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Para que tanta pressa?
Filho, escola, trabalho, telefone que toca, compromisso, agenda cheia, trânsito, horas que passam. Alguns
pedem licença: pára o mundo que eu quero descer.
Texto: Silvânia Arriel
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O relógio vai numa cadência frenética. Ontem já é passado quase remoto. Há metas a cumprir. O trabalho tem de ser feito. O trânsito rouba minutos preciosos. Não se pode ter lerdeza no compasso das horas. Muitas escolhas, mas os segundos passam. Se houver erro, muda-se. Não há tempo a perder. Ele voa. Há pressa, pressa. O final do ano chegou, o tempo se acelera ainda mais, as horas parecem ter virado minutos. Não se pode parar, pedir para sair desta roda. A China, o Japão estão logo ali, encurtados pela tecnologia, que até subverte a natureza, sincroniza o relógio, 12 horas à frente. Achata-se, comprime-se, e você no meio de tudo. É levado. Não há tempo nem para pensar por que tanta pressa. Corre-se o risco de prever o futuro e ele... já se foi.
É tudo urgente. Tem de ir, ir. Para onde? Isto é pergunta que se faça agora? Mais tarde, se houver tempo. O mundo exige agilidade. “Encorajam-se todos a serem apressados, a concluírem suas tarefas em menos e menos tempo. Envolvem-se em um viver frenético, onde as realizações assumem papel prioritário”, diz a psicóloga Marilda Novaes Lipp, professora da PUC Campinas e diretora do Centro Psicológico de Controle do Stress, num raro momento livre. Ela também tem pressa. Assim exige e corre a sociedade pós-moderna, sem fôlego para raciocinar, numa adaptação atualizada do pensador francês René Descartes, do século XVII: faço, logo existo.
“Em nossa sociedade, o vencedor é aquele com a agenda mais cheia”, afirma o cientista social Rafael Alves da Silva, da Unicamp. Tempo e produtividade se comprimem cada vez mais: as metas antes anuais passaram a ser trimestrais, daqui a pouco podem ser mensais, semanais, diárias. “Estamos pressionados pelo relógio”, diz Sigmar Malvezzi, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Também pelo espaço, encurtado pela tecnologia em segundos. Atuamos onde os olhos não vêem, nem os braços tocam. Há televisão, computador com informações ao vivo, telefones. Hoje Sigmar dá aula para 4,5 mil pessoas, em oito países, durante uma hora e meia. “Do modo convencional levaria, no mínimo, quatro meses.”
O telefone se soma à internet, à TV: faz tudo ao mesmo tempo. Olha a produtividade! Até ficar no elevador é desperdício de tempo. O estudante de computação Maurício Klamt, da Unicamp, está no bate-papo virtual, ao telefone, de olho no sobe e desce das ações das bolsas de valores mundo afora, nas aulas que dá para investidores. As letras das conversas on line são reduzidas, fala rápido ao telefone, quase é preciso ligar a tecla SAP. “Estou conectado ao mundo. Sempre foi assim”, diz ele, 21 anos, desde os 16 com investimentos na bolsa. Acostumou-se a essa vida efêmera, do momento, de ganho e perda de dinheiro rápido. Desconectou-se foi do hábito de leitura de jornais e livros, dos namoros. “Está difícil.”
As sensações são imediatistas. Os relacionamentos instantâneos, de horas, porque amanhã é outro dia. Não há tempo para conquistar, cultivar raízes de amizades profundas. Tem conhecidos, colegas de trabalho. O afeto fica para o futuro, quando estiver rico. Há pílulas para amenizar as angústias, a solidão, que fazem efeitos rápidos. Se persistir, deixa para depois, há a vida alongada pela ciência à frente. “As pessoas têm dificuldades de convivência. Querem conhecer o outro num jantar”, afirma o psicólogo Milton de Oliveira, autor do livro Energia e Emoção.
Aprender rápido, ter informações na hora, fazer cursos instantâneos numa velocidade impraticável para o cérebro humano. Aí, fica superficial, sem se aprofundar, amadurecer. “No movimento de inovar sempre, muitas decisões são tomadas sem a maturação necessária”, avalia o cientista social. O mundo quer respostas imediatas, não há o que pensar, mas fazer, entrar neste compasso acelerado. “Eu gosto deste ritmo, porque faço o que gosto”, diz a arquiteta Graziella Nicolai. Adaptou-se, já convive com a pressa desde criança e sabe ser prática: escova os dentes pela casa, associando isso a outra atividade, fala ao telefone só o necessário e usa roupas fáceis de vestir. Nada que prejudique a agilidade da vida, co-participada com bons funcionários no escritório e em casa para cuidar do filho. Pensa em ter outro? “Não, a gravidez é muita lenta.”
