|
capa
Cidade do Samba
Cifras que ultrapassam um bilhão de reais, cerca de 300 mil pessoas nos bastidores e outros 720 mil foliões na Marquês de Sapucaí, ruas, clubes e hotéis. Trata-se do Carnaval carioca, sem dúvida um dos maiores e mais belos espetáculos da Terra
Opiniões e sugestões sobre a matéria?
Mande e-mail para redacao@revistaviverbrasil.com.br
Quando o papa Gregório I determinou que o dia anterior à Quarta-Feira de Cinzas seria chamado oficialmente de Carnaval, ele não seria capaz de imaginar que, 14 séculos depois, um alegre povo descendente de negros, índios e portugueses adicionaria o samba aos tradicionais festejos pré-Quaresma e faria da data a maior festa do planeta. Ele tampouco poderia imaginar que a folia viraria uma grande indústria em terras brasileiras e faria do Rio de Janeiro sua principal capital. Somente na Cidade Maravilhosa, o Carnaval emprega cerca de 300 mil pessoas e movimenta um valor estimado em mais de 1 bilhão de reais.
Na cidade berço do samba, a festa tem vários estilos, públicos, locais e harmonias. A comissão de frente do Carnaval carioca são as escolas de samba, responsáveis pelo megaespetáculo da Marquês de 8 Sapucaí, também conhecida como sambódromo ou passarela do samba. Os números impressionam tanto quanto o próprio desfile. Ao todo, são 44 escolas de samba na cidade do Rio, apesar de somente 12 – as chamadas do grupo especial – serem verdadeiramente conhecidas. Cada uma entra na avenida com cerca de cinco mil pessoas, enquanto nas arquibancadas, frisas e camarotes circulam outros 60 mil foliões por dia (nos dois principais dias de desfile).
A arrecadação da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) com o espetáculo é de cerca de 40 milhões de reais, de acordo com o estudioso da folia e diretor cultural da instituição, Hiram Araújo. Metade desse valor é repassado às próprias escolas, parte é entregue à Secretaria Especial de Turismo (Riotur) e outra parte paga os gastos da festa. Uma escola precisa investir aproximadamente 6 milhões de reais para ter um desfile competitivo. “Desde a construção do Sambódromo em 1984 o desfile é autossustentável e se mantém com o mercado”, afirma Araújo.
O atual subsídio oferecido pela prefeitura do Rio às escolas de samba é de cerca de 400 mil reais. Além dos repasses, como as escolas levantam milhões de reais para entrar no Sambódromo? Primeiro, as agremiações vendem fantasias e cobram entrada para os ensaios pré-carnavalescos. O restante vem de patrocínios (empresas, jogo do bicho ou padrinhos), em geral negociados de maneira independente pelas escolas. “Cerca de 30% do caixa de uma escola vem de patrocínios”, informa o empresário e editor da revista Rio Samba e Carnaval, Maurício Mattos.
Se o famoso desfile das escolas de samba emociona foliões de todas as cores e idades, nem sempre foi assim. Mattos conta que desde seu surgimento até a década de 60 os desfiles não eram bem vistos pela classe média do Rio de Janeiro. “Meu pai me proibia de ir ver o desfile, e a primeira vez que eu consegui participar de um foi quando tinha 23 anos. Me apaixonei.” Foi justamente nessa época, entre as décadas de 60 e 70, que o Carnaval começou a conquistar diversas camadas sociais da cidade e a virar um megaespetáculo.
A ex-modelo e empresária Luiza Brunet, que esse ano completa 25 anos de Marquês de Sapucaí, desfilou pela primeira vez a convite do carnavalesco Joãosinho Trinta. Nesse um quarto de século com o samba no pé, Luiza ficou sem desfilar durante dois anos, mas desde 2008 voltou com força total como rainha da bateria da Imperatriz Leopoldinense. Ela conta que não faz dieta especial e nem exercícios específicos para se preparar para o desfile, mas gosta de estar bronzeada e faz algumas aulas de samba, para chegar afinada. “É preciso ter fôlego para cruzar a avenida, por isso me cuido 8 durante o ano. Já vi rainha de baterias desmaiarem porque não se prepararam”, conta. Este ano, Luiza Brunet passará para a ex-BBB e atriz Grazi Massafera o posto de musa do camarote da Brahma, um dos lugares mais badalados do Sambódromo. A novidade neste ano é a presença de Paulinho da Viola e o convite enviado ao casal Obama, cuja presença não foi confirmada. O camarote de 4 mil m2 existe há 19 anos no Sambódromo e oferece todo o conforto a famosos foliões.
