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legislativo
Falta legislar
Eleições municipais acirraram
ainda mais a ineficiência do
Congresso: temas importantes
para o país tramitam anos na casa
até que sejam (ou não) votados.
Iracema Barreto e Rafael Paixão
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As eleições agravaram um quadro que já não era dos melhores. Somente no
primeiro semestre do ano, quando a campanha ainda nem estava nas ruas,
um em cada cinco parlamentares faltou a mais de 25% das sessões plenárias
deliberativas da Câmara, segundo levantamento feito pelo Congresso em
Foco. A dedicação às campanhas nas bases eleitorais jogou para escanteio
projetos que já não pareciam prioritários para os congressistas, a despeito da
importância dos temas.
Um exemplo do que vem acontecendo com alguns projetos nas instâncias
parlamentares é a Pro posta de Emenda Constitucional (PEC) 438. Rea -
pre sentada em 2001, é mais conhecida como PEC do trabalho escravo e tramita,
originalmente na Câmara, desde 1995. Ou seja, quase 15 anos.
O texto, que trata do combate à escravidão no país, prevê o confisco de ter-ras para fins de reforma agrária nos locais onde forem encontrados trabalhadores
em con dições análogas às de escravidão.
Outros exemplos clássicos de temas essenciais para o país que estão
sendo discutidos no Congresso, mas que não têm sua votação finalizada, são
as reformas tributária e política. A primeira se arrasta desde 2003. A segunda,
há pelo menos uma década. Aí, fica a pergunta: por que essa lentidão
ou mesmo omissão do Legislativo? Cientistas políticos – e os próprios
parlamentares apontam várias razões. Vão desde a falta de interesse na
aprovação dos projetos, esbarrando no excesso de medidas provisórias editadas
pelo governo e na obstrução sistemática da oposição, passam pela submissão
do Congresso ao Executivo, um regimento interno que dificulta a tramitação,
atuação de lobistas e chegando à fragmentação política.
Para o cientista político Leonardo Barreto, professor da Universidade de
Brasília (UnB), em muitos casos, o que existe é a não-decisão. "Não
votar um projeto é também uma forma de decidir. Quando o Congresso decide
não votar mudanças no foro privilegiado, por exemplo, é uma opção que
os parlamentares estão fazendo. Não é falta de interesse, mas sim interesse
em que certos temas não sejam votados", pondera.
Uma forma de empurrar com a barriga a votação é ficar pedindo vista do
projeto nas comissões temáticas, onde todas as propostas passam antes de
ir a plenário. Na avaliação do deputado federal Rafael Guerra (PSDB-MG), o
maior problema é que o Congresso vota apenas matérias de interesse do governo. "Quem faz a pauta do Legislativo é o Executivo. O Con gresso não tem
autonomia", critica. Ele cita a aprovação do aumento salarial dos servidores
públicos logo após o primeiro turno das eleições municipais deste ano. "Esse
assunto estava fora da pauta e foi aprovado por pressão do governo para fazer
uma graça para o eleitor", sustenta.
Presidente da Frente Par lamentar da Saúde, Guerra lembra que projetos importantes da área levam anos para serem aprovados. No caso dos consórcios
da saúde, que ele implantou como secretário do go verno Eduardo Azeredo
em Minas, foram necessários sete anos para sua aprovação. E, desde 2003,
a frente luta pela regulamentação da Emenda 29, que define como União, estados
e municípios devem aplicar os recursos do setor. Para concluir a votação
da proposta, falta apenas votar o destaque que cria a Contribuição Social
da Saúde (CSS), que substituiria a extinta CPMF (o imposto do cheque). "O
governo não coloca em votação porque tem medo de perder", diz Guerra.
Já a base governista prefere colocar a culpa nas medidas provisórias (MPs). "O Arlindo Chi naglia (presidente da Câmara) até imprimiu um
ritmo intenso de votação, fazendo sessões na 2ª e na 5ª (dias que geralmente
não têm votação), até desagradando alguns parlamentares, mas as MPs impedem
o Congresso de votar qualquer assunto. Isso começou no governo
Itamar Franco, passou pela gestão de Fernando Henrique Cardoso e não é diferente
agora", admite o deputado federal Geraldo Magela (PT-DF). No entanto,
o petista também responsabiliza a oposição pela demora nas votações. "Eles fazem obstrução por muito pouca coisa. Se as MPs tivessem votação
mais ágil a pauta seria desobstruída e poderíamos votar
outros projetos", reclama.
