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Cultura
Ver e ser visto
Festivais de cinema como a Mostra de Tiradentes são essenciais para que os gargalos da sétima arte nacional se resolvam (e se ampliem).
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Andre Fossati
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Se é verdade que filmes como Se eu fosse você, Cidade de Deus e Central do Brasil foram sucesso de público e puderam ser vistos por milhões de pessoas, o mesmo não se aplica a grande parte da produção nacional, que não consegue sequer ser exibida, a não ser em festivais como a 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada no final de janeiro. “Não temos diversidade de distribuidores. Ou você está ligado à Globo Filmes ou nunca encontra espaço e possibilidade de permanência nas salas de cinema”, assinala a produtora executiva Le Brasil, que esteve na Mostra para a exibição de Se nada mais der certo e Subterrâneos, filmes do cineasta José Eduardo Belmonte, nos quais trabalhou.
Belmonte (que ano passado venceu o festival do Rio com Se nada mais der certo, categoria melhor longa de ficção) vai mais longe e aponta uma diversidade de deficiências que afetam a produção nacional. “Ou amplia-se o público ou caminharemos, novamente, para a extinção. Seremos eternos Lázaros, sempre morrendo e renascendo.” Segundo ele, resultado também de lógica excludente: ingressos caros. “É menos gente pagando mais. O cinema brasileiro carece de choque de capitalismo moderno. Trata-se de processo industrial complexo, com poucos focos de resistência à invasão do cinema americano” complementa.
É por meio de festivais como a Mostra de Tiradentes que apostam no desenvolvimento da linguagem cinematográfica e na diversidade que o crítico de cinema e curador da Mostra de Tiradentes há 3 anos, Cleber Eduardo, acredita ser possível chamar a atenção para nomes desconhecidos – mesmo que premiados.
“Assim estimulamos a formação de público de baixa faixa etária, mais disposto a quebrar códigos.” O crítico de cinema Pedro Butcher assinala que os festivais de cinema desempenham papel importantíssimo porque não raro representarão a única janela possível para acesso a determinados tipos de filmes. “Tiradentes se firmou como festival de ponta pela programação singular, que aposta na renovação de talentos e no cinema como linguagem, antes de tudo.”
Seja na maneira como os cineastas do dito circuito independente lidam com os temas, sem compromisso de agradar, distante dos clichês, sem necessidade de atender a demandas e até mesmo dispostos a certo grau de aventura. A atriz Luisa Mariane, 28 anos, três filmes na carreira, acredita que é importante criar, no público, estímulo, vontade de ir ao cinema. “É um caminho, construído grão a grão.” Ela também aponta os festivais como portas para esta finalidade.
Se a intenção de festivais e mostras de cinema não é corrigir ou resolver problemas do cinema nacional, nem tem a tarefa de cobrir arestas do circuito exibidor, é fato que pode ser relacionado com a retomada do cinema nacional. “As mostras contribuem porque o Brasil é muito grande e não dá pra falar em retomada do cinema nacional e ficar focado no eixo Rio-São Paulo. As mostras criam público e estimulam amor pelo cinema”, afirma Malu Mader, que dirigiu seu primeiro documentário, Contratempos. “Acho que estamos num bom momento do cinema brasileiro.”
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