O prefeito eleito de Belo
Horizonte abriu a casa para
a revista Viver e escancarou
seu lado humano, crenças
e sua repleta história de vida.
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Nélio Rodrigues
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Há um tambor num canto da sala.
Tira sons cadenciados, harmoniosos
pouco depois de abrir as portas
de sua casa no amanhecer do
primeiro sábado como vencedor
das eleições em Belo Horizonte. “Qua se todos os dias, na hora do
café, eu toco. Remete às origens”,
diz o reservado ex-empresário e
pre feito eleito da capital mineira,
Marcio Lacerda. Busca ali e também
na meditação, na ioga, alinhar
energia para ficar ligado às coisas
terrenas. Mal tinha terminado a
cam panha, estava às voltas com
duas reuniões em Brasília. Cinco
dias depois, foi numa tarde ao Rio
de Janeiro, voltou à noite e, no
outro dia, visitou quatro bairros
não percorridos na campanha. “Gosto de tra ba lhar e estou otivado.”
Há o que fa zer, preparar
para atingir metas.
Está no lugar onde sempre quis:
na vida pública. Toca novamente o
tambor. Em sua casa, no Retiro das
Pedras, há salas com vista para
montanha, academia de ginástica,
onde faz musculação e 260 abdominais,
responsáveis pelo seu porte
atlético. E ainda piscina aquecida,
biblioteca, vara de pescar, remo de
decoração. Num móvel, o plano de
governo com imagens de Santa
Terezinha de Lisieux e Nossa Se
nhora de Fátima, tudo devoção da Regina, que não queria ter marido prefeito e acatou a escolha. É católico? “Fui criado na religião, mas não sou praticante. Acredito na ética cristã, de
respeitar as pessoas, de enxergar suas necessidades.”
Crê numa sabedoria superior. “Ela ilumina a vida da gente, porque as sombras
estão sempre presentes. O mal é algo intrínseco em qualquer ser humano.”
Filosofa, faz ioga para se ligar à terra. Está no café da manhã, com o
motorista José Carlos Santana ao la do, à espera, sempre sorridente. “Marcio é mais que patrão”, diz ele, que começou trabalhando nas empresas como
motorista de caminhão há 28 anos, foi padrinho de casamento de Juliana e
de Tiago, filhos de Lacerda, e herdou a casa da família em Três Marias, onde
iam pescar. Os filhos do patrão passaram a ser seus hóspedes. Não tem
do que reclamar.
Nem o patrão. Foi graças a carreira de empresário bem-sucedido que
Lacerda conquistou uma vida confortável. Com patrimônio para velejar mundo
afo ra, mergulhar em mar seguro, pescar sem se preocupar em fisgar peixe.
Mas tudo aconteceu porque houve uma cela, uma prisão em sua trajetória.
Assim, se desviou da política e fez riqueza como empresário. A história começa
em Leopoldina, onde nasceu, passa por Inhapim, na Zona da Mata, e
estica em BH. “Desde pequeno tinha sensibilidade em relação ao sofrimento
das pessoas”, lembra. Das que passavam em pau-de-arara, na Rio-Bahia, em
sua Inhapim, inclusive o menino Luiz Inácio Lula da Silva. “Estava conversando com o presidente e perguntei: o senhor foi para São Paulo pela Rio-
Bahia? Li em sua biografia que era em 1952. Ele disse que sim. Quem sabe
se não o vi passando lá”, relata. Nesta época os dois tinham sete anos. “Sou
um mês mais novo.”
