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Cidade do samba
Nesta edição

entrevista
Nas garras do leão

O polêmico treinador, atualmente no Atlético Mineiro, fala do negócio em que o futebol se transformou, afirma que o assédio feminino aumentou muito e diz que pretende se aposentar em 2010. "Sou devedor da minha mulher de horas e horas. Pretendo me redimir pagando com minha presença".

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Daniel de Cerqueira
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Ele tem fama: de ser dono de pernas sexies, de ser brigão, esquentado e muito competente. Com certeza outros são os adjetivos que, ao longo dos 45 anos que está em evidência profissional, acompanham o ex-goleiro e atual técnico do Clube Atlético Mineiro, Emerson Leão. Títulos não lhe faltam na carreira: considerado um dos melhores goleiros de todos os tempos, fez mais de 100 partidas pela seleção brasileira, da qual foi titular absoluto. Como técnico, foi campeão brasileiro (2002) pelo Santos, que há 18 anos não obtinha títulos significativos. Agora, pela terceira vez está à frente do time mineiro, que vive crise financeira e problemas de direção. Mas nada disso parece abalar a autoconfiança de Leão, que recebeu a revista Viver Brasil para entrevista exclusiva. Simpático, irônico, direto; como ele mesmo diz, não se furtou a dizer sim e não. Para toda pergunta uma resposta objetiva.

E para o leitor uma oportunidade de ver este leão em versão tranquila.

Você é saudosista, daqueles que acham que o mundo era melhor: a música, os jovens e o futebol?
Se falarmos em música brasileira, futebol e qualidade de vida, sim. Se entendermos que o progresso é destruidor, mas necessário, não. Perde-se algo, é uma troca, infelizmente. Aparentemente é uma vantagem, que se torna decepção.

Neste progresso, como o futebol evoluiu?
Não, não avançou... se modernizou e mudou a qualidade dos resultados. A tecnologia passou a atuar em função do comércio no futebol. Tênis, camisas, aparelhos modernos que melhoram a condição atlética em quilômetro rodado. Em compensação, o custo para os atletas é alto. Aparecem problemas médicos que não existiam: dores que terminam em raspagem pubiana, cirurgias de ligamento cruzado nos joelhos. Tudo em função de mudanças no treinamento. 

Por que mudança no treinamento?
A arte no futebol foi substituída pelo atleta super competitivo. Antes, corriam 2, 3 km por partida. Hoje, correm 8. Trabalha-se o profissional além do limite. Crianças de 12 anos já são operadas de menisco, ligamento. E pior, hoje, eles têm dono.

Quem são estes donos?
Os empresários, corretores de gente. Uma maioria despreparada que faz com que os atletas não criem raízes com os clubes. Compram as famílias dos meninos com doações e passam a conduzir-lhes a vida. Assim, vemos a fuga em massa para o exterior. Por isso os clubes estão pobres e os empresários ricos. Antes, para alguém ser craque eram necessários uns cinco anos jogando, agora, com 10 partidas o cara já é chamado de craque.

O que é futebol: esporte, negócio?
É um esporte comercial, cujos lucros que oferta beneficiam muita gente. Há muito a TV Cultura dizia que futebol era cultura e lazer. Disto não tem nada. É um negócio que sem vendas, não sobrevive. Jogadores eram admirados, agora são celebridades, superstars. Estamos falando em grandes somas de dinheiro e muita vaidade.

Como lidar com isto levando em conta que num time há perfis diversos: desde garotos de periferia até aqueles que pretendem fazer carreira internacional?
A única intenção é a carreira internacional. Atualmente, vende-se a semente e não o fruto; nem nasceram e já querem voar. O jogador que ia para o exterior deixava lastro, raízes sentimentais no clube. Para o empresário quanto mais permanecem no time, pior, menos ganham. Ainda há bons garotos que, mesmo com escolaridade baixa, são bons atletas e passíveis de orientação. Mas quando entra o dono, estraga tudo. O Robinho mesmo começou comigo e outro dia vieram me falar que ele estava dando problemas. Eu só posso falar do que vejo. Quando os problemas são repetitivos, é grave. Senão, um deslize ou outro, leva-se.

Técnico tem que aconselhar sobre envolvimento com mulheres, baladas, cuidados com imagem?
Técnico tem que se meter em tudo que influencia nos resultados dentro do campo. Se você passa ali, de minissaia e isto causa um giro de pescoço que desconcentra os jogadores, mesmo que seja bonito, eu tenho que me meter; isto desconcentra e influencia negativamente no meu trabalho. Bebida, cigarro, pouco tempo de sono, atrapalham. Não é questão de ser dono. Na verdade é um dilema que carregamos. Não existe a obrigação, mas faz parte. Até contratação passa por mim.

Em relação a aparência, você interfere? 
Se o cabelo é comprido e toda hora ele passa a mão, principalmente goleiro, numa hora a bola vai chegar e ele está com a mão na cabeça. Tatuagem, por exemplo; é opção social. Não atrapalha o cara jogar. Hoje estão na moda calções perna abaixo e camisas compridonas. Acho feio, mas...

