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ciência
DNA ou Bola de Cristal
Exames genéticos prometem identificar doenças que as pessoas vão desenvolver no futuro. Alguns especialistas dizem não ser possível tamanha precisão, por enquanto.
Texto: Silvância Arriel
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Ver-se no espelho genético. Quem não deseja modificar o código de sua vida ao tomar providências para evitar alguma doença? Agir antes, desativar o gene, ser, até certo ponto, dono de seu destino. A estilista mineira Juliana Jabour quis saber o que tinha dentro do seu corpo, nas entranhas, nas camadas, nos genes contidos naquela fita enrolada no interior das células, que definem as características, comandam o funcionamento de to dos os seres vivos e podem ser alterados. Propôs-se a vasculhar o corpo à procura de qualquer indício de câncer ou doença degenerativa. Submeteu-se a três tipos de exames de genômica pessoal na Genovations, empresa americana que firmou convênio com a clínica Anna Aslan e oferece o serviço no Brasil.
“Havia histórico de infarto na minha família. O exame mostrou que, pelo menos para isso, não tenho predisposição”, diz a estilista. Ela mudou seus hábitos de vida, incluiu vitaminas, antioxidantes, passou a caprichar numa alimentação mais saudável. “O exame te deixa mais consciente.” Acredita que assim poderá alterar os genes propensos a doenças. É nisto que crêem também especialistas. No entanto, avaliam que estes testes atuais, genéricos, são precoces, coisa para daqui a cinco, dez anos. “Ainda não se conhece toda a base genética”, argumenta o médico Salmo Raskin, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica.
É que o DNA tem 3,2 bilhões de pares de bases nitrogenadas, caracterizadas pelas letras A, C, G e T. Os testes usam modelo com seqüências destas letras, que são comparadas com a dos clientes. As modificações, chamadas de SNPs, são o que tornam as pessoas diferentes e podem indicar propensão a alguma doença. “O quadro do diabetes, por exemplo, ainda não foi decodificado por inteiro”, afirma o médico. Daí, a dificuldade na precisão desse exame de genômica pessoal, que não define uma só doença a ser investigada, como ocorre em testes específicos. Há mais: “É preciso também saber a freqüência destas variações na população.” O que pode ser risco nu ma raça, não é em outra. Isto porque os genes interagem com o ambiente, a exposição ao sol e a alimentação. Nos Estados Unidos o resultado dos exames é disponibilizado ao cliente pela internet, que acessa e define a etnia. “Li o caso de uma pessoa que tem pai asiático e mãe americana; quando colocava que era oriental havia risco de osteoporose, pressão arterial, se mudasse para o lado materno não tinha essas possibilidades”, lembra o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Genética.
Não é diagnóstico líquido, certo. Há as variáveis, o não-conhecimento de todo o mapeamento genético, a ansiedade que um exame deste tipo causa. “Fazemos avaliação de três horas, com equipe multidisciplinar, analisamos a história hereditária, e a partir daí tomamos a decisão de qual exame indicar”, diz o geriatra Eduardo Gomes, diretor da rede de clínicas Anna Aslan, onde a estilista Juliana Jabour se submeteu ao teste de DNA. Lá são feitos seis tipos de exames, que apontam risco desde cânceres, obesidade, hipertensão, trombose, osteoporose a doenças do coração.
Há a coleta de sangue em salas amplas, com TV de plasma por todos os lados, e enviado ao laboratório Genova Diagnostics, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Após 30 dias, o resultado é encaminhado à clínica, que chama o paciente. “Mostramos todas as alterações no DNA e a melhor prática terapêutica”, afirma. O que, em sua maioria, se atém à alimentação, à atividade física, à redução do estresse.
Mas esta mudança de estilo de vida pode alterar o risco de se ter doença genética? Eduardo Gomes diz que sim e justifica com pesquisa realizada nos Estados Unidos com 30 pacientes que tinham câncer na próstata na fase inicial. Foi analisado o comportamento genético antes e depois do tratamento à base de mudança de estilo de vida, sem cirurgia ou medicamento. Após três meses, constataram que houve alteração para melhor: 18 genes tiveram sua expressão aumentada e 388, reduzida. “Os genes que estimulavam o câncer foram desligados e outros religados; e isto em três meses.”
Há como alterar o que se vê no espelho genético. Disto os especialistas concordam, uns agora, outros quando o código genético estiver totalmente decifrado, com seus modelos a apontar a possibilidade do risco de alguma enfermidade. A corrida desta nova era rumo ao varejo da genômica começou. O diretor da Anna Aslan estuda abrir clínica em Belo Horizonte no próximo ano; a 23andMe, que oferece o serviço nos Estados Unidos, avalia a possibilidade de atender pacientes no Brasil. Tudo para saber o que ocorre dentro do corpo, nas entranhas. Mesmo que os resultados ainda gerem desconfiança de alguns especialistas.
Preços
- 23andMe | 999 dólares.
- Analisa riscos de 83 doenças
- Navigenics | 2.500 dólares. Examina 21 enfermidades. Se o paciente quiser atualizar o teste anualmente terá de pagar 250 dólares pelo período
- Genovations | De 894 a 2.994 reais. Oferece seis pacotes de exames, que apontam desde aterosclerose, obesidade, derrame, cânceres, fadiga crônica, asma, doenças do coração a baixa densidade óssea.
FONTE: Clínicas Anna Aslan, 23andMe e Navigenics
Por dentro do corpo
Os testes genéticos são dois
- Os específicos para determinada doença, que são feitos em várias clínicas no Brasil
- Os gerais, que vasculham o corpo à procura de mais de 80 doenças. Eles verificam as modificações genéticas na saliva ou no sangue coletado do paciente
- Nos Estados Unidos, a pessoa interessada acessa o site das empresas (23andMe e Navigenics) e recebe em casa material de coleta de saliva. Envia ao laboratório e de quatro a oito semanas poderá acessar as informações no endereço eletrônico
- No Brasil, há coleta de sangue. O material é encaminhado à Genovations, nos
- Estados Unidos, e cerca de 30 dias após o resultado chega à clínica Anna Aslan.
- O médico convoca a pessoa, mostra o resultado e indica o que deve ser feito
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