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família
Disputa Sadia
Desde o nascimento, os pais devem ensinar aos filhos a máxima de que o importante é competir, mas sem exageros.
Texto: Raquel Ayres | Foto : Daniel de Ciqueira
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Um lugar ao sol. Seja pela vaga no vestibular, a atenção quando se fala em público, ou o trabalho pretendido por muitos candidatos, estamos sempre competindo. Afinal, foi também assim que o homem chegou onde está: o sucesso na disputa pelo alimento, o melhor território,
pelo macho ou fêmea reprodutores resultaram na sobrevivência dos seres mais bem adaptados, já propôs o naturalista Charles Darwin, no século XIX. Tal corrida não é prerrogativa dos adultos e a largada é dada quando ainda nem conhecemos o bê-a-bá. “Com poucos meses a criança vê o adulto dar comida a outra e chora. Os bebês querem ser tudo para a mãe. A criança, inicialmente, quer ser amada. Depois, deixa de querer ser para ter”, explica a psicanalista e mestra em saúde da criança e do adolescente Silvia Myssior.
Vale lembrar que de acordo com o IBGE, o tamanho das famílias tem diminuído em todas regiões, com 1,5 filho por núcleo. As crianças têm me nos irmãos com quem dividir a tenção. Ao mesmo tempo, a industrialização trouxe oferta maior de objetos e atividades de entretenimento. A família deve estar atenta aos apelos que a indústria lança em direção à fantasia dos infantes. As novidades estão a um passo, basta comprar. Já não é suficiente comemorar o aniversário com família e alguns amiguinhos. São centenas de convidados. E precisa ter palhaço, fliperama, parede de escalada, mágico, animador, piscina de bolinha e tudo. E muito mais. Tem que ter, ter, ter.
“Estes excessos geram competitividade exacerbada. Ao invés de trabalharem os desejos infantis relacionam-se ao narcisismo, ao egoísmo”, alerta Silvia. É a criança introduzida no universo das coisas megas desde sempre, em que não há contentamento com o que é limitado. Em compensação, o descontentamento destas crianças poderá ser enorme e seus relacionamentos conflitantes: com a babá, coleguinhas, professores. “Re tornarão para a criança de modo insuportável”, avalia a psicanalista. O futuro po de ter como triste resultado pessoas que não se alegram com a vitória de ninguém, desrespeitosos, não abertos ao outro, desejosos de levarem vantagem em tudo e para quem os fins justificam os meios.
O exagero dá seus sinais na escola quando há dificuldade em obedecer combinados básicos. “Aquele que não se incomoda em ganhar o jogo burlando a regra”, comenta a pedagoga Marize Nancy de Alencar, que trabalha com pequenos entre 2 e 7 anos. Por isso, aprender a dividir brinquedos é essencial. Ela também aponta o desejo de competir só para ganhar, detectado em quem, ao perder, custa a digerir, “emburra e o fato ganha dimensão descabida.” Neste contexto, tornase
difícil para os pequenos passarem pelas emoções. “Cabe ao adulto mostrar que a competição extremada pode resultar em infelicida de”, diz. Até porque lança quem deveria estar desfrutando a infância num modelo de vida adulto.
Joaquim Lavarini, psicanalista que trabalha com crianças há 22 anos, assinala que os muito competitivos escondem insegurança e baixa auto-es tima. “No fundo, sentem-se derrotados e têm que ganhar o tempo to do.” Podem ser
os brigões ou engraçadinhos que querem chamar aten ção. Não constroem laços de confiança e estão sempre rivalizando. “Competem para ser notados, temidos.”
O extremo oposto é igualmente danoso. O pouco competitivo também receia perder. Prefere nem entrar no jogo –da própria vida. É a criança que apanha na escola sem reagir, que não tem garra. “Chegam com presença de sofrimento”, afirma Lavarini. Para ele, uma das possíveis causas para tal comportamento pode ter origem nos pais. Se dão tudo nas mãos dos meninos e meninas, por que irão lutar pela sobrevivência?
Afinal, em algum momento terão que se deparar com desafios do primeiro passo em algo. A exemplo de Gabriela Pereira Martini, 5 anos, que pe diu aos pais para fazer capoeira. “Assim ela aprende a se defender”, as sinala a mãe, Maíreslane Fernandes Pereira. Para ela, também é importante que a menina conviva com crianças de outras idades.
Quando há medalhas e classificações à vista, crianças podem estar diante de faca de dois gumes. A educadora física Izabel Miranda Rohlfs (atua na assessoria técnico-científica de grande clube e coordena 66 técnicos) acredita que é essencial ensinar aos pequenos atletas quando é apropriado competir
e quando devem colaborar. “Na maioria dos esportes coletivos, ambos andam juntos.” A exemplo do desejo que move Camila Campos Teixeira, 11 anos. Ela é nadadora e treina diariamente. A mãe, Paola Campos Teixeira, conta que de um ano para cá a filha tem de monstrado maior competitividade. “Agora, ela tem vontade de ganhar para a equipe do clube.”
A irmã de Camila, Renata Campos Teixeira, 9 anos, é mais competitiva:antes das provas de equitação olha os troféus que quer ganhar e está sempre acompanhando sua pontuação. Nada que coloque em risco o equilíbrio da menina, uma vez que não sofre cobranças. Ao contrário, a
mãe acredita que ambas ganharam independência – uma vez que viajam sem a família para disputar provas – e determinação. “Vão atrás do que querem, mas estão aprendendo também a perder”, avalia Paola.
Claro que, seja nos jogos ou no cotidiano, ninguém quer a derrota. Mas o importante, a exemplo do dito popular, é estar disposto ao jogo. De novo a sabedoria popular ganha força e mostra que o dito o importante é competir é não só verdadeiro como sua ssimilação essencial. Afinal, não se pode ganhar todas, certo?
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