 15 anos com sua ex-aluna Olívia Medeiros.
Há mais a contar, a andar neste caminho, que espraia até Carangola, a maior cidade da região, onde a francesa Emilie Coudert desistiu da empreitada e a universitária curitibana Raysa Fonta Zilli, com o pai Nelson e o tio João Alfredo se preparam para percorrer o trecho de lá até Caparaó. Mas nem 8 tudo reluz. “Quase não há trilhas. A gente anda em estradas e é visível o desrespeito com a natureza”, reclama o engenheiro civil Nelson Zilli, que se dispôs a cruzar 1.110 km de Curitiba até Tombos para ter contato com a natureza e vencer os quase 200 mil metros de caminhada.
Ganhou bolhas nos pés, se estressou por não ter conseguido abrigo em Catuné. Não tinha se credenciado e precisou, junto com Raysa e João Alfredo, andar aproximadamente 50 quilômetros em um dia. “Fomos discriminados. O caminho é livre, está aí”, diz Nelson. “Lá são casas de famílias e a orientação é para que não aceitem pessoas sem credencial, por questões de segurança”, rebate Albino Neves, presidente da Associação Brasileira dos Amigos do Caminho da Luz (Abraluz). Refeitos dos entreveros lá estavam os três pela estrada rumo a Caiana a encontrar com outros moradores da região, o vereador Luciano Toledo e o seu carro de boi.
“Para direita Porto Alegre, Porto Seguro”, gritava com os bichos, que obedeciam piamente. Dá notícia de quem passou por este trecho encravado em extensos paredões, com resquícios de construções da estrada de ferro Leopoldina, muros de pedra a insistir na história do lugar. Qualquer queixa, cansaço, some por ali. Não dá para se estressar e logo chega a Caiana, Espera Feliz, Caparaó, onde está o João. Já não é mais o engenheiro, que trabalha na Petrobras. É um entre os que perambulam e desaparecem naquela imensidão de montanhas e verde. São elas simplesmente, sem rótulos. “O que antes era muito significativo, ainda continua importante, mas não é mais fundamental”, filosofa no meio do caminho, escorado no seu cajado, prestes a subir o pico da Bandeira, com seus 2.890 metros de altitude.
O caminho
Confira a distância (em km) entre as cidades e as altitudes:
| • Tombos a Catuné |
24,7 |
238 m |
| • Catuné a Pedra Dourada |
19,2 |
598 m |
| • Pedra Dourada a Faria Lemos |
25,2 |
329 m |
| • Faria Lemos a Carangola |
22,8 |
399 m |
| • Carangola a Espera Feliz |
33,3 |
748 m |
| • Espera Feliz a Caparaó |
20,1 |
814 m |
| • Caparaó a Alto Caparaó |
33,9 |
997 m |
| • Alto Caparaó ao pico da Bandeira |
18,1 |
2.890 m |
Todo o percurso é feito em 7 dias. Anda-se uma média de 20 quilômetros por dia.
DistÂncia de Tombos das principais capitais
| • Belo Horizonte |
380 km |
| • São Paulo |
700 km |
| • Rio de Janeiro |
370 km |
| • Vitória |
290 km |
| • Brasília |
1.120 km |
Outros destinos
Caminho da Fé
• De Águas da Prata, em São Paulo, divisa com Minas até Aparecida do Norte, passando pela serra da Mantiqueira. São 497 km
Caminho do Sol
• De Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, a Águas de São Pedro. São 241 km no estado paulista
• Passos de Anchieta
• De Vitória a Anchieta, no Espírito Santo. São 100 km
Caminho das Missões
• De São Borja a Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, na divisa com o Uruguai. São 325 km
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