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Voo cego
A sinalização da Anac pela possível revogação
da lei que proíbe operações de aeronaves acima
de 50 assentos no aeroporto da Pampulha é um balde de água fria no processo de desenvolvimento intenso por que passa a região de Confins
Texto: Terezinha Moreira |
Fotos: Daniel de Cerqueira
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A sinalização da Anac pela possível revogação da lei que proíbe operações de aeronaves acima de 50 assentos no aeroporto da Pampulha é um balde de água fria no processo de desenvolvimento intenso por que passa a região de Confins alterações de voos nos aeroportos Internacional Tancredo Neves ( Confins) e Carlos Drummond de Andrade (Pampulha), ambos na região metropolitana de Belo Horizonte, sempre geraram polêmicas. Mas desta vez, os motivos vão muito além do que um simples usuário possa imaginar. Toda a discussão gira em torno da possibilidade de revogação da portaria número 993, de 17 de setembro de 2007, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que limitou em 50 assentos a capacidade das aeronaves que podem operar na Pampulha. Especula-se que a ideia inicial da Anac é aumentar a quantidade de assentos para 100. A agência reguladora ainda não marcou a data da audiência pública que precisa acontecer para que as pessoas ou empresas se manifestem sobre o assunto. A proposta era janeiro, mas a consulta foi adiada. No entanto, a decisão da Anac – responsável pela autorização de operações nos aeroportos brasileiros – já está gerando polêmicas e acusações contra a Azul Linhas Aéreas Brasileiras, empresa de David Neeleman, filho de uma brasileira com um jornalista norte-americano.
As companhias Gol e TAM entraram com questionamento formal junto à Anac em que acusam a agência de favorecimento à Azul. Há rumores de que a revogação de portarias que restringem operações nos aeroportos Santos Dumont (Rio de Janeiro) e da Pampulha seria para atender aos interesses da nova companhia aérea. Tudo porque a Azul utiliza os modelos Embraer 190 e 195, com capacidade para 106 e 118 lugares. Já a Gol e a Tam possuem aeronaves com o mínimo de 150 lugares, ou seja, a Azul levaria ampla vantagem na adaptação de seus aviões e poderia passar a operar na Pampulha assim que fosse cumprido todo o trâmite junto à Anac. “O cerne da questão é que a Azul teria negociado com o governo federal. Em troca da compra de aeronaves da Embraer a empresa teria a boa vontade da Anac para a liberação de voos partindo da Pampulha para Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro”, acusa o líder do PHS na Câmara dos Deputados, Miguel Martini.
O presidente da Azul, Pedro Janot, assegura que as acusações são infundadas e que, num primeiro momento, a empresa não pretende iniciar operações em Minas. “Se a Anac abrisse voos hoje, não operaríamos por lá porque Minas Gerais só deverá entrar em nossa malha a partir de 2011”, assegura.
Ele confirma que as aeronaves utilizadas pela Azul são adequadas para operar em aeroportos centrais (Pampulha e Santos Dumont), pois conseguem fazer conexões rápidas. “A ligação ponto a ponto com frequência é o projeto da Azul”, assegura Janot. Projeto que pode começar a ser concretizado no aeroporto Santos Dumont, onde, em meio a tumulto, a Anac revogou a portaria 187, que limitava operações com aeronaves de 50 assentos, exceto nos voos para o aeroporto de Congonhas. A agência estabeleceu prazo de 30 dias para que as empresas interessadas apresentem seus pedidos de horários de transporte (hotran) para o Santos Dumont, mas ainda não definiu a nova capacidade das aeronaves.
Retrocesso
A possibilidade de ampliação da quantidade de voos no aeroporto da Pampulha é considerada por muitos um retrocesso ao desenvolvimento da região metropolitana. As razões são muitas. A começar porque a maior utilização de Confins demandou e até mesmo incentivou investimentos na região norte da capital. O governo estadual investiu 500 milhões de reais na 8 construção da Linha Verde, está aplicando dez milhões no aeroporto-indústria e outros 13 milhões na contratação de consultorias para consolidar Confins como um aeroporto internacional, e investirá, ainda este ano, outros 20 milhões de reais em obras viárias no entorno.