Vamos, rápido. Não há como frear o planeta, cada dia menor com a tecnologia de informação. “Todo mundo pede as coisas para ontem”, diz a empresária e designer de bolsas e sapatos Elisa Atheniense, que está tentando impor limites à pressa. Cada dia está num lugar por força da profissão, tenta se programar e mudanças são inevitáveis. Delega mais poderes, mas há situações em que é insubstituível. “Tenho consciência que é até um vício.” O problema é parar, ir no sentido contrário ao da multidão que vem embalada rumo a não se sabe onde, sujeita a ter problemas de saúde. O corpo reclama com o estresse, mal-estar, ansiedade generalizada. “Mas o homem pós-moderno prefere ignorar, pois não tem tempo a perder se auto-observando”, afirma Marilda Lipp.
Vai levando, tocado, empurrado. Há sinal vermelho a alertar que é necessário administrar, a avaliar o custo/benefício da pressa. Já não dizem que tempo é dinheiro. “É preciso ter coragem para abdicar de uma parcela do sucesso, que embora tentador, pode também acelerar o fim da vida”, sentencia a diretora do Centro Psicológico de Controle do Stress. É melhor respirar fundo, ir se soltando, no ritmo cadenciado da natureza humana, da meditação, da ioga. Falar pausadamente, pensar no que deve ser feito, sem pressa, o dia se desdobra em 24 horas, 1440 minutos a serem vividos. Ligar a câmera lenta.
Ana Virgínia Azevedo Souza distendeu o seu tempo. Largou a profissão acelerada de jornalista e entrou noutra, a de professora de ioga, que exige tranqüilidade, repassada para as atividades diárias. “Quando estou cansada, desmarco as aulas. Evito sair de casa nos horários de pico do trânsito, ir a locais cheios. Meu filho estuda perto de casa”, conta. Aprendeu a não se estressar na fila dos supermercados, o que acontecia com freqüência antes, a ficar fora desta roda frenética. Não de todo. “Se vivesse numa comunidade isolada conseguiria, mas estou aqui.” Tem de conviver com a população estressada. Nem a profissão dela, ou a do restaurador Adriano Reis Ramos, que gasta meses a escamar as pinturas alheias à peça de arte, anos a recuperar os danos do passar dos anos, logo o tempo, ficam imunes à afobação generalizada. “É um trabalho moroso, cheio de nuances e as pessoas, às vezes, não entendem. Quando quebram a peça, aí é que ficam loucas para ficar pronta”, diz Adriano, que emenda com os ditos populares: a pressa é inimiga da perfeição, vai devagar que o andar é de barro. Ele mesmo é elétrico, agitado, fala rápido, mas se tranqüiliza quando começa a recuperar as obras de arte. Não há como correr, mesmo que queira, a profissão freia o ímpeto alucinado que paira no universo e produz bens e serviços duradouros. “Dorival Caymmi levou mais de dez anos para compor a música Marina Morena, que está aí até hoje.”
Incluem-se aí as pesquisas, que se traduziram em medicamentos, produtos tecnológicos, o telefone, a internet que, num paradoxo, aceleram a vida, num círculo vicioso. O professor Robson Augusto dos Santos, coordenador do Departamento de Fisiologia e Biofísica da Universidade Federal de Minas (UFMG), se debruça há mais de 20 anos sobre o peptídeo angiotensina, que controla a pressão arterial, na busca do conhecimento. Já está na iminência de o medicamento ir para o mercado tratar doenças cardiovasculares e renais, que fazem tantas vítimas. “Entramos agora no caminho dos apressados: registrar patente, coletar provas, gerar o produto”, diz.
Transferir benefícios à sociedade, hoje tão afoita, que até precisa de certa velocidade para ser impulsionada, concordam os especialistas. Não com tanta afobação. “Seria interessante que a sociedade discutisse em que ter pressa, o que fazer com a velocidade conquistada”, diz o cientista social Rafael Silva. O que planejar para este tempo adicionado, que a gente tenta reduzir com tantos afazeres. Dá o que pensar para existir bem, sem agenda cheia.
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