Caso se cruzaram nesta estrada só é uma hipótese desvanecida no século
passado. Sabe-se que Lacerda ganhou a eleição para o grê mio estudantil,
em Inhapim, aos 14 anos, e sobressaía entre os alunos do ginásio estadual. “Ele lia muito, bem mais que a gente”, relembra o agricultor Targino
Lucca de Souza. Depois veio para a capital mineira estudar no Cefet, onde foi
diretor cultural, se filiou ao Partido Co munista e na resistência à ditadura acabou
preso. Foram três anos e 10 me ses, dos 23 aos 27 anos, em cadeias de
Belo Horizonte e Juiz de Fora. Houve período que ficava 30 dias sem sair do
cubículo, não podia conversar, ver o
sol, a luz ligada 24 horas por dia. “Me
tornei mais próximo dele nesta época,
quando compartilhamos, digamos
assim, a mes ma prisão política”, diz
o prefeito Fernando Pimentel, a quem
se rá sucedido por Lacerda. Suas celas
ficavam de frente uma para outra, na
prisão de Linhares, em Juiz de Fora.
“Não saí de lá traumatizado,
sem um pedaço. Acho que numa situação
limite você conhece as suas forças e fraquezas”, afirma Lacerda. Apurou as forças: retomou
o curso de Administração na UFMG,
arranjou emprego na empresa de
engenharia Tele-América (foi impedido
de voltar a sua vaga na antiga
Telemig por estar em liberdade (condicional) e casou com a psicóloga
Regina La cer da. “Conheci o
Marcio num bar da Sa vassi. Estava
com uma ami ga, ele pediu para
sentar”, conta. Sete meses depois
tinham se casado. La cerda tirou da
falência a empresa onde trabalhava
e as sumiu o comando. Deu
o primei ro emprego, com cartei ra
assi nada, a Fernando Pimentel.
Mas ainda estava em liberdade
condicional, teve de se afastar e
voltou aos poucos à empresa, que
estava no nome da mulher. “Fui a
Brasília pedir compaixão aos militares”,
diz Regina. Época em que
estava grá vida e perdeu a criança.
Logo vieram os outros filhos, o primogênito Gabriel, depois Juliana, Tiago e a ascensão empresarial, já com a
Cons tru tel. “Quando houve a anistia nem dava para mexer com política”, afir
ma o prefeito eleito. Já havia a Ba tik, outra empresa de telecomunicações, a
expansão para o exterior, as normas de gestão para serem se guidas, os filhos
criados no trabalho. “Eles aprenderam cedo ou tra visão de mundo, não
têm nada a ver com grifes, badalações”, relata a psicóloga, que era responsável
pelo recursos humanos das empresas.
Seguiam normas: o que não adiantava nem pedir, o que era negociável
e o liberado. Que se repetiam nas empresas, como no Manual de Conduta Ética, um dos primeiros no país, que proibia o recebimento de brindes indevidos,
só permitia a demissão de funcionários com o aval de dois diretores
e recomendava não chegar atrasado. Que Mar cio Lacerda segue: “Não
gosto de deixar ninguém esperando. Até hoje nas reuniões dou 10 minutos
de tolerância.” Se não chegou a tempo fica para trás. Estava antenado com
a crise advinda com a privatização das telecomunicações, vendeu a Batik
para a mul tinacional Lucent, repartiu 1,5 milhão de dólares entre os funcionários. “Distri buí mos 20% da venda dentro de critérios. Separamos em
envelopes”, diz Regina.
O engenheiro Edson Celeste Lima de Oliveira recebeu a sua parte, investiu
na troca de carro, e teve o emprego garantido, uma das cláusulas para a venda à Lucent. “Quando a gente nem lembrava mais de Marcio Lacerda, lá veio ele distribuindo o que havia ficado
retido na conta para o caso de
questões trabalhistas e dívida com
fornecedores”, afirma. Deixou o nome lá, vendeu a Construtel, construiu
patrimônio de 55,5 milhões de
reais e foi procurar o que queria: a
vida pública. Ofereceu ajuda na
campanha do deputado federal Ciro
Gomes à presidência da República
em 1998, 2002 e acabou assumindo
a função de secretário-executivo
do Ministério da Integração,
no primeiro governo de Lula.
Quando deixou o cargo foi velejar,
gosto afinado com o pai, o topógrafo
Reynaldo Lacerda, pelos
mares do Mediterrâneo, Caribe.
