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Espaços restritos e aumento da intolerância: sinais de como a sociedade rejeita cada vez mais os fumantes

Texto: Ana Cristina d`Angelo
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Em nada mais convencem os caracóis de fumaça inebriantes das divas do cinema ou léguas nos separam do supermacho torrado de sol baforando pelas montanhas estadunidenses. O fumante virou um ser estranho. Um ser cafona. Ninguém duvida do poder da indústria do tabaco, mas a batalha contrária tem ostrado resultado. A campanha pesada do Ministério da Saúde ou mesmo o fim das propagandas e patrocínios da indústria do fumo nos últimos anos têm trocado o glamour do ato por ojeriza por tal. Afinal, metade ou mais do vício é puro comportamento.

Quem duvida dos efeitos da cena em que Carrie Bradshaw, a estrela de Sex And The City, troca o cigarro por um novo namorado que não suportava a fumaça em um dos episódios da série? Ou quando Gisele Bündchen alardeou ter deixado o vício e ganhado invisíveis quilinhos? A ciência também deu sua contribuição e começou a gritar mais alto e apontar os numerosos casos de câncer no pulmão, boca, laringe, corpo inteiro que atingem com mais impiedade os fumantes. Até mesmo a propaganda antitabaco dos governos, estampada nos maços de cigarros, foi fundamental para a onda no smoking.

Os caixas de banco na Espanha fumavam há até bem pouco tempo. Hoje, ai de quem se atreve a acender um cigarro em bar ou restaurante onde é proibido fumar. E pensar que havia, também não faz tanto tempo, sexies propagandas queconsagraram o homem mais másculo do planeta, a elegância mínima lista de outra marca nacional que deixava o terrível hábito irresistível ou até mesmo a associação inacreditável do fumo com o mundo dos esportes, dos descolados e antenados.

A redução do espaço para os fumantes transformou o ato de fumar em quase clandestino. Em um shopping de grande circulação em São Paulo, por exemplo, a área de fumantes, já restrita a uma varanda, encolheu ainda mais. Então quem fuma precisa descer até a garagem e disputar um espacinho em pé com os companheiros de vício. Ana Cristina Ferreira, arquiteta, fumante há 14 anos, diz que sente discriminação em restaurantes, centros comerciais e bares. Por tanto, sua intenção é parar de fumar em breve. A funcionária de loja do shopping Jailza Ferreira precisa sair de tempos em tempos até a garagem para acender seu cigarrinho. A dificuldade surte efeito entre os fumantes. Jailza revela que diminuiu bastante o cigarro e que é respeitosa com os não-fumantes. “Eu sei que incomoda as pessoas e por isso procuro fumar quase só na rua mesmo”.

O médico João Paulo Becker Lotufo, que coordena um programa antitabagista no hospital universitário da USP, diz que a maioria das pessoas que procuram a ajuda do programa realmente precisa parar de fumar. Isso quer dizer que já tiveram um derrame ou outras complicações de saúde que forçam a situação-limite. Mas, antes disso, deduz o médico, já sofreram pressão da sociedade, da família, do ambiente de trabalho, de amigos. “Essa pressão acaba funcionando. Dificultar o uso do cigarro, reduzir o espaço para o fumante faz com que ele fume menos”, afirma Lotufo. Petra Braga, estilista paulistana, conta que a situação mais contrangedora por que passou foi no aeroporto de Guarulhos, quando ia passar férias fora do Brasil. Na área externa do aeroporto acendeu um cigarro e logo foi repreendida por um grupo de italianos que estava perto. “Eu estava ao ar livre, achei um abuso, mas mostra a intolerância das pessoas com os fumantes”.

Alguns donos de bares e restaurantes alegaram em princípio que a proibição iria atrapalhar o movimento nas casas. Mas a Europa provou o contrário e aos poucos os estabelecimentos por aqui aderiram às restrições. Quem diria que os tradicionais pubs londrinos e irlandeses iriam abolir a fumaça? Pois foi assim e os cidadãos cumpriram a lei. “O problema no Brasil é que as leis não são exatamente cumpridas”, lembra o doutor João Paulo.

Em São Paulo, está em tramitação uma lei que proíbe o fumo em lugares fechados. O Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, tem o selo ouro. Significa dizer que não se pode fumar nem nos jardins do prédio. Outro indício do cerco apertado aos fumantes é a exportação das imagens usadas pelo governo federal nas campanhas antifumo. As fotos foram cedidas para campanhas em outros países. Enquete feita pelo Ministério da Saúde apontou ainda que a população brasileira não só é a favor das imagens que mostram fetos abortados de fumantes e pernas amputadas como gostaria que fossem usadas fotos mais impactantes. Tudo e todos pelo fim da fumaça...

 

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