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meio ambiente
Um aeroporto vem aí

Projeto da Usiminas de construir nova pista de pouso de aeronaves no Vale do Aço esbarra em algumas questões ambientais que já estão sendo esclarecidas pela siderúrgica

Texto: Flávio Penna | Fotos: Divulgação
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Usiminas tem pronto um projeto para investir 14,1 bilhões de reais na ampliação de sua usina de Ipatinga e na construção de nova unidade na área. A decisão deve gerar 3,5 mil novos empregos fixos e 20 mil na fase de obras. A nova usina vai ocupar área de dez milhões de metros quadrados, dentro da qual se situa o aeroporto da empresa, que hoje serve a toda a comunidade do Vale do Aço. Nele operam duas empresas com vôos regulares, atendendo a 125 mil passageiros por ano e com 20 operações diárias. Como o aeroporto transformou-se em equipamento comunitário, apesar de ser de propriedade da empresa que o gerencia sem ajuda financeira ou operacional da Infraero, a sua desativação criará uma série de transtornos para a região. Resultado: a Usiminas se comprometeu com o Ministério Público a só desativar o aeroporto após a construção de outro.

O local escolhido foi uma área de plantação de eucalipto da Cenibra. Para instalar ali o novo aeroporto, a Usiminas comprou 511 hectares de terreno, usados para reflorestamento para fins industriais. Não existe no local mata nativa, embora ele se situe a menos de um quilômetro dos limites do Parque Estadual do Rio Doce. Aí começaram os problemas. Por causa desta proximidade, há um movimento da comunidade científica contrário à construção do aeroporto, sob a alegação de que  poderá impactar de forma negativa o ecossistema do parque.

Para o biólogo Eduardo Figuei­redo, da Assessoria de Susten­tabi­lidade e Apoio ao Meio Ambiente da Usiminas, a possibilidade de impactos ambientais é real. Os mais evidentes são a geração de ruídos, com reflexos sobre a fauna, a possibilidade de atropelamento de animais, não na pista de operações, mas na rodovia de acesso, que terá seu tráfego aumentado e por uma possível expansão urbana na área.

“Certamente haverá impactos. O que não se conhece, pela inexistência de estudos científicos sobre o assunto, são as conseqüências da operação de um aeroporto próximo a um parque florestal. Não se sabe, por exemplo, se os ruídos influenciam na vocalização de macacos e pererecas que se comunicam por sons. Os aeroportos de Manaus e Carajás, por exemplo, operam em condições semelhantes ao que vamos construir, mas não existem estes estudos detalhados.”

A realização destes estudos, num prazo de cinco anos, é uma das obrigações assumidas pela empresa no termo de compromisso assinado com o Ministério Público. Mas como o funcionamento de aeroportos é, reconhecidamente, fator de emissão de ruídos, algumas medidas, usuais nos casos, serão adotadas, com base em estudos preliminares que estão sendo realizados há mais de um ano por especialistas contratados pela Usiminas.

“Vamos adotar medidas dentro da tecnologia disponível para minimizar os ruídos dos aviões no chão. Em relação ao sobrevôo das aeronaves no parque, o novo aeroporto traz ganhos consideráveis, com redução de possíveis impactos. Para atingir a pista atual, os aviões sobrevoam 14 km do parque, em altitude abaixo de mil metros. A nova pista vai fazer com que eles façam um sobrevôo lateral, de apenas 6 km, e em maior altitude, o que diminui riscos e interferências com a flora e a fauna”, afirma Figueiredo.

O cientista Sérvio Pontes Ribeiro, professor de ecologia&evolução, da Universidade Federal de Ou­ro Preto, discorda. Para ele, o aeroporto próximo ao único seguimento contínuo de Mata Atlântica existente no estado é um risco inaceitável. Ele lembra que é do parque que são retiradas praticamente todas as mudas de reflorestamento para a recomposição da mata e a sua destruição traria prejuízos incalculáveis. “Não se pode admitir a desculpa de que os estudos serão feitos com o aeroporto em funcionamento. As condições que estão no termo de compromisso assinado com o Ministério Público não têm nenhum fundamento e várias são impraticáveis.”
Já o promotor da Justiça Especializada na Defesa do Meio Am­biente de Ipatinga, Walter Freitas de Moraes Júnior, considera que o termo de compromisso assinado pela Usiminas tem cláusulas que atendem às condições para a operação do aeroporto. As condicionantes foram estabelecidas com base nos estudos de impacto ambiental e no relatório de impacto ambiental, apresentados ao conselho consultivo do Parque Estadual do Rio Doce e ao conselho gestor do parque, que autorizou o empreendimento. O promotor ressalta, no entanto, que o termo de compromisso não substitui as licenças dos órgãos ambientais estaduais e federais. Enquanto o promotor evita a polêmica com a comunidade ambientalista, o prefeito de Bom Jesus do Galho, onde o aeroporto será construído, Aníbal Borges, do PT, é incisivo na defesa do empreendimento.

“Claro que a preservação  da floresta, com sua fauna, é importante e deve ser uma preocupação. Mas não podemos nos esquecer de que a preocupação maior deve ser com as pessoas”, ressalta. Segundo Borges, de nada adiantará a mata preservada se o povo continuar no estado de miséria. “O aeroporto é importante para o desenvolvimento do município e da região. Além de atração de investimentos industriais, ele ajudará na promoção da atividade turística em nosso município.”

A aprovação do prefeito está sustentada na posição da comunidade. Na audiência pública realizada no município, e nas várias reuniões para exposição dos projetos, o empreendimento recebeu apoio unânime da comunidade, salvo alguns ambientalistas que demonstraram preocupação com possíveis impactos no parque que, reafirma Eduardo Figueiredo, é também preocupação da empresa. “Não há como você conscientizar as pessoas sobre preservação, se elas precisam de buscar diretamente na natureza a sua sobrevivência. Nosso propósito é de executar projetos de educação e de treinamento das famílias que vivem na região, ensinando o manejo correto do solo, técnicas de plantio e de pecuária para que elas possam evitar a degradação ambiental.”

Para construir o aeroporto, a Usiminas investirá 80 milhões de reais. O projeto é colocá-lo em operação em agosto do ano que vem, mesmo que não totalmente concluído, para desativar o atual, permitindo assim o início das obras da nova usina. Para isto a empresa aguarda o licenciamento para o empreendimento.

“Não vamos cortar uma árvores sequer da mata nativa. Vamos, sim, assumir o parque, criando instalações para a polícia ambiental, para o Corpo de Bombeiros que va­mos equipar”, diz Delson Tolentino, assessor de relações institucionais da Usiminas, que completa: “Não iríamos expor o nome da Usiminas, que tem enorme tradição de preservação ambiental, se não tivéssemos absoluta convicção do que vamos realizar.”

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