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Edição n1 Revista Viver Brasil
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No Ritmo de Lacerda
Nesta edição

literatura
Em meio às estantes

A Viver acompanhou três escritores mineiros por sebos de Belo Horizonte e lançou o desafio: o que levar entre tantas opções?.

Texto: Alécio Cunha | Fotos: Alexandre C. Mota
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Cenário - Revista Viver BrasilNo saguão do edifício Arcângelo Maletta, na avenida Augusto
de Lima, tradicional ponto boêmio e cultural da capital mineira,
a escada rolante desativada é o principal acesso ao andar de cima. Ao subir, o visitante desavisado toma logo um
susto. O local é ponto nevrálgico de vasta geografia literária.
Apinhada de pequenas lojas de livros usados, batizadas de
sebos, a sobreloja do Maletta é um oásis para quem deseja
e procura volumes raros, edições antigas, há muito tempo fora de catálogo. Ou, simplesmente, quer folhear dezenas de livros que já passaram por outras mãos.

A Viver Brasil convidou três escritores mineiros para um passeio por entre as empoeiradas estantes de alguns dos sebos mais procurados
da capital mineira. Participaram da aventura o ficcionista e cronista Luís Giffoni, o romancista Jaime Prado Gouvêa e a contista e roteirista Branca Maria de Paula. Foi uma tarde bastante inspirada. O trio garimpou preciosidades, que revelam a pluralidade de gostos e estilos.

Branca Maria de Paula, autora de A Mulher Proibida, sofreu com a indecisão na hora de adquirir um livro. No sebo Paraíba, cujos proprietários são quatro irmãos, paraibanos de Campina Grande há 12 anos atuando na capital mineira no ramo dos livros usados, ela ficou encantada com bela edição portuguesa de uma obra-prima de um dos mestres do romantismo alemão: ninguém menos do que J. W. Goethe. Branca quase levou o volume de Os Sofrimentos do Jovem Werther, livro que teria induzido muitos leitores ao suicídio
quando publicado no século 19.

A contista só dissipou sua dúvida quando encontrou na Livraria Crisálida edição artesanal de um título menos conhecido do Bruxo do Cosme Velho, o escritor brasileiro Machado de Assis, cujo centenário de morte é amplamente comemorado em 2008. Trata-se de Queda que as Mulheres Têm para os Tolos, ensaio em que o autor de Dom Casmurro e A Mão e a Luva brinca com uma certa noção de fragilidade feminina. “É um livro muito irônico. Adoro o humor de Machado”, conta. Detalhe: o livro é uma edição artesanal, produzida pela
própria livraria e sebo, que se metamorfoseou em editora. O dono e editor, Ozéas Silas Ferraz, tomou esta decisão ao ver obras raras e caras sendo muito procuradas por leitores. “Resolvi editá-las eu mesmo e não me arrependi”, conta. Para sorte de leitores exigentes como Branca, que gastou 20 reais em sua aquisição.

Autor de livros como O Ovo de Ádax e Os Chinelos de Raposa Polar, Luís Giffoni teve uma senhora surpresa ao se deparar com a estante de literatura brasileira do sebo União. Deu de cara com um exemplar de um livro seu, o romance A Árvore dos Ossos. Instintivamente, foi tentar descobrir a quem pertenceu o exemplar ali encontrado. Pura decepção! “O dono do sebo cortou a página em que estava a dedicatória”, brinca, sem conseguir desvendar
o mistério.

Ao ver o amigo escritor em apuros, o finalista do Prêmio Jabuti em 2008 com a coletânea de contos Fichas de Vitrola, Jaime Prado Gouvêa, lembrou caso semelhante, de outro escritor mineiro, já falecido. “Ele encontrou todos os seus livros autografados para um sujeito. Comprou-os de volta e mandou todos, novamente com dedicatória, para a casa do cara, que deve ter morrido de vergonha”, brinca.

Depois do susto de achar seu próprio livro, Giffoni encontrou na Livraria Passárgada um clássico de Voltaire, mesclando Literatura e Filosofia: A Origem da Desigualdade Entre os Homens, publicado pela editora Escala. Pagou cinco reais pelo título sem pechinchar. “É um valor irrisório para um livro tão caro ao espírito humano”, disse.

Na mesma Passárgada, cujo nome ecoa o título de um célebre poema do pernambucano Manuel Bandeira, Jaime Prado Gouvêa, mesmo não tendo muita paciência com o garimpo de um sebo, encontrou uma raridade. Por cinco reais, levou uma edição especial do Suplemento Literário de Minas Gerais, de 17 de novembro de 1973, intitulada O Conto Brasileiro Atual, com textos de autores como Murilo Rubião, Rubem Fonseca e Duílio Gomes. Gouvêa explica por que esta edição do Suplemento é rara. “Na folha de rosto,
está escrito que são 24 contos de escritores brasileiros, mas foram publicados somente 13. Os outros nove foram censurados pela ditadura militar, mas a edição do Suplemento manteve o número original de contistas que seriam publicados”, conta, revelando uma estratégia que driblou o tempo.

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Adriana Calcanhoto
Adriana Calcanhoto
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