Pulverização da culinária do país do sol nascente em restaurantes
não especializados, novos ingredientes e explosão das temakerias
levanta uma polêmica: estão matando o velho sushi?
Um século depois de a primeira leva de imigrantes japoneses chegar ao Brasil,
Belo Horizonte foi definitivamente invadida pela culinária japonesa. E engana-se
quem acha que as casas se limitam a servir peixe cru com arroz grudado. Há na
cidade uma verdadeira orgia de tendências dentro da gastronomia nipônica, que
vai de casas tradicionais até a novidade das temakerias, especializadas em enroladinhos
de alga marinha recheados com arroz e outros ingredientes, feitos na
hora. As novas casas, que apareceram pela cidade em 2007, já começam a proliferar,
para alegria de uns e tristeza de outros.Para o sushiman e banqueteiro Hidemi Nakao, ex-sócio do Sushi Naka que
atualmente produz comida japonesa em recepções e eventos, a novi dade dos temakis
não se enquadra no que pode ser classificado como comida japonesa.
Essas coisas vieram de São Paulo,
e são iguais a uma coxinha de boteco. É uma febre que vai durar seis
meses”, sentencia. Adepto da cozinha
tradicional japonesa, Hidemi
afirma que o segredo da qualidade
são o ingrediente fresco e as técnicas
de preparo milenares. No entanto,
usa em suas combinações
ingredientes locais, co mo manga,
morango e outras fru tas. “As pessoas
gostam, tem que fazer, e fica
bom. Preparo alguns, por exemplo,
para os meus clientes vegetarianos.
Mas sou ortodoxo. Nada de inventar
demais”, comenta Hi demi.
Érica Vilaça, há dez anos no
segmento de comida japonesa da
capital mineira, faz côro à Hidemi.
Hoje, à frente do Kei, em Lourdes,
e ex-proprietária do Kotobuki e do
Rokkon, ela afirma que sempre foi
fiel à culinária tradicional. “É preciso
muito cuidado com inovações
para não perder o foco.”
Na mesma linha de pensamen to, o proprietário do restaurante Ni giri,
uma das casas mais tra dicionais da cidade, Guilherme Campos, dá mais
uma alfinetada na febre dos temakis. “A única vantagem é que eles são
infinitamente mais saudáveis que o sanduíche no fim de noite. Mas em relação
à culinária japo nesa, eles estão no último vagão, se colocarmos que
os sushis (rolinhos de alga recheados com arroz, peixe ou vegetais, e servidos
fatiados) e os sa shi mis (fatias de peixe cru) são os carros-chefes.”
Apesar de se recusar a chamar de culinária japonesa os temakis servidos
nas lanchonetes, Campos é favorável ao movimento de fusão. Ou seja, ele
acredita que pratos típicos do Japão podem e de vem ser preparados com
ingredientes locais, como manga e cream chease e mesmo assim manterem
sua essência. “A culinária japonesa
tem bases que devem ser
respeitadas, mas o uso de ingredientes
novos acontece o tempo
todo em todo o mundo, inclusive lá
em Tóquio”, assegura o sushiman
e restaurateur, que divide seu
tempo entre a loja de BH e uma casa
em Florianópolis (SC).
No entanto, para o proprietário
da rede Quick Temaki, Eduardo
Diniz, os cones são uma solução rápida,
saudável e barata para quem gosta de comida japonesa. “No mundo de hoje há demanda por rapidez.
Nosso negócio é oferecer refeição com ingredientes frescos, saudáveis, em
um tempo curto e por preço acessível. E é comida japonesa de qualidade”,
rebate o empresário, o primeiro a abrir uma temakeria em BH. Sua primeira
casa foi inaugurada em 2007, na Savassi. De lá para cá foram mais duas
lojas, uma no bairro de Lourdes e outra no Belvedere. Além delas, na cidade
funcionavam até o fim de novembro pelo menos outras oito casas.
Paulistano de nascimento mas com família e raízes em Belo Horizonte,
Diniz afirma que teve a idéia da temakeria após uma viagem a Nova Iorque,
onde o estilo é febre. Foi na Big Apple que os emigrantes japoneses se viram obrigados a dividir espaço com gregos e turcos, inventores do kebab
(feito com fatias de carne de boi,
frango, cordeiro ou porco – algumas
vezes todos juntos –, assadas
em espeto giratório e servidas
em um cone de pão árabe ou
de pão-folha, acompanhado de
creme de iogurte e/ou pasta de
grão-de-bico). Daí surgiu o formato.
A diferença para a iguaria é
o tamanho (enquanto um kebab
pode medir até 20 centímetros, o
temaki raramente passa de 10), e,
claro, os ingredientes.
Além da forma, o uso de alguns
ingredientes locais na comida
japonesa tornou-se polêmica
nos últimos meses. Tudo começou
no fim de 2006, quando representantes
da Organização de
Comércio Ex te rior do Japão (Jetro)
criaram comissão que daria uma
espécie de selo de qualidade para
restaurantes realmente tradicionais.
O movimento contrário a invenções
gastronômicas começou
justamente num dos mais tradicionais
– e ao mesmo tempo inovadores – países do mundo, a
França. A maior polêmica à época
era o uso do foie gras (patê de fígado
de ganso, uma das mais afamadas
iguarias do país) no sushi.
A organização estimava então que
até 2009 haveriam cerca de 50 mil
restaurantes japoneses no mundo, o dobro de 2006.
"Nosso objetivo é oferecer
ao mundo a autêntica
culinária japonesa. Não podemos
aceitar restaurantes
japoneses que só o são na
aparência, sem ter a substância.
Que remos distingui-los dos que ser vem a
verdadeira comida japonesa",
afirmou o então ministro
da Agricultura, Toshikatsu Ma tsuoka, em Tóquio, à agência France
Press. As reações de chefs
e sushimen de todo o
mundo, inclusive em Tóquio, foi imediata, e o que
seria um selo se transformou
em uma lista dos ingredientes
mais tradicionais.
Eles estão no site da
Jetro (www.jetro.org).
Um dos que reagiram
ao radicalismo do minis tro da Agricultura de Tóquio foi o chef Toshio
Tomita, do Restaurante Nobu, um dos mais chiques (e caros) japoneses
de Nova Iorque, que esteve no Brasil pela primeira vez recentemente, para
um encontro de gastronomia em São Paulo. Como exemplo de fusão, o
chef cita o cartão de visitas do restaurante, feito com três sashimis de
peixe branco, acompanhados de uma fa tia de pimenta dedo-de-moça,
uma folha de coentro, suco de limão e molho de soja. “Em todas as viagens
que faço, sempre aprendo algo. Em 2007 fui à Argentina e, na volta,
criei um prato de peixe com chimichurri (molho picante que acompanha
churrascos nos pampas). É um dos preferidos do Bruce Willis, que é nosso
cliente”, assegurou o sushiman.
Quem também acredita nas fusões e novidades de preparos e de sabores
como arma para segurar os clientes é a gerente do Rokkon, Érica
Do mingues, que trabalha há dez anos no restaurante. Segundo ela, as
misturas de frutas ou novos molhos são bem aceitas pelos clientes, mesmo
os mais tradicionais. “O segredo é manter as bases e apostar no ingrediente
de qualidade. É caro, mas há um reconhecimento do público”, assegura
a gerente do Rokkon, restaurante localizado entre outras nove
casas especializadas na culinária nipônica de diversas orientações, além
de duas casas de self-service que oferecem algumas opções durante o
almoço e um supermercado, onde também é possível encontrar bandejinhas
plásticas com o produto. Haja palitinho.