“Foi ela que me incentivou a fazer comédia. Porque toda vez que eu falei: mãe, eu sou ator, ela riu da minha cara.” A plateia explode em gargalhadas. Dando sequência ao assunto mãe, Fábio Rabin emenda outra piada, outra, outra e mais outra. A resposta do público são risadas quase imediatas, ritmo ditado pelo tempo do comediante. Sem adereços, cenário, figurino, iluminação ou trilha sonora, ele está só no palco. Apenas o copo d’água e um microfone oferecem algum tipo de suporte. Mas o rapaz de 27 anos tem a plateia sob controle por meio de piadas que não fazem parte do repertório tradicional.
Nada de sabe aquela do português ou coisa que o valha. O gênero surgiu nos cabarés de Berlim, nos anos 20, popularizou-se nos Estados Unidos e foi introduzido no Brasil na década de 70. O pioneiro foi o humorista José Vasconcelos. De lá pra cá, Chico Anísio, Costinha, Jô Soares e Miele também exercitaram o talento no stand up, considerado nada fácil. Afinal, não se trata de monólogo ou incorporação de personagem. Exige originalidade, números escritos pelo próprio comediante e não permite anedotas que caíram no senso comum ou baseadas em clichês. Não há diretor nem a figura do personagem. A observação do cotidiano gera os textos. O melhor: qualquer assunto pode virar piada. “Não tenho preocupação com o que é politicamente correto”, comenta o repórter Inexperiente do humorístico Custe o que Custar (CQC), Danilo Gentili, mais um nome sensação que foi parar na TV por conta do stand up.
Formado em publicidade, Gentili integra, com Rabin, uma geração – muitos com menos de 30 anos – que está colocando o conhecido humor de cara limpa na ordem do dia. Eles estão também no humorístico Pânico na TV, em quadros do Domingão do Faustão e programas da MTV, como o Furflles on the beach. Aliás, é pra lá que está se transferindo Fábio Rabin. Vai se juntar aos colegas Dani Calabresa e Marcelo Adnet, ambos despontados por meio do stand up. Nomes como Rafinha Bastos, Oscar Filho, Fernando Caruso, Marcelo Mansfield, Marcela Leal já caíram no gosto do público, que lota bares e teatros. A televisão parece ser quase destino para os que se destacam nos palcos e nos vídeos postados no YouTube. E forma-se o ciclo: o público corre aos teatros para assistir caras conhecidas dos programas de humor.
Com apresentações marcadas na capital mineira, Gentili, que em São Paulo integra o Clube da Comédia, tem a agenda cheia quase que para o ano todo, inclusive com apresentações em eventos institucionais. Na primeira vez que esteve em BH, com o projeto Mercado do Riso, foi necessário sessão extra em teatro com capacidade para mais de 2 mil pessoas e ingressos com preços médios de 50 reais. Alguns de seus vídeos no YouTube contam com mais de um milhão de acessos.
“O gênero é grande no mundo todo. Mas no Brasil acho que está crescendo porque as pessoas estão cansadas de assistir sempre as mesmas coisas. E querem se divertir, rir, mesmo na crise”, considera Rabin. Para ele, a possibilidade de falar sempre do que é atual e, consequentemente, novo, faz o stand up evoluir. Em compensação, se o público não ri, não há a desculpa do personagem: o trabalho não está tão bom assim.
Se no início da carreira ele ganhava parcos 6 reais a cada apresentação – daí a piada de abertura, pois a mãe, realmente, não botava muita fé em sua carreira, mas hoje, segundo ele, “serve até cafezinho na hora das entrevistas” – hoje vive dos cachês e lota lugares onde se apresenta. Já foi para Rio de janeiro, Curitiba, Florianópolis, São Paulo capital e interior, Minas Gerais. Na plateia estão jovens e pessoas de meia-idade para rir da gripe suína, de uma genial paródia de Hitler – em que o ator não emite nenhuma frase com nexo muito menos faz caretas – ou de qualquer assunto que tanto pode vir do noticiário quanto de uma experiência vivida pelos comediantes. Por isto ele diz que é um humor real. “Nós temos que ser bem informados, mas o público, não”, comenta Rabin.
Diretor e professor de teatro, Pedro Paulo Cava vê os números como performances juvenis, que vêm a calhar em épocas de vacas magras: “É barato para produzir. Mas pode ser um passo para que estes atores amadureçam, se reúnam e montem outras coisas também.” Sérgio Rabello, ator e produtor do paulistano Terça Insana, que desde 2001 reúne esquetes de humor e revelou Marco Luque (CQC), faz stand up há uma década e acredita que o sucesso pode ser atribuído, ainda, à ausência de grande elenco e apetrechos. “Na verdade nosso foco está na criatividade que surpreende o público. Privilegiamos o texto em vez da simples palhaçada.”