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turismo
O Pecado é não ir
Cartagena de las Indias, na Colômbia, Patrimônio da Humanidade pela Unesco: o povo, a cultura e as belezas dessa cidade valem o passeio.
Texto: Ana Cristina d'Angelo | Fotos: Keystone
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O contrabaixo que pontua a salsa é a melhor orientação para uns dias em Cartagena de las Indias. Seguir o ritmo do instrumento será dica única e fundamental para caminhar pelas ruas do século XVII, conversar com a alegre gente cartagenera, comer sua comida salpicada de banana, coco e rum, ler seu mais ilustre habitante, Gabriel García Márquez. Ou ainda visitar os sítios de interesse, dar a volta completa à muralha construída para proteger esta cidade, considerada uma das mais belas do nosso continente, Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
Quando Gabo chegou a Cartagena, a dona da pensão advertiu: “Acá todo es distinto.” E o então jornalista não se fez de rogado. Viu um povo curioso e escreveu como ninguém histórias que exalam a paixão caribenha e as contradições de um lugar vítima de mais uma tacada da dominação espanhola – que usou a cidade para escoar toda a riqueza saqueada da América do Sul. Alvo de ataques de piratas, recebeu negros vindos da África. E de como essa mistura se espalhou pelas ruas em forma de arepitas, salsas, rumbas, gambiarras para driblar a pobreza material, nunca a de espírito.
Vida moderna, pero no mucho, ao lado de sofisticados e impessoais hotéis cinco estrelas, o visitante vai encontrar, à distância de poucos metros, gente da cidade jogando xadrez com garrafas cheias de areia e decoradas para se fazer a distinção entre as peças no meio da praia. Vai ser abordado também pelos fazedores de chamadas, os que alugam minutos de telefone celular e fazem ligações para qualquer parte a preços módicos. A profissão informal é salva-vidas para um lugar onde o desemprego é alto, a despeito do turismo intenso que toma a região o ano inteiro.
O maravilhoso mundo contemporâneo de Cartagena inclui massagens. Onde você estiver uma bela mulher e seu baldinho de creme vão aparecer. E elas são insistentes, e elas abaixam o preço, e elas pegam sua mão, amaciam seu pé 8 até você se entregar. São centenas de massagistas, assim como os fazedores de chamadas que convivem com o mundo formal da cidade, entre funcionários uniformizados ou bancários engravatados, em número bem menor estes últimos. Não custa lembrar que a Colômbia é um país em guerra civil, a despeito de Cartagena estar longe da área de atuação dos guerrilheiros. Ainda assim, há homens camuflados do exército nas ruas, eles dão bom-dia e boa-noite aos turistas e dificilmente você será abordado. Da mesma maneira, a despeito da desigualdade social, Cartagena não é uma cidade violenta e é feita sob medida para se andar nela e ser apreciada.
Uma antiga prisão de quando a cidade ainda era colônia se transformou em centro de artesanato de Cartagena. As celas viraram lojinhas tentadoras. O cálculo é simples. Coloque três zeros no seu real e vá às compras na Colômbia. Trabalho dos índios de várias tribos do país com bolsas, calçados, capas de almofadas, moedeiros é irresistível. O tradicional e exportado café colombiano para levar de presente é mais barato em supermercados. Mas um café da manhã cartagenero, por exemplo, pode ser na rua. A todo momento aparecem vendedores de tinto, como é chamado o café puro, sem leite, comercializado na rua, bom e barato. Eles passeiam todo o tempo com suas garrafas térmicas e você pode comprar uma arepita para acompanhar. O pão redondo de mandioca passado na chapa amanteigada é boa pedida. Na versão light, um café cartagenero, na rua, inclui muitas frutas. Melancia, mamão, tangerina, manga já vêm picadas, sem casca, frescas, num saquinho com colher. As palenqueras são mulheres vestidas de modo original que carregam a bacia na cabeça e vendem salada de frutas. São homenageadas em bonequinhas, esculturas e fazem parte do cenário da cidade. Essa porção diária de frutas é até aconselhável para o calor molhado e desassosegado do ano inteiro em Cartagena.
E mastigando frutinhas você pode dar a volta pela muralha construída em 1586 para proteger a cidade dos ataques de piratas. Sir Francis Drake foi o ousado invasor inglês que chegou sem cerimônias à cidade e provocou a reação protetora dos espanhóis. Nesse agradável e imaginativo passeio pela muralha, alguns pontos são imperdíveis, como o hotel Sofitel Santa Clara. O claustro do século XVII foi divinamente restaurado, conserva a arquitetura dos salões usados como capelas, subsolo e um pátio interno memorável. Mesmo que você não queira gastar os 175 dólares a diária por pessoa na baixa temporada, o hotel recebe visitas gratuitas durante o dia.
