Home - Revista Viver Brasil   Thursday, 24 de May de 2012  
 Acesso Restrito

Capa
Cidade do samba
Nesta edição

REPORTAGEM
A dor (e a culpa) de quem fica

Familiares de suicidas convivem com a sensação de que algo poderia ter sido feito para evitar a tragédia

Nayara Menezes
Opiniões e sugestões sobre a matéria?
Mande e-mail para redacao@revistaviverbrasil.com.br



Era uma sexta-feira, faltava uma semana para o casamento da filha Valéria. Todos se preparavam para o grande dia. O ambiente na casa de dona Maria Luísa era para ser de festa, não fosse um trágico episódio que marcaria para sempre aquele feriado de 12 de outubro de 2007. Ao deixar a caçula em casa, ela jamais poderia imaginar o que aconteceria naqueles poucos instantes: Alice, carinhosamente apelidada de Nana pela mãe, havia decidido colocar fim em sua própria vida. Para Maria Luísa, começava aí uma jornada de desespero, revolta, tristeza, culpa e acima de tudo, questionamentos. “Por quê?”

A resposta ainda não foi encontrada. “Nana era uma menina bonita, comunicativa, cheia de vida.” Aos 26 anos, se formou em administração de empresas e tinha aberto uma firma em sociedade com o noivo. Ela se casaria em abril do ano seguinte. A empresa não estava indo conforme o planejado. Algumas dívidas preocupavam a jovem, mas nada que justificasse o ato extremo, segundo a mãe. Justificativas, aliás, não existem nesses casos.

Perguntas ficam sem respostas. Sentimentos se misturam. Dúvida, raiva, revolta, culpa, tristeza. O escritor existencialista Albert Camus definiu o suicídio como “o único tema filosófico realmente sério”. Há milhares de anos, filósofos, médicos e psicólogos tentam achar uma explicação para a morte voluntária, como nomeiam alguns especialistas. O ato de tirar a própria vida, contrariando o instinto natural de sobrevivência, intriga gregos e troianos desde a antiguidade.

De lá para cá, os números são cada vez maiores. Em geral, acometidas por um transtorno psiquiátrico, como esquizofrenia ou depressão, milhares de pessoas no mundo inteiro, resolvem colocar ponto final na própria vida. Mas sem que elas imaginem, esse triste desfecho é o início de um longo processo de dor, culpa e sofrimento para aqueles que ficam. Estimativas apontam que um suicídio pode afetar psicologicamente até 10 pessoas diretamente. Uma ferida difícil de ser fechada, que deixa cicatrizes eternas nos sobreviventes – pais, filhos, amigos e entes queridos.

Maria*, 61 anos, sabe bem disso. Já faz quase 30 anos que o irmão mais novo, Leandro*, escolheu esse caminho. Pelo depoimento emocionado da irmã, fica claro como ainda hoje essa é uma ferida que dói, incomoda. No auge dos 30 anos, o jovem era médico bem-sucedido, vivia rodeado por amigos e namoradas, como lem­bra a irmã. Logo após concluir a faculdade de medicina, no entanto, o rapaz começou a apresentar sinais do que hoje é denominado transtorno bipolar. “Ele alternava momentos de euforia, com quadros depressivos.” Diagnos­tica­do, Lean­dro foi tratado com os melhores psiquiatras de Belo Horizonte. “O problema  é que, quando ele estava bem, cismava de parar de to­mar os remédios. Aí quando vinha a crise, ele ia ao fundo do poço.”

Em uma das crises, Leandro tentou dar cabo à vida, mas foi socorrido a tempo pela irmã. Ao sair do hospital, veio a acusação: “Por que você fez isso? Eu queria morrer.” Passada a crise, ele chegou a agradecê-la por ter salvado sua vida. Sem a medicação, os picos de euforia e depressão não se estabilizavam e a idéia da morte passou a ser fixa. “Não tínhamos como controlá-lo 24 horas por dia. Em um domingo minha mãe tinha viajado, e estávamos todos reunidos em sua casa para o almoço. Foi quando ouvimos o barulho.” Lean­dro partiu e deixou somente um bilhete expressando a vontade de não viver mais, se desculpando pelos transtornos que seu ato poderia causar e dando orientações sobre o pagamento das despesas do velório.

