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BRASIL: 1929 E 2009
Se de fato se configurar uma recessão econômica de grande profundidade na economia brasileira em 2009, quais as principais semelhanças e diferenças que poderiam ser destacadas em relação à crise de 1929 no país?
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Em primeiro lugar, a economia brasileira era muito especializada até a II Guerra Mundial na produção de alguns bens primários, praticamente sem nenhum beneficiamento industrial. Produzíamos e exportávamos café, algodão, minérios, açúcar etc. Em 1929, somente o café representava 70% de nossas exportações. Atualmente, desde o processo de substituição de importações do plano de metas do presidente JK, a nossa economia tornou-se diversificada, industrializada e competitiva globalmente. Além das commodities tradicionais, somos grandes exportadores de automóveis, aço, aviões, eletroeletrônicos etc. Sabe-se que, quanto mais especializada uma economia, maior é a sua vulnerabilidade a choques externos adversos como os que estão sendo emitidos a partir da atual crise econômica internacional. A diversificação e a diferenciação da economia brasileira são, pois, no presente, um fator potencial de maior resistência relativa a esses choques externos de retração no cenário internacional.
Em segundo lugar, o nosso mercado interno é mais vigoroso do que nos anos 1930. A dimensão do mercado interno é dada pela conjunção de três variáveis: o tamanho da população, a produtividade total dos fatores econômicos e a distribuição da renda e da riqueza. Quanto maior a população, quanto melhor distribuída a renda e a riqueza, e quanto maiores os ganhos de produtividade, tanto maior será o tamanho do mercado interno de um país ou de uma região. Assim, o tamanho maior do nosso mercado interno, em função das melhorias na produtividade e na distribuição de renda nos últimos dez anos, dá-nos um grau maior de liberdade para conceber e executar estratégias de desenvolvimento com menor dependência relativa das flutuações do comércio exterior.
Finalmente, os canais de transmissão da depressão econômica de 1929 se limitavam, para o Brasil, à redução dos fluxos de nossas exportações para os EUA e para a Europa. A partir dos anos 1990, quando o Brasil se integrou ao processo de globalização econômica e financeira, cresceu significativamente a sua interdependência a tudo de relevante que viesse a acontecer na economia mundial, tanto em termos dos ciclos de prosperidade quanto em termos dos ciclos de recessão. E os canais de transmissão desses ciclos para a economia brasileira se diversificaram, principalmente, por meio dos mecanismos e dos instrumentos do mercado financeiro global. Nesse sentido, a nossa economia tornou-se mais volátil e mais sensível à conjuntura econômica dos países mais desenvolvidos e dos emergentes em escala mundial.
Afinal, o que deverá prevalecer em 2009 em termos de nosso crescimento econômico num contexto de economia mundial em recessão: maior autonomia decisória ou maior dependência?; maior capacidade de resistência aos choques externos ou maior vulnerabilidade?; descolamento da crise mundial ou maior volatilidade? Neste momento, qualquer resposta é difícil de ser formulada por causa das incertezas que nos envolvem e de algumas características inéditas e desconhecidas da atual crise financeira mundial. Mas o problema maior não é do que sabemos que não sabemos, mas do que ainda não sabemos que não sabemos sobre essa crise.
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