Os magros que se cuidem: doenças associadas à obesidade podem afetar quem não é gordo.
Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Daniel de Cerqueira
Opiniões e sugestões sobre a matéria?
Mande e-mail para redacao@revistaviverbrasil.com.br
Se você vive em paz com a balança, não se preocupa com dieta – afinal, tem
o peso adequado – e acha que doenças ligadas à obesidade, como colesterol
alto e hipertensão, são fantasmas que nunca vão bater na sua porta, é melhor
tomar cuidado. Ser magro não é sinônimo de vida saudável. O consumo
de alimentos ricos em gorduras saturadas e o sedentarismo têm feito com
que muitas pessoas com peso normal tenham alto nível de gordura no organismo,
o que aumenta a chance de desenvolverem problemas que, antes, só preocupavam os gordinhos.
Foi o que aconteceu com a médica
veterinária Renata Kelly de Almeida, 30. Há dois anos, ela descobriu
que estava com altas taxas
de colesterol e triglicérides. Ela mede 1,55m e pesa 45kg. “A gente
sempre acha que quem é magro não
precisa ter nenhum tipo de restrição
na alimentação”, diz. Mesmo
assim, teve de riscar os doces do
cardápio e iniciar atividade física
para vencer a doença.
Casos como o de Renata estão
se tornando cada vez mais comuns.
Isso acontece porque o método
mais utilizado para identificar se
uma pessoa é ou não obesa é o Índice de Massa Corporal (IMC),
uma equação entre peso e altura
que, porém, não distingue massa
muscular da gordura (ver quadro).
Em razão disso, esse método
tem se mostrado cada vez mais ineficaz.
Que o diga a psicóloga MaryÂngela Silva Fernandes, 41. Há alguns
anos, ela descobriu que seu
percentual de gordura estava em
29% e a taxa de colesterol aumentada,
mesmo pesando 48 kg e tendo
1,53m de altura, o que representa
IMC de 20,5, considerado normal.
“Precisei mudar a alimentação e
praticar exercícios. Hoje, peso 51
kg, mas meu ercentual de gorduraé de 18% e não tenho mais problemas
de colesterol.”
Estudos recentes comprovam:
doenças associadas à obesidade
não são exclusivas de quem está acima do peso. Pesquisadores da Clínica
Mayo, nos Estados Unidos, divulgaram estudo realizado com 2.127 pessoas
com IMC adequado. O resultado foi surpreendente: mais da metade tinha excesso
de gordura corporal. Entre as mulheres, o índice foi superior a 30% e,
no caso dos homens, maior do que 20%.
Ao avaliar a saúde dos participantes, os cientistas descobriram que, mesmo
com um peso apropriado, quem tinha excesso de gordura corporal estava mais vulnerável
a doenças normalmente associadas à obesidade. Ainda conforme a pesquisa,
62% das pessoas analisadas foram diagnosticadas com o que eles chamaram
de "obesidade do peso normal".
Não há estudos semelhantes no Brasil. Segundo o endocrinologista Márcio
Mancini, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obe sidade e da
Síndrome Metabólica (Abeso), números do IBGE apontam que 13% das mulheres
e 9% dos homens no país são obesos e que cerca de 40% dos brasileiros
têm excesso de peso. Mas o estudo foi feito levando-se em conta o IMC.
O que fazer então para descobrir qual o percentual de gordura?
A nutricionista Melissa Helena da Cruz, especialista em obesidade
e emagrecimento, diz que o método mais preciso em pessoas magras é a medição de pregas cutâneas, que pode ser feito por um nutricionista,
fisioterapeuta ou educador físico. O ideal é que esse percentual seja inferior
a 26%. O sedentarismo e a alimentação rica em gordura saturada e carboidratos
refinados são os principais vilões nesses casos. “Esses alimentos se
armazenam no organismo em forma de triglicérides, o que contribui diretamente
para o aumento do colesterol”, ressalta Melissa.
E não são apenas os adultos magros que estão sujeitos a esses tipos de problemas.
Exemplo disso é o que aconteceu com Júnia Gabriela Nunes Viana,
hoje com 9 anos. A mãe, Maria Viviane Fátima Nunes Pimenta Viana, conta
que, com pouco mais de 1 ano, a menina comia pouco, pois tinha refluxo. Para
agradá-la, o avô a enchia de guloseimas. Júnia acabou desenvolvendo hipercolerestemia
(colesterol alto) e teve de fazer tratamento e dieta durante um
ano para se livrar da doença.
Se antes a balança era o inimigo número um dos gordinhos, agora quemé magro também tem motivos de sobra para perder o apetite. Afinal, todo cuidadoé pouco quando o assunto é saúde.
Métodos para avaliar a obesidade
1 l Índice de Massa Corporal (IMC)
Trata-se de uma equação entre o
peso e a altura, porém, não faz
separação entre massa muscular e
gordura. O cálculo é feito dividindo-se
o peso pela a altura ao quadrado.
Exemplo:
Uma pessoa com 1,65m e 55 kg:
55 ÷ (1,65 x 1,65) = 20,20
Resultado:
Até 18,4: magro
De 18,5 a 24,9: normal
De 25 a 29,9: excesso de peso
De 30 a 34,9: obesidade grau 1
De 35 a 39,9: obesidade grau 2
40 ou maior: obesidade grau 3
2 | Dobra cutânea
Utiliza-se um aparelho chamado
plicômetro ou adipômetro, que
mede o índice
de gordura
subcutânea. É
mais indicado
para pessoas
com peso adequado, pois obesos
costumam ter muita gordura visceral.
3 | Bioimpedância
Muito usado em academias de ginástica,
deve ser realizado com cuidado, pois
fatores como a prática de exercícios e a
ingestão de líquidos logo antes da
medição podem afetar o resultado.
4 | Circunferência abdominal
Utiliza uma fita métrica para identificar
a gordura abdominal. É um método
prático e barato, mas a medida
adequada pode variar de acordo com
a etnia. No Brasil, o valor-limite para a
circunferência abdominal em mulheres é 80 cm e nos homens 90 cm.