Depois do episódio, a família nunca mais foi a mesma. Por isso, a irmã de Leandro acredita que o suicídio seja um ato egoísta. “A pessoa quer resolver um problema dela, mas cria um monte para toda a família”, desabafa. Hoje ela diz que superou sentimentos como culpa e remorso, mas lembra que outras pessoas da família jamais conseguiram fazer o mesmo. “Minhas duas irmãs desenvolveram depressão e tomam remédios até hoje. Minha mãe nunca se conformou, carregou essa culpa até a morte”, emociona-se.  

A psicóloga e tanantóloga Júnia de Paula Drumond diz que os sentimentos de Maria são comuns em casos de suicídio. Além da dor e sofrimento pela perda, há dúvidas, revolta,  raiva e culpa. Mas lembra que tais emoções, principalmente a culpa, só trarão mais sofrimento. “Não há responsáveis, pois ninguém tem o poder de controlar o outro.” Por isso, suposições como “se eu não tivesse deixado ele sozinho, se eu tivesse prestado mais atenção...” são apenas formas de se torturar, já que o tempo não volta.

Para a psiquiatra e também tanantóloga Mariel Partule, a culpa pode e deve ser trabalhada por um especialista no sentido de um perdão a si mesmo e ao suicida. “É fundamental que a pessoa se liberte da culpa e do questionamento do que fez ou o que deixou de fazer ou o porquê de os fatos terem desenrolado daquela maneira fatal e trágica.” A médica ressalta que na maioria das vezes o suicida não queria se matar, mas sim buscava fuga de um sofrimento insuportável.

E são vários os motivos que levam a este sofrimento. Um quadro depressivo pode ser desencadeado por uma predisposição genética ou por algum evento importante, como a perda de ente querido, de emprego ou algo parecido. Para a jornalista Paula Fontenelle, as razões que fizeram o pai tirar sua própria vida há quatro anos, são mais claras hoje. Após a tragédia, ela se debruçou sob extensa pesquisa. Buscou estudos cien­tíficos, foi atrás de pessoas que passaram pelo mesmo drama. “Queria achar respostas dos motivos e ainda saber se o suicídio poderia ou não ser prevenido.”

Paula chegou enfim à conclusão de que seu pai se encaixava no perfil de um potencial suicida. Era alcoólatra, tinha grande dificuldade em lidar com falhas e frustrações, estava com depressão e não seguia o tratamento, perdeu o filho mais novo, passou por uma separação e enfrentava dificuldades financeiras. “Com todos esses problemas, ele não conseguiu enxergar outra saída”, lamenta-se.  Em seu livro Suicídio – o futuro interrompido, Paula coloca números alarmantes. Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) dão conta de que mais de um milhão de pessoas cometam suicídio por ano. Pelo menos uma pessoa morre dessa forma a cada 40 segundos no mundo. Em 2020 poderão ser 1,53 milhão de pessoas a cometer o ato. O suicídio é a terceira causa de morte entre pessoas com idade de 15 a 44 anos.

E os números reais provavelmente são ainda maiores, já que, por falhas no sistema de notificações, muitos casos não são contabilizados. No Brasil, por exemplo, um suicídio é registrado como causas externas. O que pode camuflar as estatísticas. Questionado sobre as possíveis subnotificações, o Ministério da Saúde informou que o Brasil tem aprimorado os instrumentos para identificar melhor os casos. Uma das estratégias é a capacitação de profissionais das emergências e hospitais, que recebem grande parte das tentativas de suicídio. “Além disso, trabalhamos para diminuir o preconceito e o estigma em relação ao suicídio”, diz Milena Pacheco, assessora técnica da Saúde Mental do Ministério da Saúde.

