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Edição n1 Revista Viver Brasil
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Psique
A inveja mata?

Quando ela é patológica e o ódio e sentimento destrutivo se agregam, tudo de pior pode acontecer.

Texto: Daniele Hostalácio | Foto: sxc / fotomontagem Paulo Werner
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Psique - Revista Viver BrasilO ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho exulta. Só a inveja se esconde...” Esta inspirada frase foi escrita pelo jornalista Zuenir Ventura, no livro O Mal Secreto, que tem como pano de fundo a inveja. Não é preciso ser nenhum expert em relações humanas para concordar que, ao contrário dos outros escancarados pecados
capitais, a inveja é, realmente, um sentimento dissimulado. Talvez o menos tolerável de todos e que pode adquirir diferentes nuances. Uma pessoa pode ser acometida por um momento passageiro de inveja, que não chega a prejudicar
ninguém, ou ser dominado pela chamada inveja patológica, um desgosto profundo e destrutivo pela felicidade de outra pessoa.

No mergulho que empreendeu sobre o tema, com o propósito de escrever o livro, Zuenir conseguiu redigir algumas pérolas sobre esse sentimento, e arrancar outras de seus entrevistados. A socialite Vera Loyola, por exemplo, disparou: “O verdadeiro amigo não é o que é solidário na desgraça, mas o que suporta o seu sucesso.” De fato, uma pessoa bem-sucedida costuma ser alvo de muita inveja, porque irá encarnar uma das qualidades mais valorizadas na nossa sociedade consumista: a riqueza. Mas há uma grande diferença entre querer ter o mesmo sucesso que outra pessoa e simplesmente não se
conformar com o sucesso de alguém. “Ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é não querer que o outro tenha”, arremata Zuenir. A psicóloga clínica, com abordagem junguiana e especialização em psicossomática, Rosemeire Zago, vai além. “A inveja não é só a tristeza pelo bem alheio, mas a alegria pelo mal do outro.

” Muitos concordariam com isso. Por ser considerado tão nefasto à humanidade, esse sentimento acabou sendo incluído entre os sete pecados listados pela Igreja Católica, durante o Concílio de Trento (1545 a 1563). É considerada pecado porque uma pessoa invejosa ignoraria suas próprias bênçãos, priorizando as conquistas de outra pessoa, ao invés de buscar seu próprio crescimento espiritual. “A inveja é uma das emoções mais primitivas e é, geralmente, negada por todos. Ninguém quer ser alvo de inveja e muito menos ser o próprio invejoso”, constata a psicóloga.

A origem desse sentimento estaria num complexo de inferioridade. Ele nasce da comparação que constantemente as pessoas fazem entre si. “A inveja geralmente surge
do sentimento de sentir-se incapaz, percebendo o outro como tendo todos os atributos que acredita não ter”, avalia Ro semeire. De acordo com a psicóloga, o pensamento inconsciente do invejoso seria algo como “se eu não posso subir, tento rebaixar o outro, assim compenso meu complexo de inferioridade.” Por isso, em geral, a pessoa invejosa
irá denegrir, desmerecer, rebaixar, desprezar ou desqualificar o outro. Tentará demonstrar superioridade, quando, na realidade, se sente inferiorizado. “É um dos mais destrutivos sintomas da insegurança interior, pois traz uma amarga sensação de desconforto e sofrimento quando se é confrontado com o sucesso de outra pessoa ou com algo de bom que lhe aconteça. Quem de fato está satisfeito e feliz com o que é, muito mais do que
com o que tem, dificilmente sentirá inveja de outra pessoa”, observa a psicóloga.

Nossa cultura, talvez, seja uma grande cultivadora da inveja, já que desde muito cedo somos constantemente comparados. Com o irmão que é mais bonzinho ou com o
primo que tira boas notas... Isso acontece na escola, na família, na sociedade. Aí começam as humilhações e as críticas, que fazem alguns se sentirem cada vez mais incapazes de ser e obter o que o outro tem. “Há uma tendência a supervalorizar o outro com tudo que ele tem e desvalorizar o que temos”, afirma Rosimeire.

