Depois da aliança informal entre PT
e PSDB que elegeu Marcio Lacerda
prefeito de Belo Horizonte, o presidente
nacional do PT, Ricardo Berzoini,
afirma que tudo continua como dantes:
os tucanos não freqüentam a praia
petista; e os petistas não se
aproximam da lancha tucana.
Texto: Iracema Barreto | Foto: Rossana Lana
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Mesmo com a formalização da aliança tucano-petista em nada menos
do que 1.130 cidades brasileiras, e da parceria entre os dois partidos – constantemente defendida pelo governador Aécio Neves (PSDB)
e o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT) –, o presidente
nacional do PT, Ricardo Berzoini, faz questão de frisar as diferenças de caráter político, ideológico e programático que inviabilizam a
união de PSDB e PT no plano nacional. Berzoini descarta qualquer
tese de aliança para 2010 entre as duas legendas. Nessa entrevista à Viver Brasil, ele diz que as composições nos municípios foram
feitas para atender às “correlações de forças locais” e afirma que o
partido em Minas não está destruído, apesar da dissidência aberta
durante as eleições. Para Berzoini, o debate sobre o veto da
executiva nacional do PT à aliança com o PSDB na capital mineira
foi superado, já que o apoio à candidatura do prefeito eleito
Marcio Lacerda (PSB) foi informal. Mas admitiu a necessidade
de aparar as arestas. “É hora de retomar o diálogo.”
Nas eleições municipais de 2004, a aliança
PT/PSDB ajudou a eleger 149 prefeitos.
Em 51 municípios, um dos partidos tinha o
prefeito e o outro o vice. Desta vez, o TSE
confirmou aliança formal em nada menos do
que 1.130 cidades pelo país afora. Rejeitar
essa união é andar na contramão?
Nas questões fundamentais para o
desenvolvimento do Brasil como país mais justo,
democrático e soberano, PT e PSDB há muito
tempo andam na contramão um do outro, o que
pode ser facilmente constatado na confrontação
entre os dois projetos nacionais levados adiante
pelos governos FHC e Lula. O PT defende o
fortalecimento do Estado como forma de promover
a efetiva distribuição de renda, de levar
oportunidades para todos, de reduzir as
desigualdades sociais e regionais e de induzir o
crescimento econômico. Já o PSDB prega o Estado
mínimo, a privatização e a desregulamentação –
práticas que produziram cenários de intensa
pobreza, desemprego e desigualdade nos
chamados países periféricos (como o Brasil) e que,
agora, arrastaram o mundo todo para a atual crise
financeira. Os governos petistas democratizam o
exercício do poder dialogando com os movimentos
sociais e estimulando a participação popular na
definição de políticas públicas; os tucanos
costumam tratar estes mesmos setores com
desprezo, arrogância e
cassetetes. O PT defende a inserção soberana do Brasil na geopolítica
internacional, com ênfase para a integração da América Latina; enquanto o
PSDB advoga – e praticou quando esteve no poder central – uma relação
submissa e subserviente com os países ricos, sobretudo os Estados Unidos.
São estas principais diferenças, de caráter político, ideológico e programático,
que inviabilizam a "união" de PSDB e PT no plano nacional. No plano
municipal, os fatores determinantes para a construção de alianças
normalmente são outros: têm mais a ver com o dia-a-dia das cidades e
com a correlação de forças locais.
Apesar de terem dado certo em várias cidades, fato é que PT e PSDB
são os maiores rivais na corrida pelo poder político nacional e têm
priorizado as disputas pela sucessão presidencial desde 1994.
Quais as regras básicas que as duas legendas terão de aceitar para
que não haja retrocesso nas conversas?
Não há conversa com o PSDB para aliança nacional. Como disse, são
projetos diferentes, que disputam os rumos do país.
Passada a eleição, como é possível, agora, reconstruir o PT em Minas,
considerando que os dissidentes já até mesmo lançaram a candidatura
do ministro Patrus Ananias com apoio de outras legendas?
Primeiro, o PT de Minas Gerais não foi destruído. Ao contrário: elegeu 109
prefeitos (evolução de 25% em relação a 2004) e conquistou ou manteve-se na
prefeitura de algumas das cidades mais importantes do estado, como
Contagem, Ipatinga e Betim, além de ter o vice-prefeito na chapa vencedora de
Belo Horizonte. As tensões ocorridas em BH inserem-se num quadro de
exacerbação comum a processos eleitorais em que há posições antagônicas
claramente definidas. Passadas as eleições, os companheiros do PT de Belo
Horizonte terão agora mais tranqüilidade para analisar todo o processo e buscar
o melhor caminho para a unidade e o fortalecimento do programa partidário.
Essa briga interna pode trazer problemas para o partido em 2010?
As eleições de 2010 ainda estão muito longe. De concreto, posso afirmar
que, quanto mais unido estiver o partido, mais chances terá de fazer o
sucessor do presidente Lula.
O prefeito Fernando Pimentel acabou fazendo prevalecer o seu projeto
político com a vitória de Marcio Lacerda. Ele sofrerá algum tipo de
sanção interna pela insistência em relação à aliança? O senhor
chegou a declarar que o assunto seria retomado logo após a eleição.
O Diretório Nacional do PT vetou a aliança com o PSDB em Belo Horizonte e o
veto foi respeitado, pois o PSDB não participou da chapa que elegeu Marcio
Lacerda. Do ponto de vista formal, portanto, este é um debate superado. Por
outro lado, houve o "apoio informal", que acabou acirrando os ânimos entre
as correntes locais pró e contra a aliança. Agora é hora de retomar o diálogo
político e, repito, buscar o melhor caminho para o PT de BH.
O fato de o presidente Lula ter dado
aval a essa união, de público, ameniza a
situação de Fernando Pimentel?
Não houve manifestação pública do
presidente Lula a favor ou contra a proposta
de aliança entre PT/PSDB. Como presidente
da República, Lula agiu com diplomacia toda
vez que perguntado sobre o assunto,
respeitando as divergências e encaminhando
o debate para o partido. A interpretação que
alguns fizeram deste comportamento
democrático do presidente já é outra história.
As urnas mostraram que o PT foi o
segundo partido em crescimento,
enquanto o PSDB não registrou grande
avanço. Que leitura o senhor faz? Acha
que o PT sai mais fortalecido para as
próximas eleições?
O PT foi o partido que mais cresceu em
termos absolutos (148 novas prefeituras).
Em termos percentuais ficou em terceiro
(36% sobre 2004), atrás do PCdoB e do PSB.
A partir de 2009, o PT vai governar para 20
milhões de pessoas (aumento de 17% sobre
2004), sem contar as cidades importantes
onde tem o vice, como Belo Horizonte.
No total, os partidos que compõem a base
do governo Lula vão governar para 72% dos
brasileiros, incluindo 20 das 26 capitais.
Já o pior resultado eleitoral foi do PPS, que
reduziu em 58% o número de prefeituras
sob comando da sigla. Na seqüência vêm
DEM (-37%) e PSDB (-10%). Os números
mostram, portanto, que estas eleições
fortaleceram o PT, os partidos da base
aliada e o governo Lula, enquanto a
oposição foi reduzida.