Uma mulher de trinta e poucos anos se assenta ao lado de uma terapeuta. Na mesma sala, um grupo de cerca de 40 pessoas aguarda em respeitoso silêncio o início de mais um depoimento de fórum estritamente pessoal. A profissional pede, então, que a mulher se apresente e mencione o que a incomoda. Entre um misto de constrangimento e ansiedade perturbadora, ela fala seu nome e resume sua história. Conta que perdeu a mãe, há pouco mais de seis anos, em função de um acidente de carro. Desde então, entre fases de dor e superação, convive com um eterno vazio. Revela que na teoria entende que as pessoas nascem e morrem, mas assume ter dificuldade para lidar emocionalmente com o fato. Tenta elaborar algo mais, mas é gentilmente cortada pela terapeuta com um: “Isso me basta.”
Na sequência da sessão, é solicitada a escolher aleatoriamente, entre os participantes, representantes simbólicos de sua família: pai, mãe, irmãos e ela própria. Com a seleção e permissão dos integrantes, a mulher executa o livre posicionamento das figuras entre si, conforme indicação da terapeuta, que passa a interrogar os participantes como se sentem nas posições assumidas. A partir daí, inicia-se uma curiosa e surpreendente dinâmica. Os eleitos assumem trejeitos de seus representantes e demonstram sentir emoções e sensações das mais diversas. Partes do corpo enrijecem, mãos suam em demasia, surgem vontade de chorar, sensação de tristeza, aperto no peito.
O relato acima ocorreu durante encontro de constelação familiar na capital mineira. Ainda pouco divulgada no país, a chamada terapia sistêmica fenomenológica, desenvolvida pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, tem atraído pessoas do mundo inteiro em busca da solução para conflitos emocionais e problemas físicos. E foi justamente em busca de recurso extra, que a psicóloga Solange Bertrão, atuante na psicanálise corporal há 25 anos e interlocutora da sessão descrita, descobriu a prática.
Difícil de ser explicada, a constelação familiar pode ser definida como uma técnica que contribui para dinamizar o trabalho terapêutico. Embora ainda não seja comprovada cientificamente, é recurso de trabalho de muitos psicólogos e profissionais ligados à área. Segundo Solange, formada com Bert Hellinger, é apenas participando de uma constelação que a dinâmica pode, de fato, ser entendida, e sua veracidade comprovada.
No processo da constelação, seja de grupo (como constelante ou participante) ou individual – quando então os integrantes familiares são substituídos por pequenos bonecos –, todas as questões trabalhadas são analisadas sob a ótica do núcleo familiar, mesmo que o tema conflitante esteja no âmbito profissional. Conforme Bert Hellinger, as pessoas tendem, inconscientemente, a repetir ações de seus antecessores, não por fatalismo, mas por amor. Com a prática, o constelado toma conhecimento desses atos (repetições) e passa a trabalhar para se libertar dessas energias, os chamados emaranhados. “Além do DNA de nossos ancestrais, carregamos seus sentimentos. Pode-se tentar viver igual a eles ou fazer por viver por eles.” Em resumo, Bert Hellinger prega que é importante olhar os ascendentes com respeito. Filhos e pais não podem tornar o outro responsável por suas infelicidades. Cada integrante tem seu lugar no sistema familiar. Quando a hierarquia é quebrada, ocorre o emaranhado.
Durante a sessão de constelação exposta no início da reportagem, a mulher que constela acompanha embasbacada os desdobramentos das cenas que se constroem por si só à sua frente. Seus familiares e ela própria, representados por outras pessoas, encenam do nada a parte mais triste de sua história de vida. Ela, com o coração mais que apertado, vê-se indo de um lado ao outro para dar conta da triste demanda do pai, dos irmãos. Corre para perto da irmã do meio que não sai de perto da mãe, que por livre e espontânea vontade deitou-se no chão e disse estar sufocada; vai para perto do pai que está isolado em sua dor e confessa estar com raiva; e acompanha as ações da irmã e do irmão mais velhos visivelmente apáticos.
Tudo parece gerar uma sensação de impotência, de pena dos demais e dela própria. Ela sofre quase que na mesma proporção que se mostra preocupada. Chora, ouve os diálogos, emociona-se mais vezes e, finalmente, abraça a mãe, simbolicamente se despedindo. Na sequência, a terapeuta se volta para a mulher e diz que tudo foi demais para ela. Erroneamente carregou a dor de todos. Que, a partir daquele momento, deveria se comportar mais como filha e irmã mais novas. Buscar mais colo, amparo e não querer substituir a todo custo o vazio deixado pela mãe. Para finalizar, a profissional pede para a mulher repetir: “Eu sofri e senti muito, mas agora eu sei o meu lugar.”