Com a construção da Linha Verde o acesso a Confins teve uma melhora significativa. A reportagem da Viver Brasil foi do centro de Belo Horizonte ao aeroporto em 34 minutos, respeitando os limites de velocidade nos diferentes trechos do trajeto. Para a Pampulha foram gastos 15 minutos, partindo do mesmo ponto. A diferença é menor do que muita gente imagina: de apenas 19 minutos. Mas não é possível fazer uma análise tão simplista de distância sobre a mudança na utilização dos aeroportos. “A Anac quer revogar lei de sua própria criação e não leva em conta os interesses dos moradores da Pampulha, dos usuários e da população, expressa por meio da audiência pública realizada pela Assembleia Legislativa de Minas, contrária ao retorno de voos para aquele aeroporto”, enfatiza o subsecretário de Assuntos Internacionais de Minas, Luiz Antônio Athayde.
A questão vai além do que prega a Anac, que garante que a revogação da portaria seria para aumentar a concorrência nos aeroportos centrais, o que provocaria redução do valor dos bilhetes. Pode até ser que isto se concretize, mas a que preço? Outros fatores, inclusive sociais, deveriam ser considerados na análise custo-benefício para os usuários e a população. O aeroporto de Confins, além de oferecer melhor estrutura e mais conforto para os usuários, gera mais emprego e renda por ter amplo espaço para a abertura de lojas e oferta de serviços. Se a movimentação de 3 milhões de usuários na Pampulha, por exemplo, geraria 3 mil empregos no aeroporto, em Confins, este mesmo número de passageiros garantiria 4 mil postos de trabalho.
O deputado federal Miguel Martini lidera trabalho junto à bancada mineira para conseguir apoio dos parlamentares ao documento solicitando que Pampulha e Confins mantenham suas vocações. Ele será entregue à Anac e à ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil. Se vai adiantar alguma coisa é outra história.
“O aeroporto de Confins é estratégico para o desenvolvimento de Minas. Além disso, na Pampulha não há ângulo ideal de pouso e as aeronaves provocam ruídos excessivos em área densamente povoada”, complementa Martini.
A falta de infraestrutura do aeroporto da Pampulha também é uma questão que não pode ser ignorada. “Um dos problemas mais críticos é a sala de desembarque, que limita a operação de um voo a cada 15 minutos com aeronaves de até 60 assentos. Para alocarmos outros voos, teremos de baixar o nível de conforto dos usuários e queremos evitar isto”, assegura o superintendente do aeroporto da Pampulha, Cláudio Figueiredo Salviano. Segundo ele, o tamanho do pátio é outro grande limitador, que tem 67 voos diários e aviação geral executiva.
“A aviação regional deu um salto nos últimos anos, sendo que de 2007 para 2008 o crescimento foi de 37%. Se não tivéssemos exagerado no erro de concentrar os voos na Pampulha por tanto tempo, estaríamos, no mínimo, também com 30% a mais de passageiros em Confins”, ressalta Salviano.
Os investimentos na infraestrutura do aeroporto da Pampulha começam a acontecer visando à Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Recentemente, o local ganhou o LS Reduzido (equipamento que dá o eixo da pista e aumenta o nível de segurança nos pousos e decolagens com mau tempo). Também será erguida outra torre de controle. Ainda este ano deve ser iniciada a construção de uma pista de táxi e haverá abertura de novos hangares. A Infraero está finalizando convênio com a Aeronáutica para utilizar a área da unidade militar, que será transferida para Lagoa Santa. O espaço servirá para ampliação do estacionamento e do terminal de passageiros, e para melhorar o eixo viário de conexão com Confins. “Quando tivermos estes componentes, mais voos poderão ser alocados com a segurança que queremos e com o nível de conforto que a Infraero prega”, conclui Salviano.
Se por um lado a estrutura é o problema da Pampulha, por outro, é o grande trunfo de Confins, cuja capacidade é de 5 milhões de passageiros por ano. E a situação será melhorada após sua ampliação. A Infraero já abriu licitação para contratar o projeto. O aeroporto passará a ter capacidade para atender 8 milhões de usuários por ano. O valor do investimento será determinado pelo projeto a ser escolhido, mas deve ultrapassar os 100 milhões de reais, segundo o superintendente de Confins, Adair Moreira Júnior. Ele garante que mesmo que algumas empresas transfiram voos para a Pampulha, os investimentos previstos serão concretizados, pois a demanda de passageiros vem aumentando a cada ano acima da média nacional. Antes do início da crise internacional, houve crescimento de 20% no número de passageiros, enquanto a média brasileira foi de 7%. “Confins até poderá passar por movimento muito grande e haver necessidade de transferir voos para a Pampulha, mas hoje a situação está equilibrada”, enfatiza Adair. O problema é que mesmo sem haver necessidade o processo de revisão da portaria 993 já está em andamento na Anac. A nota divulgada pela agência reguladora diz que a consulta pública será aberta em breve. Um prato cheio para o retorno das polêmicas, das discussões sem fim e, principalmente, um puxão no freio de mão do desenvolvimento da região norte da capital mineira.