Se por um lado algumas celebridades são convidadas especialmente para darem mais beleza ao desfile, por outro trabalhadores incansáveis pensam em Carnaval o ano inteiro e não podem desfilar na avenida no grande dia. É o caso do carnavalesco da Beija-Flor, Alexandre Lousada. Ele ganhou os três últimos desfiles de Carnaval do Rio de Janeiro na liderança de distintas escolas. “Os enredos são tão diferentes que não há como plagiar”, comenta o tricampeão. Outro que trabalha na Beija-Flor é João Reis. Duas semanas depois do Carnaval ele já está de volta ao barracão para começar o desfile do ano seguinte. Há 22 anos na escola de Nilópolis, João começou desfilando e hoje esculpe isopor, matéria-prima principal dos bonecos dos carros alegóricos. Órfão de pai e mãe, ele mora com a irmã em Nilópolis e não sabe que caminhos teria seguido não fosse a indústria carnavalesca. “Conheço muita história de gente que saiu do mundo do crime para entrar na indústria do Carnaval”, conta ele, que tem carteira assinada e salário de 1.180 reais mensais.
Tanto Lousada como João Reis passam a maior parte do ano na Cidade do Samba, complexo de grandes galpões que reúne toda a indústria do Carnaval carioca. É justamente de lá que saem os carros alegóricos, bonecos e alegorias que desfilam na Marquês de Sapucaí. Além dos galpões, a Cidade do Samba possui enorme pátio interno e estrutura coberta com palco, mesas e cadeiras onde acontece o show de samba Forças da Natureza, que oferece um pouco de Carnaval em outros meses do ano.
O diretor cultural e artístico do espetáculo, Milton Cunha, costuma receber os turistas logo na entrada da Cidade do Samba, sempre com um sorriso. Ele usa chapéu de pena de faisão francês e terno de lantejoulas prateadas. Nos arredores do palco, carros alegóricos de outros carnavais ambientam o show, que promete a emoção de um desfile na Marquês de Sapucaí em tempos não carnavalescos. O espetáculo Forças da Natureza acontece todas as quintas-feiras entre os meses de outubro e março, prometendo o espírito do grande desfile. Turistas sempre marcam presença na plateia.
Mas é mesmo nos quatro dias que antecedem a Quaresma que a Cidade Maravilhosa recebe a maior quantidade de turistas de todos os feriados do ano (supera o réveillon). A Riotur estima que no Carnaval de 2009 serão 719 mil turistas, injetando 519 milhões de dólares na cidade. O número de visitantes vem crescendo nos últimos anos e, com a crise financeira internacional, a expectativa é de que haja aumento no número de turistas brasileiros. Os estrangeiros representariam, na projeção da Riotur, somente 30% dos foliões visitantes. Pesquisa realizada em 2007 no Sambódromo revelou que 56% dos 8 estrangeiros se surpreenderam positivamente com a visita ao Rio de Janeiro e 94% indicariam o desfile das escolas de samba para seus amigos e conhecidos.
Na verdade, os turistas contam com um grande leque de opções para brincar o Carnaval. Além do famoso desfile na Marquês de Sapucaí, a cidade tem a festa dos blocos de rua, famosos por entoar antigas marchinhas ou sambas repaginados. São incontáveis os números de blocos que desfilam por várias zonas da cidade atualmente. Listas não oficiais publicadas na internet com o horário de saída das bandas no Rio indicam que existam pelo menos 90 deles na capital do Carnaval.
A explosão dos blocos de rua numa cidade até então dominada pelo desfile das escolas de samba aconteceu em 2001, quando uma novidade chamou a atenção de turistas e cariocas: criado por Pedro Luís e a banda A Parede, o Monobloco saiu às ruas cantando diversos ritmos musicais com os instrumentos e a batida do samba. Nesse primeiro desfile eles conquistaram 10 mil foliões na Gávea. Em oitos anos, chegariam a atrair 200 mil pessoas para Copacabana. O sucesso do Monobloco incentivou o êxito de blocos já existentes e incitou o surgimento de tantos outros. “É muito bom ver o carioca ficando no Rio de Janeiro para curtir os blocos na rua”, afirma Pedro Luís.
Realmente, durante algumas décadas, o carioca que não se interessava tanto pelo desfile das escolas de samba acabava abandonando a cidade no feriado do Carnaval. “Agora, fazemos questão de ficar no Rio. Adoramos o Carnaval de rua e vamos a muitos blocos”, contam os amigos e sócios Marcelo Pinho, 29, e Leonardo Simmer, 27. Eles são tão fãs desse outro Carnaval que criaram um bloco chamado Multibloco que sairá pela primeira vez neste ano.
