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100 dias de solidão
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SAÚDE
De olho neles

O número de casos de diabetes tipo II em crianças e jovens de até 15 anos já é alarmante e os pais devem se manter alertas aos primeiros sinais

Texto: Renata Turra | Fotos: Pedro Vilela
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O velho dito popular "é mais fácil do que tirar doce da boca de criança" não funciona mais. O aumento de casos de diabetes tipo II na infância e adolescência mostra que pais e responsáveis estão tendo cada vez mais dificuldade para manter a alimentação saudável dos filhos. De acordo com a Internacional Diabetes Federation (IDF), de todos os casos da doença diagnosticados em jovens abaixo de 15 anos de idade no mundo, cerca de 2% a 3% é do tipo II. Parece pouco, mas não é. O número é considerável, e até mesmo alarmante, se considerar-se que a doença já foi chamada, há tempos atrás, diabetes do adulto, por acometer predominantemente pessoas acima dos 40 anos de idade.

O que faz da diabetes tipo II a grande vilã da modernidade é sua forte relação com hábitos de vida pouco saudáveis leia-se alimentação incorreta e sedentarismo. Ao contrário do tipo I, que geralmente aparece durante a infância e está relacionada a fatores genéticos, imunológicos e ambientais - como alguns tipos de vírus -, o tipo II está extremamente ligado ao excesso de peso. "Ele caminha lado a lado com outras doenças metabólicas como obesidade, colesterol e triglicérides altos, hipertensão arterial", esclarece o presidente do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e vice-presidente nacional da Sociedade Brasileira de Diabetes, Saulo Cavalcanti da Silva. É certo que a herança genética conta muito. Crianças cuja mãe, pai ou irmão sejam diabéticos estão mais propensas a desenvolver a doença. Mas o grupo de risco cresceu bastante depois que pizzas, lasanhas e salgadinhos congelados tomaram conta das geladeiras, e doces, bombons e biscoitos passaram a rechear as despensas e as merendeiras das crianças. "Os filhos seguem o exemplo que é dado dentro de casa. Os hábitos alimentares e esportivos dos pais influenciam na escolha das crianças", alerta Silva.

Entra aí um dos grandes dilemas das mães que trabalham fora o dia todo e por isso não conseguem controlar como deveriam a rotina dos filhos. E nem dar esse pre­cioso exemplo. A comerciária Cláudia Cristina de Azevedo Maia sabe como é difícil do­mar a gula do filho Vitor Hugo, 13 anos, que é pré-diabético. "Sou obe­sa, tenho colesterol alto e hipertensão, e meu marido é diabético. Sei que não posso descuidar com meu fi­lho", diz. Cláudia passou a regular melhor a alimentação de toda a família, orientada por uma endocrinologista. O próprio Vitor Hugo aprendeu a preparar lanches saudáveis. Mas às vezes ele escorrega e acaba comendo mais do que poderia. "Uma vez, assaltou a geladeira da casa da tia, que é vizinha, para comer macarrão", lembra Cláudia.

A endocrinologista Adriana Bos­co, diretora científica da So­cie­dade Bra­sileira de Diabetes Regio­nal Mi­nas Gerais, observa que a doença tem evolução lenta e silenciosa e, portanto, é fundamental ficar atento aos primeiros sintomas. O mecanis­mo que desencadeia a diabetes tipo II é a resistência à insulina, o hormô­nio responsável por levar a glicose do sangue para dentro das células. Um dos primeiros indícios de que o corpo está produzindo insulina demais é o aparecimento de uma mancha escura em torno do pescoço. "Beber muita água, urinar com frequência, cansar com facilidade e fi­car desatento na escola também po­dem ser sinais de alerta", reforça a endocrinologista.

Sinais que precisam ser controlados com urgência. A ordem é evitar a doença desde a infância, com dieta equilibrada e exercício físico regular. Duas medidas que, acreditem, podem prevenir 80% dos casos de diabetes tipo II. Uma dica é resgatar o velho hábito de jantar à noite. “Comprar lanches prontos é mais fácil, mas menos saudável, porque eles são ricos em carboidratos e gorduras”, orienta Bosco.

Foi o que mudou a vida de Philipe Ruschi Penna, 11 anos. Desde os cinco anos de idade, quando a família descobriu que ele estava há um passo de se tornar diabético, saíram de cena as batatas fritas, os nuggets e os biscoitos recheados. Entraram o arroz com cenoura, as saladas de legumes, de folhas e frutas, que hoje ele mesmo ajuda a mãe, Ana Cristina Penna, a escolher no sacolão. E ainda leva os colegas às compras com ele. “No início foi estranho, porque estava acostumado a comer besteiras. Mas agora acostumei”, conta.
Para incentivar o filho único, pai e mãe aderiram aos novos hábitos. Os três controlam a alimentação com um nutricionista e praticam ginástica na mesma academia. Nos fins de semana, deixaram de lado a televisão e os jogos de videogame e passaram a ir mais ao clube. O esforço não tem sido em vão. “Antes eu me cansava muito rápido. Agora estou mais bem disposto”, conta Philipe, que completa o tratamento com uso de medicamentos. Para os pais, os resultados também são compensadores. “Demoramos um tempo para entender a dimensão do problema, e a adaptação foi difícil. Mas hoje, não só o Philipe controlou o peso. Eu e meu marido também emagrecemos”, comemora Ana Cristina.

A mudança chegou ainda mais cedo para a família de Camila Zechlinski Machado, de apenas três anos de idade e que há três meses foi diagnosticada com diabetes tipo I. “Foi um choque. O mais difícil é aceitar a situação”, diz a mãe, Ana Cristina Zechlinski.  Mais uma vez, a atenção dos pais foi essencial para que a doença fosse descoberta a tempo. “Ela começou a levantar à noite para beber água e a urinar muito. Achamos que havia algo errado e procuramos um especialista”, conta Ana.

No caso de Camila, as causas não estão ligadas ao aumento de peso, como acontece na diabetes tipo II. Mas além do uso da insulina, a alimentação saudável, claro, é primordial para o controle da doença. “O primeiro passo foi cortar completamente o açúcar da dieta, que foi substituído pela sucralose”, conta a mãe. Camila também passou a praticar natação três vezes por semana, além do balé. Para trocar experiências sobre o problema, Ana quer participar de associações e grupos de pais de crianças e jovens com diabetes. Um bom caminho para ajudar os familiares a conviver com a doença enquanto a cura não chega.

EPIDEMIA DO SÉCULO

  • milhões de pessoas acometidas em todo o mundo

  • Em 2025, a estimativa é chegar a 380 milhões

  • De 1990 até hoje, a prevalência aumentou a uma velocidade de 4,6% ao ano

  • No Brasil, calcula-se que 12% da população entre 30 e 69 anos seja portadora

  • A doença ainda não tem cura

  • Diabéticos apresentam duas vezes mais chance de sofrer ataques cardíacos e estão mais sujeitas a derrames cerebrais e problemas vasculares periféricos, que vão desde perda de sensibilidade nos pés até amputações, nos casos mais avançados.


    Fonte: Internacional Diabetes Federation  (IDF)

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