POVO FALA
Você é contra ou a favor da ampliação do tamanho das aeronaves que operam no aeroporto da Pampulha?
“Viajo em média, três vezes por mês. Sou contra a transferência de voos de Confins para a Pampulha porque lá não tem segurança para pouso e a sala de embarque é desconfortável. Além disso, falta segurança na região da Pampulha. Eu moro lá e conheço bem. É necessário que sejam criadas mais alternativas de transporte público para o aeroporto de Confins, como o metrô, por exemplo.”
Angeli Santos – nutricionista
“Viajo para reunião de negócios e pelo fato de o aeroporto da Pampulha ser mais perto do centro da cidade, prefiro descer lá. Sei que a estrutura da Pampulha é pior que a de Confins. Aliás, poderia haver investimentos para melhorá-la.”
Valdemir Cardoso – gerente de Negócios em Telecomunicações
“Pela questão tempo para se chegar ao centro de Belo Horizonte, é mais vantajoso descer na Pampulha. A estrutura lá é inferior, mas penso que comportaria mais alguns voos. O ponto negativo é que, por tornar-se mais concorrido, os preços dos bilhetes poderiam aumentar, mas ter opções é melhor do que não ter escolha.”
Vinícius Souza – gerente de contas
“Viajo para Belo Horizonte duas vezes por semana. Sou contra a transferência de voos para a Pampulha porque lá não tem estrutura e a pista não oferece segurança. Nas atuais condições, aumentar o número de voos na Pampulha seria colocar em risco a vida das pessoas. O que faltam são melhores condições de acesso ao aeroporto de Confins.”
Henrique Lamassa – engenheiro
“Do ponto de vista de localização, a Pampulha é melhor, mas a infraestrutura e a segurança são pontos negativos. O aumento de voos lá também afetaria negativamente o fluxo no trânsito daquela região, o que complicaria o acesso ao aeroporto. Por isto é que sou contra o aumento de voos na Pampulha.”
Marcus Seeliger – oceanógrafo
‘TRECHO DA PORTARIA 993, DE 17/09/2007 |
1. Vocação primária: Atender às linhas aéreas domésticas regionais, com origem ou destino no aeroporto da Pampulha, para estimular a ligação de cidades de Minas Gerais e estados limítrofes
2. Vocação secundária: Atender aos voos das sociedades empresárias de Táxi Aéreo e da Aviação Geral
3. Limitações: As linhas aéreas domésticas somente poderão ser operadas por aeronaves com capacidade de até 50 assentos.
Voos transferidos da Pampulha para Confins
. 3342 (Guarulhos-Confins-Goiânia)
. 3343 (Guarulhos-Confins-Guarulhos)
. 3356 (Guarulhos-Confins-Brasília)
. 3357 (Brasília-Confins-Guarulhos)
. 3312 (Florianópolis-Guarulhos-Confins)
. 3317 (Confins-Guarulhos-Confins)
Fonte: Anac |
| Aeroporto de Belo Horizonte/Pampulha - Carlos Drummond de Andrade |
Aeroporto Internacional Tancredo Neves |
Número de aeronaves
Ano Quantidade
2002 88.603
2003 75.476
2004 76.094
2005 49.467
2006 47.602
2007 52.812
2008 57.776
Movimentação de passageiros
Ano Quantidade
2002 3.080.297
2003 2.971.418
2004 3.194.715
2005 1.281.745
2006 800.940
2007 759.824
2008 561.189 |
Número de aeronaves
Ano Quantidade
2002 15.291
2003 10.586
2004 10.650
2005 36.842
2006 45.437
2007 55.491
Movimentação de passageiros
Ano Quantidade
2002 432.189
2003 364.910
2004 388.580
2005 2.893.299
2006 3.727.501
2007 4.340.129 |
Estabelecimentos |
2 lanchonetes
1 livraria
3 locadoras de veículos |
5 companhias de táxi
8 locadoras de veículos
3 agências de viagem
1 livraria
2 restaurantes
4 lanchonetes
1 salão de beleza
1 casa de câmbio
1 farmácia
14 lojas de variedades |
Companhias aéreas |
Trip
Passaredo
Air Minas |
Copa
Airlines
Gol
Ocean Air
TAM
TAP
Varig
Webjet' |
Pista |
2.540 m x 45 m |
3.000 m x 45 m |
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