Ainda neste giro histórico-arquitetônico-religioso um dos prédios mais característicos é o Palácio da Inquisição. A outrora sede oficial de tortura e cárcere da Igreja Católica no novo mundo instalou-se na cidade em setembro de 1610 e ali permaneceu por mais de 200 anos. Só o portão dá medo e se pode ver as salas e celas na visita ao que hoje é museu. Das obras militares, além da já impressionante muralha, o castelo de San Felipe de Barajas carrega o título de maior edificação de engenharia militar das Américas.
O castelo conta com uma grande entrada principal e guarita de guarda, também com uma praça de armas, poço, galerias subterrâneas, armazéns de pólvora e locais para a artilharia.
Chega de armamentos, piratas e lembranças de invasões. Que tal as paradisíacas praias de Cartagena? Aqui valem todos os clichês: água cristalina e morna, areia branca que não queima o pé, coqueirinhos, mergulhos da cor do céu. De Cartagena mesmo o visitante pode tomar barcos ou lanchas para praias lindas de morrer bastante próximas. Ilha do Rosário é uma delas. Apesar de tomada de ambulantes por todos os lados, ela preserva espécies em extinção e é o lugar ideal para mergulhos em que se observa os corais.
A playa Blanca fica um pouco mais distante mas tem costa maior para banho e uma opção é ir direto para lá, passar o dia na tranqüilidade. O preço dos passeios inclui almoço nas cabanas da praia: arroz de coco, peixe frito e patacones (banana verde frita com sal é uma explicação empobrecedora). Dá para dormir na praia e voltar no dia seguinte. Você pode alugar uma rede debaixo de uma cabana de palha por cerca de 10 reais a noite.
De volta à cidade, o tour histórico pode ser no final de tarde, a pé ou de charrete. É uma delícia observar as casas coloniais, com seus balcões de madeira e pátios azulejados e terminar com um doce no Portal de los Dulces. Uma infinidade de docinhos em formato de boneca, bichos, frutas locais. O portal abre cedo e é ali também que fica uma casa de salsa com o nome genial de Donde Fidel. A música toma de assalto e os vendedores de doces batem seus pezinhos logo na primeira hora. Como não há perfeição, ao lado da Donde Fidel há um Hard Rock Café para quem viaja sem sair do lugar.
Já que a pedida noturna é salsear ou rumbear, anote as melhores casas. Quebra Canto fica numa casa de varanda com vista para a praça dos mártires. A música é de primeira e a decoração tem pôsteres de filmes e bandas latinas e as prometidas fotos de Gabriel García Márquez tocando maricas. Não cobra entrada e é freqüentado por uma mistura boa de gente – de exímios dançarinos locais, passando por brasileiros que mexem da cintura para baixo a turistas com quase nenhum traquejo para a coisa.
Na esquina e com motivos cubanos até o teto, o La Habana tem música ao vivo para bailar e está sempre lotado. É o preferido dos turistas, mas o balcão que dá a volta completa no estabelecimento convida para um mojito. La Esquina Sandiegana é de bairro, quase escondida numa esquina do centro histórico mais residencial. É como uma confraria de salseadores do bairro San Diego. São eles os freqüentadores, os DJs e os retratados nas paredes. Vira um bailão imperdível nas quintas e sextas.
Dicas
Passeios nas praias
Ilha do Rosario, playa Blanca,
parque Tayrona
Passeios na cidade
A pé ou de charrete, observe:
Hotel Charleston Cartagena,
Claustro e igreja de San Pedro Claver,
Puerta del Reloj,
Portal de los Dulces,
Parque Bolívar,
Palacio de La Inquisicion,
Claustro e Igreja de Santo Domingo,
Teatro Heredia,
Casa De La Moneda,
Hotel Sofitel Santa Clara,
Parque Centenário,
Castelo de San Felipe de Barajas
Restaurantes
El Santissimo,
Mulata,
Donde Olano
Cafés
Juan Valdez é uma cooperativa de cafeicultores colombianos desde o plantio até cafeterias simpáticas espalhadas pelo país.
Em Cartagena há pelo menos três.
Para dançar
La Habana,
Quebra Canto,
La Esquina Sandiegana,
Donde Fidel
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