Atleta profissional dá tanto trabalho quanto criança?
Dá trabalho. Porque é mimado, bajulado, ofertado e para ele sempre tem um perdão. E ser jovem com dinheiro o faz, inclusive bom cliente para traficantes. É como qualquer cara com grana: é 100% assediado.

Comandante, mestre, professor. Por que o jogador não chama o técnico de técnico mesmo?
Porque técnico é muito generalista. Tem técnico de qualquer coisa. Professor é aquele que tem a pretensão de ensinar alguma coisa, de ser líder. É também uma forma fácil e respeitosa de tratamento.

Você se considera líder? Quais características o habilitam como tal?
Sou um profissional que sobrevive há 45 anos trabalhando. Como ex-atleta foram 24 anos dentro do campo, outros 21 como treinador. O líder tem que perceber que não pode chegar às raias do exagero, induzir a erros individuais e coletivos. Ele tem limites também e não é intocável.    

Você é conhecido por ser polêmico. Que fatos motivaram esta fama?
Ainda bem, porque os polêmicos constroem. Cansamos de ver pessoas que passam num lugar constantemente e falam que vão fazer isto e aquilo e não fazem nada. O polêmico é o que tem iniciativa, não toma sol na penumbra. Se expõe mais, logo é mais comentado. E quem se expõe mais também erra muito. Como você, por exemplo, lançando moda. Se ficar naquela coisa convencional, ninguém vai falar nada.

Você detona e é detonado por desafetos. Isto não faz sua vida cansativa? Depois que passa o momento do sangue quente, como ficam as coisas?
É o lado negativo da evidência, de deixar de ser anônimo. Depois de 45 anos sem desafetos seria sem graça pra caramba. Mas cansa, sim. O fato é que não me ausento de dizer sim nem não. E pra maioria das pessoas, o não, não existe. Por exemplo: o jogador escalado não vem me agradecer. É natural. Se não escalo, emburra e quer saber por quê.

Fez mais amigos ou inimigos ao longo da trajetória profissional?
Infinitamente mais amigos. Inimigos a gente não tem. São desafetos em função do posto de decisões. E a imprensa só se lembra dos desafetos, o normal não é notícia.

Jogadores e técnicos sofrem preconceitos? De que tipo?
O único que ainda existe é o cultural. Os demais foram compensados pelo poder financeiro dos mesmos.

Existe pouco comentário sobre homossexualismo no futebol. Por quê? Vocês mesmos têm preconceito?
Os comentários já aumentaram, a rejeição era maior. É um grupo machista, essencialmente. Mas o primeiro critério para estar num time é a competência. Se o cara é gay, mas isto não traz nenhum problema de convívio para o grupo, nada contra.

Você foi considerado o jogador com as pernas mais sexies do futebol brasileiro e fez propaganda de cuecas. Como foi experimentar tudo ao mesmo tempo e jovem: sucesso, fama, assédio do público feminino?
No ano de 1974, atletas não tinham ainda feito vínculos com a mídia. Nesta época, uma jornalista francesa descobriu o latino como sonho de consumo. O atleta europeu vivia naquele inverno, eram branquelos, usavam calções grandões. Nós éramos morenos, jogávamos de calções curtos. Eu tinha 23 anos, aproveitei e fiz a campanha.

Há perigos, armadilhas nestas situações? 
Só há armadilhas e perigos. Saímos do mundo cinza para multicolorido. Por isto é muito mais comum do que você conheça casos de promessas que se perdem no meio do caminho.

O assédio feminino sempre foi grande ou aumentou?
Como dizem os mineiros, aumentou muito com força. Por causa do dinheiro.

Que títulos gostaria de ter ganho?
Estou satisfeito com o que o futebol me deu como atleta. Também estou tentando encerrar bem esta segunda fase. Não quero deixar rastro, e sim saudade.

A vida do técnico é também muito incerta. Um dia mora-se numa cidade, depois noutra. Como conciliar este ritmo com a vida familiar?
Neste aspecto, a longevidade não existe. Mas tenho a felicidade de ter uma companheira que supriu, com inteligência, minha ausência. Estou casado há 32 anos, mais sete de namoro, são 39 anos de relacionamento. Minhas filhas são adultas e, neste tempo, a família se mudou conforme as possibilidades. É preciso saber escolher a companheira, ter bom olho.

Pensa em aposentadoria?
Penso faz tempo. Tenho 45 anos de carteira assinada. Mas há 8 fiz um plano de me aposentar, dos gramados, em 2010. Estarei com 60 anos e aí posso desenvolver funções paralelas.

Onde, na CBF?
Pode até ser, mas lá, como está hoje, não vejo futuro possível.

Ficar na fazenda assistindo futebol, faz parte do futuro?
Fazenda, passou uma semana, é duro de aguentar. Quero tempo, troco por ofertas. Sou devedor da minha mulher de horas e anos. Pretendo me redimir pagando com minha presença. 

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