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Ciência
Quer menina ou menino

Medicina já consegue definir o sexo antes da gestação. Discussão sobre se esta decisão poderia ser estendida aos pais causa polêmica.

Texto: Renata Turra l Fotos: SXC - Fotomontagem: Paulo Werner
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Quem tem filho sabe. Não há nada mais aguardado durante a gravidez pelos futuros pais do que o momento de descobrir o sexo do bebê. A expectativa é tão grande, que a grande maioria lança mão de exames de diagnóstico cada vez mais sofisticados para saber, o quanto antes, se terá um herdeiro ou herdeira. A verdade, porém, é que se dependesse apenas da ciência, a clássica pergunta menino ou menina? nem precisaria ser feita. Com os avanços da medicina reprodutiva, já é possível escolher o sexo do neném antes mesmo do início de uma gestação.

O estudo genético de embriões, utilizado em tratamentos de reprodução assistida como a fertilização in vitro, permite não só diagnosticar doenças hereditárias como fazer a separação entre os embriões masculinos e femininos.

Quem sonha com essa possibilidade, porém, não precisa ficar animado. A ciência pode não impor limites, mas a legislação brasileira sim. A técnica de seleção de embriões por sexo só é permitida no país quando um dos membros do casal tem alguma doença genética, como as ligadas ao cromossomo sexual X.

Quando isso acontece, muitas vezes as chances de herança do problema são maiores apenas para um determinado sexo. “O objetivo da seleção é evitar que essas doenças possam ser transmitidas para os filhos”, explica o ginecologista Roberto Pimenta Barroso, especialista na área de infertilidade em Belo Horizonte.

A literatura médica cita a existência de pelo menos seis mil doenças hereditárias. Destas, cerca de 370 estão ligadas ao sexo. São patologias raras, mas que podem comprometer a qualidade de vida dos indivíduos. Entre as mais conhecidas está a distrofia muscular de Duchenne, que afeta o tecido muscular, alguns tipos de hemofilia e a fibrose cística. Conhecer a história familiar an tes de tomar a decisão de ter um fi lho, portanto, é o caminho mais in dicado para evitar que essas do enças se perpetuem. Quando se comprova a existência do problema e a possibilidade de transmiti-lo aos descendentes de um determinado sexo, aí sim, a seleção de embriões é permitida e, em muitos ca sos, aconselhável pelos médicos. “E ao que tudo indica, a legislação não deve mudar”,
acredita Barroso.

Ainda bem. Afinal, o que seria do mundo se qualquer casal pudesse entrar em um consultório e escolher o filho ideal? “No mínimo, haveria um desequilíbrio populacional”, diz Barroso. A preocupação tem todo o sentido. Basta imaginar o que poderia acontecer, por exemplo, em países onde há forte cultura de valorização do sexo masculino. Questões éticas como essa, entretanto, parecem não ser suficientes para barrar o ser humano na sua ânsia para conseguir controlar a natureza. O especialista conta que alguns casais chegam à sua clínica em busca de tratamentos de reprodução assistida com o único intuito de escolher o sexo do bebê.

O mesmo acontece no Instituto de Saúde da Mulher, em Belo Ho rizonte. A embriologista Raquel de Lima Leite Soares Alvarenga, coordenadora do laboratório de reprodução humana do centro, estima que, se fosse permitido, o Instituto atenderia no mínimo a 20 casos por ano. À lista de problemas que a escolha do sexo poderia trazer, Raquel acrescenta a baixa taxa de sucesso dos tratamentos, que chegam a custar 15 mil reais por mês. A chance de gravidez por fertilização in vitro, normalmente, é de 35% a cada tentativa. “Quando é aplicada a seleção, esse
percentual cai devido à maior manipulação dos embriões”, informa. Trata-se de uma limitação da própria técnica. 0Há ainda as falhas que podem ocorrer durante o processo de dia gnóstico e que inviabilizam o tratamento. Por tudo isso, Raquel enfatiza: “Seleção de embriões deve continuar sendo feita apenas para prevenção de doenças familiares”.

Mas há também quem defenda a liberação da escolha do sexo antes da gestação. A geneticista Patrícia Vaintraub, diretora científica do centro de genética e reprodução Geneticenter, em Nova Lima, diz que não vê muitos problemas no procedimento. Na sua opinião, o estudo genético dos embriões deveria ser realizado sempre que possível para garantir a qualidade morfológica e molecular do futuro feto. Selecionar o sexo desejado pelo casal seria uma etapa desse processo. “Independentemente de serem estudados ou não, todos os embriões excedentes serão congelados e poderão ser utilizados em uma nova tentativa de fertilização, caso seja necessária”, afirma. Resta saber se, com todo o potencial e as possibilidades da medicina reprodutiva, filhos não acabarão se tornando artigo que se escolhe nas prateleiras.

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