Este preconceito é visível. Pessoas que perdem alguém dessa forma, geralmente, sentem vergonha. “O suicídio é tema proibido, tabu, carregado de mitos errôneos na nos­sa cultura”, alerta a psiquiatra Mariel Par­tule. E ela tem razão. Tanto que a maior parte dos entrevistados preferiu não se identificar, por temor aos julgamentos. O que não passa de uma lamentável falta de conhecimento da sociedade. “Mais de 90% das pessoas que cometem suicídio estão passando por algum transtorno mental”, afirma a psicóloga Júnia Drumond.

Outro ponto que merece destaque é que para cada suicídio há entre 10 e 20 tentativas. Uma prova de que a prevenção é possível. Várias pessoas que pensaram ou já tentaram se matar desistiram da ideia após tratamento psicológico.  A empresária Magda*, 48 anos, foi uma dessas. Desde a adolescência, ela passou por vários quadros depressivos. Chegou a tentar se matar três vezes. “Não via sentido na vida.”

Após a terceira tentativa, Magda recorreu à ajuda profissional. E hoje, com cinco anos de tratamento, a ideia do suicídio sequer passa por sua cabeça. “Nem de brincadeira falo uma coisa dessas”, assegura. A empresária atribui a cura da doença integralmente à terapia. “Ainda tenho problemas, talvez até mais graves, como a perda da minha visão, por exemplo. Mas hoje estou preparada para lidar com eles. Sei que fazem parte da vida e não há nada mais precioso do que ela.”

*Nomes fictícios

NÚMEROS

  • Os países que apresentam maiores números registrados estão no leste europeu, principalmente aqueles que pertenciam à antiga União Soviética. No topo da lista aparece a Lituânia, com 42 suicídios para cada 100 mil habitantes. O Japão é o 10º, com 24,2
  • A taxa mundial de suicídios é de 16 por cem mil habitantes. Isso representa uma morte a cada 40 segundos
  • No Brasil, são registrados 4,4 suicídios para cada 100 mil habitantes Fatores de risco
  • Alcoolismo ou outro tipo de dependência química
  • Transtornos psíquicos – Estima-se que 90% das pessoas que tiraram suas vidas sofriam algum tipo de transtorno mental nos últimos 6 meses
  • Hereditariedade – Pessoas na família que já tentaram ou cometeram suicídio ou casos de depressão na família
  • Dificuldade em lidar com perdas ou frustrações

SINAIS DE ALERTA

  • Perda do interesse por atividades rotineiras
  • Sentir-se triste durante a maior parte dos dias
  • Isolamento e descuido com a aparência física
  • Frases como “A vida não tem sentido”, “Tenho vontade de sumir”, “Não aguento mais” etc.
  • Sentir-se inútil, culpado ou um peso para os outros
  • Parar de fazer planos  Pensamentos frequentes de morte e suicídio

Fontes: Livro Suicídio - O Futuro interrompido, de Paula Fontenelle, site da OMS:  www.who.int/en e portal do Ministério da Saúde:  www.saude.gov.br

Onde buscar ajuda?

Projeto Conviver
Oferece suporte aos familiares e amigos de pessoas que cometeram suicídio. http://prevencaodosuicidio.ea.ufrgs.br

O Centro de Valorização da Vida (CVV) Por meio do telefone 141, oferece acolhimento para pessoas que se encontram em situação de risco e vulnerabilidade. http://www.portaldovoluntario.org.br/site/pagina.php?idconteudo=273


Topo ^                                                                                                                                                  <Voltar Para Edições Anteriores

colunistas
 
ARTICULISTAS
 

Copyright © 2008 - Revista Viver Brasil. - Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.
Web Consult - Soluções em Internet