Olho gordo e mau-olhado são no mes que a cultura popular cunhou para inveja. Esse sentimento destrutivo é chamado de inveja patológica. “Acontece sempre que, ao invés de a pessoa perceber sua inveja como estímulo para seu crescimento, utiliza-a para atacar a pessoa que possui o objeto invejado ou então a reprime, transformando- se em alguém amargurado e infeliz”, explica o médico-psiquiatra Carlos Byington. Segun do ele, esse tipo de sentimento pode encobrir nossa dificuldade em lutar pelo que queremos e em afirmar o que sentimos, pensamos ou desejamos. Pode ainda encobrir o medo da disputa e da derrota, e dar lugar a toda sorte de defesas, inclusive a negação da inveja.

Um caso clássico de inveja patológica está retratado na obra do escritor russo Aleksandr Púshkin, au tor do poema Mozart e Salieri, que serviu de inspiração para o filme Amadeus, de Milos For man. A hipótese que Púshkin lança em seu poema é a de que o compositor Mozart teria sido envenenado, por inveja, pelo maestro italiano Antonio Salieri. “Os dois eram músicos talentosos. Só que Mozart não foi apenas talentoso – foi genial. Salieri
logo percebeu o quanto ele lhe era superior. Porém, ao lado de sua genialidade, Mozart era também muito imaturo. No primeiro encontro que tiveram, Salieri recebe Mozart tocando para ele uma música de sua autoria. Mozart agradece reproduzindo o tema da melodia, mas com muito mais riqueza e virtuosismo, humilhando Salieri diante da corte. Isso fere Salieri de tal maneira que ele passa a odiar Mozart. Sua inveja, inicialmente normal, passa a ser destrutiva”, resume Byington.

Autor do livro Inveja Criativa - Uma Força Transformadora da Civilização, Byington explica que a inveja é uma função natural da vida que contribui para a estruturação da consciência. “Como todas as funções estruturantes, como o medo, respiração, prazer, marcha, amor, ciúme etc., a inveja pode ser normal ou patológica. O simples fato de desejar o que é do outro não é patológico, indica apenas que a pessoa reconhece no outro algo que lhe é significativo. Assim, a inveja indica caminhos, como o da vocação, o desejo de progredir, de aprender, de usufruir a vida, auto-afirmação.” Um bom exemplo é quando um homem tem inveja do relacionamento amoroso que um amigo possui com a esposa. “Sendo esta inveja criativa, ele buscará uma companheira com quem possa viver aquilo que inveja no casamento do amigo: harmonia, felicidade, ou o que quer que seja”, diz Byngton.

A inveja deixaria de ser normal quando ela visa a atacar o objeto invejado, ao invés de se esforçar para adquiri-lo. A estudante Paula (nome fictício) foi vítima de um desses casos doentios. A família dela recebeu, dentro da própria casa, uma jovem prima, vinda do interior em busca de oportunidades de trabalho. A mocinha começou a sentir inveja da estudante, muito querida por todos. Um dia, Paula resolveu fazer uma escova progressiva no cabelo e o resultado agradou. Só que as madeixas dela não podiam nem chegar perto de produto químico. Poucos dias depois, ela foi lavar o cabelo e, ao colocar o xampu, sentiu forte cheiro de amônia. A prima, num rompante de inveja, havia misturado amônia ao xampu. O cabelo de Paula ficou todo avermelhado e, por sorte, não caiu. Casos como
es se são de uma inveja destrutiva, que se resvala para ódio.

É justamente por impedir nosso crescimento pessoal, e por aparecer sempre de modo destrutivo, que a inveja patológica acaba sendo mais prejudicial ao invejoso. “Mas, veja bem: o problema não é a inveja, mas o modo como ela se manifesta”, acredita Byngton.
E quem estaria mais propenso a sucumbir à inveja patológica? Segundo o psiquiatra, a pessoa que tem dificuldade de ir em busca de si mesma e de afirmar o que quer. “A inveja nasce da auto-rejeição que fazemos conosco, por não acreditarmos em nossos potenciais e por procurarmos fora de nós as explicações de como devemos pensar, sentir, fa lar, fazer e agir, dando importância desmedida aos outros, supervalorizando-os”, acrescenta a psicóloga Rosemeire. No esforço para sair das garras desse sentimento, é importante aceitar-se co mo é, respeitando as diferenças e reconhecendo seus próprios valores.

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