A lista das matérias engavetadas no Congresso inclui
ainda a PEC que acaba com o voto secreto nas sessões
legislativas, como a dos processos de cassação. A PEC
foi aprovada em primeiro turno na Câmara em setembro
de 2006, com 383 votos a favor e nenhum contrário,
mas até hoje os deputados não votaram o texto em segundo
turno, mais de dois anos depois, o que reforça a
idéia de que o Congresso só age depois de casos rumorosos.
O fim do voto secreto foi aprovado por causa da repercussão
da absolvição de vários deputados envolvidos no
escândalo do mensalão.
Via de regra, esfriado o debate, o assunto cai no esquecimento.
Foi o que aconteceu tam bém com o prometido pacote
antiviolência. A morte do menino João Hélio mobilizou do
Executivo ao Legislativo. Contudo, praticamente nada saiu do
papel. Para o cientista polí tico Leonardo Barreto,
contribui pa ra situações como esta a
fragmentação do quadro par tidário
brasileiro. "As duas maiores bancadas
que apóiam o gover no, PT
e PMDB, têm apenas 33% do
Congresso. O governo tem de
negociar com muitos atores
com po der de decisão. Isso
faz com que a minoria tenha poder de veto, o que
acaba travando o processo",
explica.
A reforma política foi uma das
vítimas dessa fragmentação. O Sena do aprovou um conjunto de propostas
que alterava consideravelmente
a legislação político-eleitoral,
prevendo: financiamento público de campanha, voto fechado na
eleição para deputado, cláusulas de
barreira para o funcionamento dos
partidos, fim das coligações nas
ele i ções proporcionais e fidelidade
partidária. Mas quando a matéria
chegou à Câmara, os partidos peque
nos se uniram e impediram a
sua aprovação. Agora, o governo
tent a garantir consenso para aprovar
o novo texto encaminhado.
O Regimento Interno da Câmara é apontado como outro vilão. "O ritmo de tramitação é irracional. Hoje é possível apresentar emendas aos
projetos em todas as comissões. Se
uma emenda é aprovada na terceira
comissão pela qual o projeto tramita, é preciso que ele volte para as
duas comissões que já votaram",
lem bra Magela. O certo é que tanto
governistas quanto oposicionistas
são unânimes: recisa ser feito para
que o Congresso cumpra seu dever:
legislar.
O que está engavetado?
Reforma tributária
Proposta enviada pelo governo prevê a
unificação da legislação do ICMS, cria o
Imposto sobre Valor Agregado (IVA) muda a
cobrança do imposto da origem do produto
(onde é produzido) para o destino (onde é
consumido), cria o Fundo de
Desenvolvimento Regional, entre outras medidas.
Situação: ainda está na comissão especial, sem previsão de votação.
Para entrar em vigor em 2009 precisa ser aprovada até o
final deste ano. Tramita desde 2003.
Reforma política
Governo sugeriu uma nova proposta em
agosto deste ano, que estabelece lista
fechada, financiamento público, fidelidade
partidária, fim das coligações nas eleições
proporcionais, e proibição de candidatos com
ficha suja.
Situação: as sugestões nem tramitam na
Câmara, porque ainda precisam ser apresentadas
na forma de projeto. A discussão no Congresso já se
arrasta há pelo menos uma
década.
Regulamentação da Emenda 29
Define o montante de recursos que União, estados e municípios devem
aplicar na saúde.
Situação: aprovada em primeiro turno na Câmara, mas
ainda falta votar o destaque que cria a CSS. Por
causa da crise financeira internacional, o
governo já pensa em desistir do
imposto.
PEC do Trabalho Escravo
Propõe a expropriação de terras
em área com trabalhadores
escravizados.
Situação: aguarda votação em segundo
turno na Câmara desde 2004. O primeiro
projeto sobre o assunto foi apresentado na Câmara em 1995. Não
tem previsão de votação.
Fim do foro privilegiado
Estabelece que todas as autoridades serão julgadas pela Justiça de 1º
grau
Situação: proposta aprovada na comissão especial em agosto deste
ano. Não há previsão de votação em plenário
Voto aberto
Acaba com o voto secreto nas sessões legislativas, como em processos de
cassação
Situação: Aprovado em primeiro turno em setembro de 2006. Não há
previsão de votação em segundo turno.
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