Além da Sapucaí e dos blocos, o Rio de Janeiro oferece também a possibilidade de um festejo mais elegante nos bailes de clubes e hotéis. O mais famoso deles, que costuma reunir várias celebridades, é o baile do Copacabana Palace. “O baile é maravilhoso, é muito diferente de tudo que já vi e ao mesmo tempo uma tradição do Rio”, comenta a ex-miss Brasil Nathália Guimarães, que este ano será a rainha do Baile do Copacabana. Para a ocasião, onde será coroada, usará dois vestidos, um deles do estilista mineiro Victor Dzenk.
O baile Magic Ball, criado há 20 anos, reúne no sábado de Carnaval cerca de duas mil pessoas de distintas nacionalidades nos belos salões do Copa. Famoso por reunir apresentações de balé, orquestra e um elaborado bufê, este ano o baile tem como tema a Ópera, numa homenagem aos 100 anos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. De acordo com artista plástico e decorador da festa, Zeka Marquez, a noite mistura o teatro italiano com os bailes parisienses, “sempre com muita elegância e bom gosto”. A música é uma mescla de marchinhas de Carnaval com sambas-enredos, e o ingresso mais barato custa mil reais.
De acordo com Felipe Ferreira, autor de O livro de Ouro do Carnaval Brasileiro, a origem do desfile de pessoas fantasiadas e mascaradas pelas ruas do Rio aconteceu justamente devido aos elegantes bailes da época. Fantasiados, os foliões começaram a marcar encontros prévios e ir caminhando junto para o baile, dançando e brincando nas ruas. Esses passeios fantasiados e ornamentados com belas carruagens são, sem dúvida nenhuma, a semente que – 150 anos depois – brotaria na indústria do desfile das escolas de samba. A partir desses belos desfiles e ao longo dos 150 anos seguintes, viriam as agremiações carnavalescas, o samba, a disputa entre desfiles (inicialmente financiadoss pelos jornais da época), o patrocínio do poder público, as arquibancadas, os carros alegóricos maiores e mais altos, o investimento do jogo do bicho, a construção do Sambódromo, a admiração da classe média, a industrialização da folia e uma sucessão de outros fenômenos que culminaria no maior espetáculo do planeta. A única característica que se manteve intacta no Carnaval carioca desde seu surgimento há quase dois milênios foi seu objetivo: o de celebrar as coisas boas da vida.
MOMENTOS ALTOS DO CARNAVAL DO RIO
1553 – Chega o entrudo ao Brasil trazido pelos portugueses
1835 – Os primeiros bailes de máscaras do Brasil acontecem no Rio de Janeiro no hotel Itália e no café Neuville
1856 – Pela primeira vez um trecho de ruas foi enfeitado para receber o desfile das sociedades carnavalescas do Rio de Janeiro
1932 – Primeiro concurso oficial entre escolas de samba do Rio de Janeiro, patrocinado pelo jornal Mundo Sportivo. A campeã foi a Estação Primeira de Mangueira
1956 – Surge o bloco Bafo da Onça
1961 – Portela e Mangueira passam a cobrar ingressos para o público assistir aos ensaios de quadras
1968 – Lançado primeiro disco com sambas-enredos de escolas de samba do Rio
1976 – A Beija-Flor de Nilópolis surpreende o público apresentando superalegorias no desfile
1984 – Inaugurado o Sambódromo do Rio de Janeiro, projetado por Oscar Niemeyer e construído no tempo recorde de 120 dias
Fonte: O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro e Liesa
CURIOSIDADES SOBRE O CARNAVAL
- Os confetes teriam surgido por volta de 1780 no Carnaval de Roma, e eram feitos de grãos cobertos de açúcar ou gesso. Os confetes de papel viraram moda no Carnaval de Paris de 1892, quando foram vendidos 50 mil quilos de confetes por dia
- A serpentina surgiu um ano após a moda dos confetes, em 1893, e teria sido inspirada pelos rolos de fita azulada usada pelos telégrafos da época
- O lança-perfume chegou ao Rio de Janeiro em 1906 produzido pela empresa Rodo e era vendido legalmente na cidade. Foi somente em 1961 que uma lei do presidente Jânio Quadros proibiu o uso do cloreto de etila
- Os desfiles de pessoas fantasiadas e mascaradas no Rio de Janeiro tiveram origem nos bailes, que se espalharam pelo Brasil a partir de 1840. A alta sociedade que participava dos bailes carnavalescos começou a se reunir horas antes do evento para caminhar junto ao baile. Em pouco tempo passou a convidar a população para acompanhar a caminhada e começou a enfeitar as ruas para esse evento
- A primeira disputa entre agremiações carnavalescas no Rio de Janeiro aconteceu em 1929, mas avaliou somente o samba. O primeiro concurso que também julgou o desfile foi patrocinado pelo jornal Mundo Sportivo em 1932
|