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Final do ano, tempo de festas, tempo de fazer um balanço da vida. Para muitas pessoas, aí começam as tristezas que, não raro, acabam em depressão. O psicanalista e psiquiatra Javert Rodrigues fala deste poder do calendário em mexer com o sentimento de tanta gente.

Texto: Daniele Hostalácio l Foto: Paulo Vilela
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Final de ano, festas, Natal, reuniões de família, balanços dos meses que passaram. Enquanto a mídia nos bombardeia com imagens de famílias felizes, reunidas ao redor de mesas fartas, em total harmonia, muitas pessoas se isolam ou se sentem isoladas nessa época do ano. Algumas se entristecem, outras ficam nostálgicas, algumas encontram no período o gatilho para que seja desencadeada uma depressão. Afinal, que poder é esse do calendário, de mexer com os sentimentos de tantas pessoas? Por que os balanços de fim de ano incomodam tanto a alguns? Conversamos sobre o tema com o psicanalista e psiquiatra Javert Rodrigues, membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais e diretor do Internacional Federation of Psychoanalytical Societies. “Na nossa civilização atual, as pessoas não têm tempo de refletir sobre sua própria condição, sobre sua existência. (...) É preciso que a gente faça esse balanço e perceba que não vale a pena ficar somente na vida bem-sucedida. O sucesso é algo tão variado, tão fortuito tantas vezes, e nem sempre condiz com uma existência feliz, ou agradável, ou boa”.

O final de ano é uma época em que muitas pessoas se entristecem, às vezes até se deprimem. Por que isso acontece?

É importante dizer que se trata de um acontecimento que é da ordem de certa região do mundo, onde predomina a referência religiosa ocidental cristã. No resto do mundo, não existe esse final do ano tal como nós temos aqui: não existe para os muçulmanos, para os hindus, em para os budistas. O que acontece é que o final de ano tem uma história tradicional de reunião familiar, de comemorar junto a noite da chegada do Messias, em 24 de dezembro. Naqueles casos em que a família tem as suas faltas, e onde a ligação familiar é muito intensa, é natural que pessoas mais carentes, ou aquelas que sofrem a ausência de pessoas queridas, tenham sentimentos de tristeza. Muitas vezes as pessoas que sofreram perdas recentes até se recusam a fazer a reunião. Creio que seja justamente por causa dessa conotação familiar.

Muitas propagandas, nesse período do ano, mostram as famílias reunidas, celebrando, felizes, em clima de total harmonia. Isso contribui para o mal-estar gerado?

A idéia de harmonia, paz, alegria, normalmente não representa a realidade; representa uma performática familiar – estamos alegres, felizes e contentes. Cada família, cada pessoa, vai reagir de acordo com suas questões internas, com as circunstâncias da sua vida. Tendemos a pensar e generalizar essas situações, como se todo final de ano as pessoas ficassem tristes. Não é assim. Temos de pensar o ser humano um a um.

Essa grande pressão para o consumo pode se
tornar uma fonte de angústia?

Sim, isso às vezes causa muitos problemas, porque nem todos têm como distribuir presentes, ou dar presentes aos filhos. O Natal se transformou, dentro de uma perspectiva muito capitalista, em um consumismo muitas vezes desenfreado, e deixou de ser uma festa propriamente religiosa, tornando-se apenas um elemento ao estímulo da atividade mercantil. Esse despertar da mídia, essa ideologia consumista, essa pressão pelo consumo, vai acarretar nas famílias que não têm condição de responder às expectativas de seus familiares um sentimento maior de frustração.

O final de ano funciona apenas como um gatilho, ou seja, normalmente a pessoa já tem questões de fundo, mais complexas, que a levam à depressão ou tristeza nessa época?
É isso. O final de ano pode funcionar como um gatilho para quem já está com a bala na agulha, quem já está predisposto a se sentir deprimido, quem já está vivenciando algo. Uma pessoa que está bem, tranqüila, sem maiores problemas, não vai se alterar por causa de uma simples data.

Muitas pessoas mergulham em fortes recordações de natais felizes que vivenciaram na infância, mas de um jeito saudosista, negativo, e as recordações se tornam fonte de sofrimento.

Algumas pessoas têm como característica maior um grande saudosismo: “no meu tempo é que era bom”, “ah! quando eu era criança”, “ah! No tempo em que estive na escola...” De certo modo, essas pessoas têm muita dificuldade de assumir a parte adulta da vida, de encarar a vida tal como ela é. E a vida não é como desejamos, é o que ela é. O que acontece é que às vezes o sujeito se refugia no passado, como uma forma de não enfrentar a realidade atual.

A vida nas grandes cidades, onde os laços afetivos estão cada vez mais frágeis, as pessoas têm menos oportunidade de se confraternizarem com vizinhos, com a comunidade. Isso contribui para a tristeza que alguns sentem no final do ano?

