O resultado das urnas em Belo Horizonte colocou sob os holofotes uma turma de líderes comunitários que vai ocupar pela primeira vez uma vaga na Câmara Municipal. E eles já mostram disposição para demarcar território no Legislativo. Os recém-eleitos – entre eles donos de sacolão, açougue, locadora e também motorista de ônibus – articulam a formação de uma espécie de bancada de novatos. É uma forma de driblar a inexperiência e de mostrar força política. A bancada já tem até nome pomposo: Grupo Parlamentar de Sustentação (GPS).
A renovação dos quadros da Câmara da capital chegou a 41% na eleição deste ano, o que equivale a dizer que a casa terá 17 caras novas a partir da próxima legislatura, representando nada menos do que dez partidos diferentes. Na lista de novos vereadores está Preto do Sacolão, comerciante e líder comunitário do bairro São Gabriel (região nordeste de Belo Horizonte). “Trabalho com a comunidade há 21 anos e, na Câmara, vou atuar no social”, promete. Ele aposta em uma boa equipe de apoio – já praticamente formada, segundo ele – e na união dos demais colegas “igualmente inexperientes” para vencer as dificuldades iniciais. “Não queremos entrar em desvantagem, por isso estamos nos agrupando”, acrescenta o comerciante.
Do grupo dos 17 apenas dois já conhecem os meandros da casa: Léo Burguês, que volta ao Le gis lativo municipal para um segundo mandato depois de não conseguir se reeleger na eleição passada, e Leonardo Mattos, que deixou a Câ mara para assumir mandato como deputado federal. “Nosso objetivo é garantir, ao menos, um equilíbrio de forças na relação com o Exe cutivo”, afirma Burguês, um dos que estão à frente da formação do blocão. “Nos reunimos toda semana porque queremos uma atuação mais consciente, um Legislativo com mais qualidade”, reforça João Locadora, eleito pelo PT após quatro tentativas seguidas de chegar à Câmara. O estudante de direito Luis Tibé, presidente nacional do PTdoB, também aposta na integração entre os novatos como estratégia para estabelecer espaço entre os verea do res reeleitos, que já dominam a Câmara. “Se conseguirmos formar esse grupo para atuação coordenada, ficará mais fácil durante as votações”, pondera. “O alto índi ce de renovação é um forte argumento para a formação do blo co”, acrescenta.
Se o blocão não vingar, um gru po menor já está formado. É integrado pelo próprio Tibé, o radialista João Ví tor Xavier, o ex-gerente de assis tência social da Re gional de Venda Nova, João Oscar Costa, e o comerciante Edinho do Açou gue. Jun tos, eles representam dois partidos – PRP e PTdoB – e somam 22.262 votos. “Na própria campanha fizemos uma amizade legal, o que já é positivo. Esse grupo vai abrir caminho para os nossos projetos”, acredita João Oscar.
Batizado Edson Ribeiro de Souza, Edinho do Açougue acredita que uma bancada ampla de novatos seria mais eficiente. “As pressões também são grandes”, pondera. Cria do no bairro São Ber nar do, na região norte da capital, Edinho começou a vida profissional aos 13, como funcionário de um frigorífico. Aos 25 já tinha o próprio negócio. Agora, aos 39, colhe os frutos da popularidade, advinda dos constan tes favores prestados a clientes e amigos. “As pessoas me procuram para tudo e a gente tenta sempre ajudar”, explica.
SITUAÇÃO E OPOSIÇÃO
Dos 41 vereadores, 34 compõem a aliança de partidos que deu sustentação à vitória do prefeito eleito Marcio
Lacerda (PSB), o que representa percentual de apoio de 83%, suficiente para a aprovação das matérias de
interesse do Executivo. Teoricamente, apenas sete vereadores irão se posicionar contrariamente à
administração de Lacerda: Maria Lúcia Scarpelli (PCdoB), Fred Costa e Sérgio Fernando (PHS), Preto do Sacolão,
Geraldo Félix, Iran Barbosa e Cabo Júlio, do PMDB.
Líder comunitário no aglo me ra do da Serra, Paulo Sérgio Peixoto, o Paulinho Motorista, é da turma dos que preferem adotar a cautela em relação às conversações para formação de uma bancada na Câ mara. Assim como Pablito, ou Pablo César de Souza, ex-assessor par lamentar do deputado estadual Gustavo Cor rea. Ele afirma que a idéia da bancada de novatos é prematura porque depende ainda da aco modação de forças na prefeitura. Para o estudante de direito, assumiruma cadeira na Câmara nãoserá desafio dos mais difíceis. Por
via das dúvidas, ele já se prepara. “Es tou me inteirando dos projetos
em pauta.”
Caçula dos oito filhos do deputado estadual Irani Barbosa, o administrador
de empresas Iran Barbosa será o mais jovem a ocupar
uma cadeira na Câmara de Belo
Horizonte. Assim como os demais,
fala em independência. “Acredito
que fui eleito para liderar uma revolução.”
Ele preferiu usar o telefone para estabelecer contato com
os vereadores mais experien tes. “Hu mil dade não atrapalha ninguém.
Não tenho medo de assumir
que estarei lá, inicialmente,
pa ra aprender. A malícia virá com
o tempo.”
Verbas e Salários
R$ 9.288 é o salário de vereador. O parlamentar da capital tem direito ainda
a uma verba mensal de R$ 15 mil para bancar despesas com aluguel de veículos,
serviço de postagem, combustível, e outras.