Não era só isso que queria, desviou
sua rota de mares e mergulhos para
terra firme, como secretário de Desenvolvimento Econômico de Minas. Em janeiro
deste ano recebeu o convite para enfrentar as urnas.Não havia mais celas,
impedimentos,empresas a administrar.Resolveu avançar neste terreno eletivo.
Amigos e a mulher Regina não se conformavam com a decisão. “O caminho
político é doloroso.” Mas estava decidido e ela resolveu apoiá-lo depois
das ponderações. “A gente fica o tempo todo criticando, falando mal
do governo e quando aparece a oportunidade tinha de co locar minhas idéias
em prática, pegar e fazer”, argumenta Marcio Lacerda. Lá foi ele para a campanha,à sombra do prefeito Fernando Pimentel e do governador Aécio Neves, numa aliança de dois partidos adversários, no mito de que poderia ser
eleito quem quer que fosse. O primeiro turno mos trou que não. “Confesso
que na noite de 5 de outubro (dia da eleição) já estava reagindo. Acabou a
coletiva, chamei o Pimentel, mudamos a estrutura de campanha. Passei a
impor um pouco mais.” Admite que não ganhou por incompetência, por não
ter participado dos debates. Foi à luta e recolheu das urnas 767.332 votos
(59,12% dos válidos) para assumir em janeiro a cadeira, onde se assentou
Juscelino Kubitschek. Agora, lá vai Lacerda se preparar para colocar em prática
seu plano de governo. “Temos de atender melhor e mais rápido o cidadão”,
diz. Agora tem 2,4 milhões de pessoas de olho nele. É tocar o tambor
e puxar o fio da energia.
Fala Pimentel
O SENHOR CONSIDERA A ALIANÇA
PT-PSDB VITORIOSA?
Ela teve aprovação da cidade de BH. A
imprensa de fora tem dificuldade de
entender. Trata-se de uma tese política,
não necessariamente eleitoral. Você tem
de buscar na política brasileira pontos de
convergência e não de divergência entre
estes dois grandes partidos, que são o PT
e o PSDB. Por que isto? Porque são estes
dois partidos que têm projetos para o
Brasil. Ora, se é assim, faz sentido buscar
convergência, não é dizer que vão se
unificar, juntar, fundir. Devemos
aprofundar estas discussões.
CONDUZIRIA A ALIANÇA DE FORMA
DIFERENTE?
É difícil fazer este raciocínio porque cada
atitude no seu momento tem explicação,
nós trabalhamos nas circunstâncias que
nos foram dadas, tanto eu como o
governador. Procuramos ampliar o
máximo a discussão. Agora, pode ser que
tenha errado em algum momento e
tenho humildade para reconhecer que
não sou perfeito.
QUAIS SÃO SEUS PLANOS DEPOIS
DA PREFEITURA?
Descansar, tirar férias, viajar com a
família e depois ver o que fazer.
Certamente vou voltar a lecionar na
faculdade. Minha família tem negócios e
eu devo me dedicar a isto. Não tenho
nenhum projeto político de curto prazo.
VAI SER MINISTRO?
Aí é preciso perguntar ao presidente Lula,
eu não tenho esta resposta.
QUAL O MAIOR PROBLEMA QUE
LACERDA TERÁ PELA FRENTE?
O grande problema das metrópoles no
mundo inteiro e do Brasil é a mobilidade
urbana, conjugada com a questão do
meio ambiente. Temos de dar condições
para as pessoas se deslocarem de um
espaço para o outro, com conforto,
segurança, rapidez, e em condições que
não agridam o meio ambiente. É priorizar
o transporte coletivo, o pedestre. É bom
para saúde, para a cidade, além de
incentivar meios alternativos de
transporte, como a bicicleta. Fico feliz
quando vejo a determinação do Marcio
Lacerda na questão do metrô. Aí falam
por que não resolveram isto antes. Por
que não tínhamos as condições para
solucionar, elas estão dadas agora.