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Quinta, 24 de Maio de 2012

Viagem

Vou de avião

Viver Brasil passou várias horas no aeroporto de Confins atrás de histórias de partidas e chegadas, de pessoas que, enfim, fizeram seu primeiro check-in e de transtornos inerentes à hora do embarque

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Victor Schwaner
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Em frente ao saguão de desembarque internacional, andando de um lado pra outro, atraindo olhares e aguardando o voo que vem dos Estados Unidos, está o Batmam. Isto mesmo, de capa, bota até os joelhos e cinto de utilidades. “Nossa, será que vai demorar? Deus do céu!” Na verdade nosso super-herói é a psicanalista e principalmente avó Aparecida Osório, 60 anos e muita ansiedade para ver o neto Lucas, três anos, e a netinha Luiza, de um, que moram no Alabama.   

“Ano passado vesti de Homem Aranha, mas também já fui o bonequinho do Toy Story”, conta. “Hoje ficaremos juntinhos. Amanhã vamos todos para um resort em Angra dos Reis.” A poucos metros dali está Célia Márcia de Oliveira Leal, mãe de Maurício, 20 anos, Juliana, 15 e Vítor, 10. Estão todos chegando de Governador Valadares e vão para Salvador. “Antes eu tinha medo, mas agora, não. Já passei um bom pedaço em terra”, diz referindo-se ao acidente que a família sofreu durante viagem de carro. Ficamos sabendo – eu e o fotógrafo Victor Schwaner – que o menino mais novo tem nome artístico: Vitinho Santana. Seu vídeo, interpretando o hit do momento, Ai se eu te pego, do cantor sertanejo universitário Michel Teló, está no Youtube concorrendo à participação no programa da apresentadora Eliana. O menino é conversado e a mãe o incentiva: “vai, canta pra eles.” Logo Vitinho está de pé dançando, mexendo braços e apontando dedos como a coreografia de seu astro. Ele diz que quer ser artista, que gosta de viajar de avião por causa das aeromoças e porque de ônibus balança demais!

A família de Aparecida Osório e a de Vitinho Santana, aparentemente tão diferentes, fazem parte das estatísticas que demonstram que no ano de 2011, o Aeroporto Internacional Tancredo Neves, popularmente conhecido como Confins, bateu seu recorde de passageiros embarcados e desembarcados: nove milhões e duzentos mil pessoas. “É um recorde absoluto”, declarou a superintendente da Infraero, Maria Edwirges Madeira. 



E, ao contrário do que foi um dia e isto não é nenhuma novidade, viajar de avião já não é privilégio das chamadas classes altas desde que a estabilidade econômica aliou-se ao aumento do poder de compra das classes C e D e, ao mesmo tempo a concorrência trouxe mais competitividade ao mercado de turismo. “Hoje, todas as classes sociais estão aptas a viajar. As condições de preço e parcelamento cabem no bolso de todo mundo”, afirma André Rossi, gerente da operadora Visual Turismo em Minas Gerais. Segundo ele, em 2012, 8 milhões de pessoas das classes C e D pretendem fazer a primeira viagem de avião. Conforme outra grande operadora do setor, a CVC, 25 milhões de pessoas passaram a ser consumidoras de viagens nos últimos cinco anos e pagam suas viagens com cartão de crédito, parceladas em até 10 vezes. Mas todos, dentro de suas condições, viajam mais e mais. Enquanto o turista da classe A e B já chega à operadora com seu destino determinado e período de viagem definido, as classes C e D optam por viagens que caibam dentro de seu perfil de consumo.Os destinos preferidos são as praias da região Nordeste. Outros países despertam a curiosidade, mas ainda fogem à realidade.

Palavras como check-in, over-booking e procedimentos como consulta às informações do bilhete aéreo passam a fazer parte da vida destes viajantes. “São pessoas que precisam ser orientadas pelas companhias aéreas. Por exemplo, se ele nunca viajou, não sabe da importância de chegar na fila do check-in com antecedência suficiente. Também não conhecem processos de embarque e desembarque e muito menos sabe que há itens como tesouras e ferramentas que não podem ser levados na bagagem. Tudo isto deixa o passageiro ansioso”, aponta a superintendente Maria Edwirges. Ela fala que é necessário até mesmo que este turista saiba decifrar seu bilhete aéreo e consultar painéis de voo.

Lucas de Barros, check-in com 24 horas de antecedência, pela internet



De acordo com ela, na tentativa de minimizar estes impactos, para esta alta temporada, todos os funcionários estarão usando coletes amarelos de identificação e as companhias aéreas estão recebendo instruções contínuas para manter monitores atualizados e as sinalizações deverão ser aperfeiçoadas. Habituado às viagens aéreas, o vendedor Lucas de Barros, 19 anos, fez seu check-in pela internet, com 24 horas de antecedência. Ele já está planejando para o ano que vem a primeira viagem internacional: “Tenho um primo na Nova Zelândia e quero ir para morar, trabalhar e estudar.”

