Home - Revista Viver Brasil   Thursday, 24 de May de 2012  
 Acesso Restrito

Capa
Para que tanta pressa?
Nesta edição

emprego
Vagas vão sumir

Projeto do governo concede mais benefícios aos trabalhadores domésticos. Se aprovado, previsão é que mais de um milhão percam o emprego.

Texto: Janaína Oliveira
Opiniões e sugestões sobre a matéria?
Mande e-mail para redacao@revistaviverbrasil.com.br



Há 22 anos, a pedagoga Rita Maria Fernandes Marcondes tem a empregada doméstica Laura da Conceição como seu braço direito. A secretária, como Rita a chama carinhosamente foi fundamental em sua casa no momento em que ela se divorciava do marido e ainda tinha que trabalhar fora e tomar conta de dois filhos pequenos. “Ela me deu uma mão muito boa. Hoje, continua cuidando da casa, me ajuda com minha mãe, de 90 anos, e também faz faxina para o meu filho casado”, conta a pedagoga, que não pretende dispensar os preciosos serviços de Laura tão cedo. No entanto, um projeto do governo federal, que visa justamente a melhorar a qualidade do emprego do trabalhador doméstico, pode obrigar Rita a rever esses planos e optar por manter apenas uma diarista alguns dias da semana.
Isso porque a Proposta de Emenda Constitucional (PEC), que está em estudo por cinco ministérios (Trabalho, Previdência Social, Casa Civil, Fazenda e Planejamento) e pode chegar ao Congresso até o final deste ano, muda a legislação para a contratação de empregados domésticos e deve fazer com que os encargos trabalhistas para o empregador, no mínimo, dobrem, em relação ao que existe hoje. “Já pago um salário e meio para a Laura, na carteira, tudo certinho. Se o custo para mantê-la for subir mais, terei que repensar a contratação”, lamenta a pedagoga.

A PEC consiste na equiparação dos direitos dos mais de 6,7 milhões de empregados domésticos existentes no Brasil, conforme os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), com os dos demais trabalhadores. Se aprovada, ela fará com que esse profissional tenha direito à jornada de trabalho estabelecida em lei, recebimento de horas-extras e adicional noturno, além do salário-família e ao depósito obrigatório do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), que, hoje, é opcional para os patrões. A idéia, segundo a assessoria de imprensa do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), é acabar com a discriminação que existe em relação a essas contratações, melhorando a qualidade das vagas para quem presta serviços às famílias.

A ampliação dos direitos, no entanto, preocupa especialistas na área, que temem pelo aumento da informalidade e das demissões no segmento. Um deles é o consultor Mário Avelino, presidente do site Doméstica Legal. “Fizemos pesqui­sa com nossos clientes, que mostra que apenas um terço dos empregadores atuais manteriam os empregados. E são aqueles pertencentes às classes A e B. A classe média não poderia arcar com a elevação dos custos”, revela. Ele estima que, do 1,8 milhão de trabalhadores domésticos com carteira assinada atualmente, só sobrariam cerca de 600 mil.

Para Avelino, a obrigatoriedade do depósito do FGTS – e, conseqüentemente, o pagamento da mul­ta de 40% sobre o fundo em casos de demissão sem justa causa – se­ria um dos pontos principais para inibir as contratações. “Nesse segmento, de cada dez demissões, apenas uma parte do empregado”, justifica. Já o pesquisador do Departamento de Estatísticas e Estudos Socioe­co­nômicos (Dieese), Mário Ro­darte, é favorável à PEC. “A precarização do emprego não pode servir de desculpas para que mais pessoas sejam contratadas”, ale­ga. Ele reforça que o emprego doméstico é um dos maiores do país, porém também um dos mais fragilizados. “É lógico que haverá um impacto, com o desligamento de alguns vínculos, porém as contratações serão de melhor qualidade”, argumenta. Para Rodarte, a demissão de empregados domésticos está mais ligada ao agravamento da situação econômica que a aumento de encargos trabalhistas.

No entanto, criar mais direitos para uma categoria que não consegue oferecer qualificação suficiente é decretar o aumento das demissões, pelo menos na avaliação de Graça Lacerda, proprietária da agência de empregos London Contatos. Segundo ela, é muito difícil hoje encontrar domésticas com o mínimo de qualificação, o que gera alta rotatividade no setor. “O que chamo de profissional qualificada é aquela que tem segundo grau completo, no mínimo, sabe fazer compra e controle de economia doméstica, respeita rigorosamente os horários, sabe auxiliar o patrão a receber visitas e preparar um jantar para isso, por exemplo, e saber se comportar em uma casa que não é dela”, enumera. Há 30 anos no mercado de agenciamento de domésticas, a empresária não acredita que os patrões conseguirão, como contrapartida à criação de novos direitos e, portanto, mais custos, melhor qualificação das funcionárias. “Elas próprias carregam um preconceito muito grande em relação à profissão, e não fazem o menor esforço para se qualificarem.”

 

Topo ^                                                                                                                                                 <Voltar Para Edições Anteriores
colunistas
 

Copyright © 2008 - Revista Viver Brasil. - Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.
Web Consult - Soluções em Internet