Embora ao ser assistida ou explicada possa denotar certo viés religioso, místico, de acordo com Solange, a constelação é apenas técnica terapêutica, onde pessoas de todos os credos participam. É um trabalho desenvolvido dentro de um campo energético, baseado no amor genuíno, importante para as pessoas se conhecerem. “Quando se reconhece um antepassado, há um fenômeno, uma força, que conduz os participantes naquele momento. Faz-se uma ação de aceitação das ordens de amor, como hierarquia paternal e fraternal. Se os pais são aceitos, a vida recebida também será.”
De natureza cética, a psicóloga recorda que, durante a primeira constelação de grupo de que participou, o segredo de um constelado veio à tona. “Revelou-se, de forma chocante que determinada pessoa não era filho de quem supunha ser. Posteriormente, tive informação que um exame de DNA havia comprovado a revelação.” Neste caso, o constelado se queixava que não se sentia em paz, mudava sempre de profissão e não mantinha bom relacionamento com a mãe.
Na constelação, posteriormente à revelação, a mãe mencionou um caso amoroso do passado. “Após desconforto e decepção do filho, veio o entendimento e ambos se sentiram leves. Não apenas pela exposição da verdade, mas pelo filho ter valorizado o pai que o criou e reconhecido o pai de sangue. Mas pelo reconhecimento de cada membro familiar.” Para Solange, a constelação complementa uma lacuna da psicologia. Apenas com o atendimento convencional, ela não conseguia, muitas vezes, ajudar o paciente em determinadas questões, acessar a causa das raivas. “Sentia-me impotente.”
Já a psicóloga Vânia Beatriz de Souza, 63, não se entusiasma tanto quanto ao caráter de inovação proposto pela técnica. Ao contrário. Reconhece na constelação afinidades pertinentes aos universos próprios da psicologia e pscicanálise. Com participação de uma única sessão, visualizou a apropriação do cosmodrama, recurso para montagem da família apregoado por Pierre Weil. “Também, as questões ligadas ao magnetismo energético compartilhadas de gerações a gerações há muito já foi difundida por Eistein e propagada pela chamada lei da atração.Tudo isso já foi dito. É inegável.” Apesar disso, a psicóloga considera o processo válido, bonito, viável para ajudar.
Formada com Bert Hellinger, a terapeuta alemã Malies Wiest lança mão da constelação familiar há 26 anos e, desde 1997, vem ao Brasil para promover cursos de formação e sessões individuais. “Acho que fui levada espiritualmente a este trabalho.Venho de uma família, onde o amor era desequilibrado. E no meu coração havia um anseio por construir uma família e ajudar outras famílias”, conta Malies, casada há 30 anos e mãe de quatro filhos. Para a discípula de Hellinger, a constelação não é só um método. “Tem a ver com coisas que já são comprovadas na vida há muitas gerações. Porque as mesmas influências são recorrentes em várias culturas diferentes. Sinto que entro num campo energético e me entrego a ele com tudo que está disponível dentro de mim para servir e dar suporte ao cliente.”
Adepta da teoria e prática da constelação familiar, a psicóloga, com formação em terapia transpessoal e tanatologia, Clotilde Toledo Gonçalves, afirma que a técnica de Hellinger não compromete nenhuma linha de terapia convencional e nenhum tratamento médico. Só ajuda na conciliação do fluxo do amor, da vida. Sempre que possível, encaminha seus clientes para constelar. “Os reencontros entre os membros familiares são tocantes. Os demais integrantes, mesmo não estando presentes, também são beneficiados com os desdobramentos da constelação.” Segundo Clotilde, o mais comovente desse trabalho é o quanto grato somos pela vida e o fato de muitas vezes deixarmos de nos apropriarmos dela por conta de um fluxo interrompido em algum antepassado.
Seja como for, ao participar ou assistir a uma constelação, principalmente de grupo, onde a maioria das pessoas não se conhece, não há como não se impressionar, questionar: “mas, como?”, e deixar-se, nem que seja por curiosidade, emaranhar pela técnica de Bert Hellinger. No mínimo, será uma experiência diferente de tudo que tenha visto ou ouvido falar. E esta afirmativa parte de uma experiência própria. A constelação retratada no início da reportagem se trata de uma história vivenciada pela jornalista que assina a matéria.