“Jornalista, vem cá”, me chama a senhora que não quer dar o sobrenome, mas identifica-se apenas como Telma. Eu vou. “Esta é a pequena mostra do que nos espera para a Copa.” Ela refere-se ao atraso de mais de uma hora de um voo vindo de Guarulhos para Confins e à falta de explicação sobre a razão da demora. “Eu olhei, fui ao balcão (da companhia aérea) e perguntei, mas não sei de nada, concretamente”, lamenta-se. “Olha, não vai alterar o que eu falei, não”, adverte-me, um tanto brava. “Jogaram as malas da gente pra todo lado”, diz  outra.

Maria Flávia Martins  está chegando de Londres. Ao pousar em Confins a situaçação foi deveras cansativa: ficou hora e meia dentro do avião, sem poder descer e demorou, ainda, 40 minutos para pegar as malas. “Isto não se faz...”, é o que Maria Flávia tem a dizer. Em estado de ânimo oposto está Aparecida Helena. Ela não vê o filho há um ano, pois o engenheiro de software Henrique está na Alemanha a trabalho. Ele está atrasado, também. Mas ela está debruçada, calmamente, no cordão de isolamento, aguardando-o .  “Não estou ansiosa, não. Eu já fui, mas a vida nos modifica. Meu filho está feliz lá. Quando eles eram crianças, morávamos no Rio e pegávamos a ponte aérea, era um drama: menino, mamadeira e até passamos a ir de carro. Olha, meu filho está pousando! Graças a Deus!” 



Diana Duro espera o irmão que vai chegar de Miami. Mais um perdendo a hora. “Em setembro eu estava voltando de lá para cá e o próprio piloto teve que pedir, de dentro da cabine, pro pessoal assentar porque precisava decolar. Era gente gritando, chamando fulano, sacola passando de um lado pra outro, crianças correndo. As comissárias de bordo passando, fechando os bagageiros.” Para ela, o caos aéreo já está instalado. 

O número crescente de pessoas nos aeroportos brasileiros e o volume delas dentro das aeronaves, que viajam, em média, com 80% de seus assentos ocupados, não é causa das confusões veiculadas pela mídia e que nos deixam de queixo caído. “O caos aéreo é um problema de planejamento. Existem países com demandas e ofertas superiores ao Brasil cujos aeroportos e serviços aéreos funcionam perfeitamente bem”, assegura Rossi.

“As companhias aéreas não aumentaram os quadros de funcionários atuando em solo. Ao mesmo tempo, a quantidade de aeronaves em trânsito aumentou muito. Falta investimento em infraestrutura, tecnologia e treinamento de mão de obra”, frisa a coordenadora do curso de turismo da faculdade Newton Paiva, Sandra Ribeiro Santos. 

Para quem está responsável por duas crianças pequenas, carregando uma no colo enquanto a outra sai em disparada pelo corredor, o que interessa não são as causas, sabe-se lá de quê, mas uma explicação.“Ficar dentro da sala de embarque com eles é estressante. Falta honestidade em nos falar a verdade”, reclama a dona de casa Vanda Alcântara. Seu voo para Salvador não  tem previsão para decolar, ela conclui.

Mas, para todas as classes sociais, a pedida é esperar para ir e vir. Enquanto isto, olhando do piso do segundo andar, a movimentação está intensa e são poucas as pessoas de terno ou roupa social. Em compensação não faltam calças jeans, bermudas, tênis, mochilas. Também muita bota e salto alto. Estão todos juntos e misturados, nem que seja no aeroporto. 

Saiba mais

 

  • Número médio de passageiros mensais: 850 mil passageiros
  • Dezembro 2011: 980 mil passageiros
  • Crescimento percentual da movimentação de dezembro de 2010 comparado ao mesmo mês de 2011: 30%
  • Número de passageiros que decolaram e aterrissaram em Confins em 2011: 9 milhões e 200 mil pessoas
  • Posição do aeroporto em relação a pouso e decolagem de passageiros internacionais: 4º do país

 

O que as pessoas mais perguntam no aeroporto

  • Onde é o check-in: 38%
  • Onde fica o portão de embarque: 33%
  • Onde tem ponto de ônibus: 8%
  • Onde é a Polícia Federal: 4%
  • Indicação de hotel padrão médio: 4%
  • Onde fica o sanitário masculino: 4%
  • Localização de caixa de restaurante: 4%
  • Onde é a seção de achados e perdidos: 24%