Antes as pessoas moravam em cidades pequenas e quase todas se conheciam. O nível de segurança era maior, o tempo era mais prolongado – porque a noção de tempo muda muito quando se vive num grande centro, onde as horas correm. Meu avô, por exemplo, quando morava numa cidade do interior, fechava a loja às 5 horas da tarde, colocava as cadeiras nas calçadas, e os amigos iam se sentar ali e ficar conversando, até de noitinha. As crianças brincavam nas ruas. Hoje, não há mais nada disso. Crianças de até 11 ou 12 anos não saem sozinhas nem para atravessar dois quarteirões. Nós vivemos num clima muito paranóico nas cidades, que contamina também as relações pessoais. As pessoas se isolam para se protegerem. E isso vai adquirindo uma característica muito intensa. Em Nova Iorque, por exemplo, as pessoas mal olham para você. Se você entra num metrô, as pessoas olham para um ponto vazio; e se você tenta uma comunicação, nem que seja para pedir uma informação, você percebe que as pessoas têm uma atitude de recuo, de defesa, como se estivessem sendo atacadas. O outro é um desconhecido, uma ameaça. Isso provoca o isolamento.

Há uma diferença entre sentir-se triste nessa época do ano e se sentir deprimido. Quando a pessoa deve buscar ajuda profissional?

A tristeza também é algo da ordem do ser humano. Nós todos nos entristecemos com determinadas circunstâncias, situações, com frustrações, com não termos alcançado determinado lugar, termos perdido alguma coisa, uma pessoa. Isso é normal, não tem nada de patológico nisso. Agora, quando você perde uma pessoa, por exemplo, você tem um luto. O tempo vai fazendo um trabalho de desconstrução desse luto, e ele vai se tornando mais suportável. A perda, a ausência, vai se amenizando, até que passa a fase de luto e a pessoa se tranqüiliza. As lembranças jamais serão perdidas. Agora, se esse luto começa a se prolongar exageradamente, aí, provavelmente, foram ativados determinados núcleos melancólicos de que o sujeito já dispunha na sua arquitetura pessoal e aquilo se torna patológico. Aí se faz necessária a intervenção de um psicanalista, de uma psiquiatra, ou dos dois profissionais. Apareceu algo da ordem da depressão, e a perda funcionou como um gatilho.

Apesar de que para muitos o final de ano é realmente um período difícil, esse momento de fazer um balanço, proporcionado e estimulado pelo calendário, é importante, já que permite fechar ciclos e iniciar outros?

Na nossa civilização atual, as pessoas não têm tempo de refletir sobre sua própria condição, sobre sua existência. Um dos grandes problemas nossos, hoje, é que as pessoas se transformam em espécies de robôs ambulantes. Não há mais um tempo de reflexão, um exercício de repensar como elas estão, que posição estão assumindo, que tipo de trabalho estão fazendo, se aquilo representa o que os filósofos hoje e desde antes chamam de uma vida boa, que é diferente de uma vida bem-sucedida. Talvez as pessoas se preocupem tanto com uma vida bem-sucedida, no sentido de se promoverem, ganhar dinheiro, ficar ricas, comprar casa, comprar carro, ter jóias, viajar para o exterior, competir, comprar roupas mais caras, mostrar que têm mais que o outro... Entram num mercado dessa demonstração, sem avaliar se essa vida bem-sucedida tem a qualidade de uma vida boa, se ela é sábia, se ela reflete um bem-estar consigo próprio e com os demais, se tem uma dimensão ética maior. Então, é preciso que a gente faça esse balanço e perceba que não vale a pena ficar somente na vida bem-sucedida. Que a vida, às vezes, é muito curta para o sujeito ficar só ganhando dinheiro, tendo sucesso. O sucesso é algo tão variado, tão fortuito tantas vezes, e nem sempre condiz com uma existência feliz, ou agradável, ou boa.

Existem movimentos de solidariedade que só acontecem nessa época do ano. Para se sentir bem nesse período, é importante se envolver com atividades que alimentem a alma?

Eis aí um aspecto muito positivo dessa época do ano. Várias pessoas, grupos e organizações tomam a data para fazer a alegria dos que nada possuem, os mais pobres, os mais necessitados. Isso é uma coisa boa. Um político mais exigente poderia dizer que isso não adianta nada. Que seja, mas uma pessoa que promove um Natal de crianças carentes, quando uma criança ganha um brinquedo, por exemplo, isso tem um sentido, é meritório. A pessoa sai de si para dar alguma coisa para o outro. Essa perspectiva de olhar o outro por si só já é muito vantajosa, numa civilização em que as pessoas têm muita dificuldade de olhar para fora de si.

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