Terezinha Ferreira Martins“Há um ano e meio conheci a constelação a partir da indicação de uma psicóloga, colega da clínica onde trabalho. Fui meio que por educação, levada. Não tinha nem ideia do que podia ser. Achei extraordinário. Um trabalho forte, que me gerou mudanças intensas. A visão da mãe, com quem travava uma relação tumultuada, foi transformada. Passei a vê-la de outra forma, como todo ser humano que tem suas fraquezas e forças e, não da forma que queria que fosse. A partir das constelações de que participo, de forma geral, consigo levar esta visão para as pessoas com quem me relaciono. Cada vez, levo novas pessoas para conhecerem. Minha mãe, claro, já foi uma delas.” |
Geslane Ker Marrara e Elias Feres Mansur“Durante as constelações, percebemos equilíbrio entre o dar e o receber, uma das ordens do amor pregadas por Bert Hellinger. Antes, tínhamos sensação de que em nossa relação dávamos mais do que recebíamos. Ao constelarmos, desvendamos segredos familiares que interferiam diretamente em nossas vidas por estarmos emaranhados com sentimentos de antepassados, inclusive repetindo suas histórias de vida. Passamos a sentir grande alívio e o equilíbrio foi surgindo natural e progressivamente, gerando harmonia e integração entre a gente. Podemos dizer que hoje estamos mais presentes em nossas posições de marido e mulher. Apesar de morarmos 5 anos juntos, podemos dizer que o desejo de concretizarmos o relacionamento a partir do ritual de casamento renasceu.” |
Bert HellingerApontado como um dos psicoterapeutas mais inovadores do mundo, o alemão Bert Hellinger é o criador da chamada constelação familiar. Seu trabalho terapêutico é resultado de suas experiências pessoais e profissionais. Inclui a fé que o imunizou contra a aceitação do nacional-socialismo de Hitler, a lida como soldado de prisioneiros de guerra, os 25 anos de sacerdócio à Igreja Católica, a função de missionário na África entre os zulus e participações em treinamentos de dinâmica de grupo inter-raciais e ecumênicos. Mais tarde, tendo renunciado à batina, passou a estudar psicanálise, bionergética, até chegar à elaboração da técnica. Segundo Hellinger, durante as constelações, os participantes ficam envolvidos em um campo físico-espiritual interligados numa espécie de inconsciente coletivo. Nessa força, não há vítimas nem agressores. Todos pertecem à ordem do amor. |
Vânia Pinto Amorim“Ao ser convidada para participar de uma sessão de constelação familiar em fevereiro, confesso que fui tomada por um desejo enorme de recusar, permeado por um impulso de participar. A incerteza de ir ou não talvez tenha sido decorrente do pouco conhecimento acerca do que iria significar esta oportunidade ímpar na minha vida. Durante a reunião de constelação, mesmo antes de chegar a hora da minha participação, já tinha aproveitado o conteúdo dos desdobramentos, diálogos e cenas que ocorreram no encontro. Minha expectativa era me reencontrar. De lá para cá, parece que os astros têm conspirado a favor disso. Tudo o que vivenciei naquele encontro tem sido um estímulo para prosseguir na minha caminhada rumo ao autoconhecimento.” |
Sylvia Moraes“A indicação de fazer constelação chegou a mim quando tinha descoberto recentemente um câncer de mama. Uma amiga acreditava que a experiência seria interessante, uma vez que minha mãe havia tido a mesma doença e morrido em decorrência dela na mesma idade em que eu estava. E ela estava certa. Durante a terapia, descobri que tinha criado bloqueio em relação à perda de minha mãe. Tinha 9 anos na época e fiquei sem entender por que ela não tinha me levado. Durante anos, esperei, inconscientemente que voltasse. De certa forma, parece que projetei que ia viver o mesmo tempo que ela. Quando meus filhos atingiam 9 anos – hoje têm 18 e 19 anos –, vivia com sensação de que poderia ir embora a qualquer hora. Talvez por isso, acostumei a manter certa distância deles para não me apegar muito. Na sessão, durante o velório simbólico da minha mãe, consegui olhar para o caixão e dizer a ela que sentia muito pela sua morte e que a amava muito, situação que não aconteceu na vida real. Passei a entender que ela tinha cumprido sua missão, precisava continuar vivendo para cumprir a minha e não estava sozinha: tinha meu pai, irmãos e filhos. Com a constelação, o relacionamento entre nós mudou muito. Hoje, eles estão mais carinhosos, eu me sinto mais próxima deles e, mesmo diante da separação do meu marido, a família, como num todo, está mais unida. Foi válido porque consegui me libertar desses pensamentos negativistas e a doença está controlada. Agora, tenho consciência de viver plenamente.” |
Mais Sobre ConstelaçãoSolange Bertão é certificada em constelações familiares – abordagem sistêmica fenomenológica de Bert Hellinger; analista bionergética pela Sociedade Brasileira de Análise Bionergética; membro do International Institute for Bionergetic Analysis – IIBA de Nova Iorque; e sócia-fundadora da Associação Brasileira de Constelações Sistêmicas –ABC. Quais as causas mais frequentes? A maioria dos que constelam já faz outros tipos de terapia? A constelação sistêmica é comprovada cientificamente? Se a constelação sistêmica ainda não é comprovada cientificamente, como pode ser considerada técnica idônea e eficaz? De acordo com a constelação, as pessoas parecem ser vítimas dos outros (de seus próprios familiares, antepassados). Isso não parece uma fatalidade? Onde fica o poder da fé, do livre arbítrio? Como explica os sintomas que os representantes costumam manifestar durante as constelações em grupo (rigidez em partes do corpo, ânsias de choro, vômito etc)? Como discernir as representações que ocorrem nas constelações de grupo de autossugestões? |