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ESPECIAL
Marcas do passado
Quando tragédias, homicídios e fatalidades ocorridas num imóvel interferem na sua comercialização.
Texto:Luciana Rocha | Arte:Paulo Werner | Fotos:Patricia Santos
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Edifício London, cidade de São Paulo. “Notei que a procura pela compra ou aluguel dos apartamentos no edifício caiu muito. Ninguém quer saber de morar aqui”, afirma um prestador de serviços que prefere não se identificar. O motivo é um só: trata-se do antigo endereço do casal Nardoni. O imóvel esteve na mídia durante semanas. Para quem passa em frente é como se a janela do sexto andar se transformasse no protagonista cruel de algum filme de terror. De acordo com o entrevistado, logo após o assassinato de Isabella Nardoni, uma mulher foi até o local para comprar um dos apartamentos, mas quando percebeu que se tratava do prédio onde ocorreu o crime, ela nem quis descer do carro. “Vai ficar uma marca, uma lembrança dessa história triste”, ressalta.
Essa falta de interesse por outros apartamentos do edifício revela um fato curioso e, muitas vezes, comum. Um crime, uma tragédia podem deixar marcas e comprometer uma simples comercialização de compra ou aluguel de um imóvel. O dono do apartamento no edifício London, Antônio Nardoni, pai de Alexandre Nardoni – acusado de jogar a filha Isabella, de cinco anos, do sexto andar do prédio –, diz que o apartamento está do mesmo jeito e continua fechado. “Todas as coisas estão lá, inclusive o quarto da minha neta. O que aconteceu não impede que eu o coloque à venda e é difícil saber o que pode acontecer com o espaço. Ainda não pensamos na hipótese de desfazer do imóvel, pois há outras coisas para resolver”, afirma.
Outro exemplo é de uma família que tenta, há dois anos, vender um sítio, localizado em Igarapé, na região da Grande Belo Horizonte. “Meu tio foi assassinado no local. Desde então, a família desgostou e o sítio está à venda. Colocamos preço bem 8 abaixo do valor do imóvel. Mesmo assim não conseguimos fechar negócio”, afirma a estudante Tamara Caroline Louzada Camargos Bonfim, 26 anos. Ela fala que, no início, o próprio caseiro dizia aos futuros compradores que, devido ao assassinato de um familiar, o imóvel estava à venda. Outro caseiro trabalha no local, mas Tamara acredita que o crime influencie o negócio, já que “a cidade ainda comenta o fato.”
A desconfiança das pessoas em relação a imóveis onde tenham acontecido homicídios ou alguma fatalidade é ainda reforçada por relatos de moradores. Há sete anos a comerciante Elizabeth Sales de Magalhães Pinto diz que não se sente bem na casa onde mora, localizada no bairro Renascença. “Durmo agitada. Outro dia, acordei assustada. Parecia que alguém soprava perto de mim”, relata. Anos atrás, a família proprietária do imóvel morava no local. O pai ensinava a filha como atirar. Ela, não sabendo que havia bala na arma, apertou o gatilho e matou o próprio pai. “Eu não sabia desse histórico, se soubesse não tinha alugado aqui”, afirma. De acordo com ela, o inquilino anterior teve infarto. “Desde que minha família veio pra cá, notei que houve mais desentendimentos entre a gente. Éramos mais unidos.” O plano para 2009 é mudar o mais rápido possível e verificar o histórico do próximo imóvel. Ela acredita que o ambiente favorece muito para o que está passando.
A psicoterapeuta e especialista em hipnose, Symone Lopes, explica que, normalmente, ninguém está preparado para lidar com a morte. Dessa forma, as pessoas são influenciadas por um barulho estranho, doenças que ocorrem e acometem alguém da família. “As mais vulneráveis ficam impressionadas com esse tipo de acontecimento e isso pode ser fundamental na tomada de uma decisão. A personalidade, a criação e a cultura são os pontos que tornam um indivíduo menos ou mais influenciado”, diz Symone.
Já para a doutrina espírita a explicação é outra. “Há intercâmbio entre os planos espiritual e físico”, afirma Daltro Rigueira Vianna, coordenador geral do Grupo da Fraternidade Espírita Irmã Scheilla. De acordo com ele, os espíritos, alucinados pela ocorrência originada de assassinato ou suicídio, ficam na casa, revoltados e vivenciando o fato. Além disso, os familiares, inconformados com a situação, sintonizam com os desencarnados e daí nasce uma simbiose.
Essa explicação, no entanto, causa ceticismo em boa parte das pessoas. Muitas vezes a questão é tão banal que torna sem sentido a desconfiança inicial. A psicoterapeuta Symone narra uma história, tratada em seu consultório alguns anos atrás. Uma pessoa foi vítima de latrocínio (matar para roubar) em uma casa, localizada no bairro Concórdia, em Belo Horizonte. Tempos depois o imóvel foi comprado por outra família e uma das filhas, que é médica, ficava impressionada com os barulhos estranhos. Ela teve crises de convulsão e atribuiu aquilo ao fato ocorrido anteriormente na casa. “Eles se mudaram, alugaram e depois conseguiram vender o imóvel. A filha descobriu que tinha epilepsia e compreendeu, então, que a doença não tinha relação com o assassinato ocorrido na casa”, revela a psicóloga.
E se a explicação estiver no plano psíquico e emocional? Pelo menos é no que acredita o padre Luiz Eustáquio Santos Nogueira, professor de teologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). “Geralmente é uma projeção, ou seja, é o emocional falando, pois há a transferência de sensações, sentimentos, desejos, interesses para o mundo externo. O ambiente, os objetos lembram o que já aconteceu no local. É muito mais o inconsciente falando”, esclarece. Para o padre, o que acontece é um resquício da energia e da presença da outra pessoa que se foi. “Há um excesso que depois é liberado e a carga energética volta ao normal.” E você, se sentiria confortável em alugar um imóvel onde aconteceu algum homicídio ou fatalidade?
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