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Quinta, 24 de Maio de 2012

Ciência

É só querer

Escola Estadual Felício dos Santos, no Vale do Jequitinhonha, dá exemplo de como melhorar a qualidade de aprendizado dos alunos mesmo em condições extremas de pobreza e falta de estrutura familiar

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Daniel de Cerqueira
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Os moinhos de vento são verídicos. Não gigantes fantasiosos como  de Dom Quixote, de Miguel Cervantes, um de seus livros prediletos. Nasceu numa cidade com altas taxas de analfabetismo em tempos não tão remotos, encaixada no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões com mais baixo índice de desenvolvimento humano do país. Teve o irmão esfaqueado em plena praça, a mãe é analfabeta, mas faz tudo para a filha romper as fronteiras do conhecimento. Aceitou as contradições, agarrou-se aos desejos da mãe, sobressaiu-se, está no primeiro ano do ensino médio e quer se formar em direito para ser detetive. Janaína Fernandes dos Santos, 14 anos, não carrega as marcas do meio hostil, sobrepôs a elas, se há sequelas, resultaram em experiência, nas lições que a vida dá. “Quando a gente começa a estudar, aparecem os sonhos.”


Os sonhos vieram com os livros, com o gosto pela matemática, com a mente aberta pela ciência, atualidades, se transpuseram, embutidos às notas de outros alunos, ao bom desempenho no Programa de Avaliação da Educação Básica (Proeb), divulgado no mês passado. “Fiz o melhor que pude”, afirma. Sua escola estadual, a única de Felício dos Santos, a 366 quilômetros de Belo Horizonte, emergiu de posição desfocada a de destaque no Proeb, de um dos últimos lugares do Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa) para acima da média. Encontrou o rumo, sua função básica: levar o aluno a ler, interpretar texto, fazer contas, sem esquecer o lado afetivo num meio de violência doméstica, desestrutura familiar, pobreza.


Buscou a parceria do conselho tutelar e dos responsáveis, a maioria analfabeta, no combate à indisciplina. “Os pais não tiveram condições de estudar e, por isso, fazem o que for preciso para que os filhos sejam bons alunos”, lembra Viviane Claudino Campos, a diretora da escola. Se há intervenção familiar, 80% mudam o comportamento. No início deste mês, o lavrador Clevi Serafim da Silva estava lá, numa reunião, às voltas com a indisciplina do filho Cléber, de 12 anos: “Tenho que correr atrás porque quero vê-lo formado numa faculdade.” Acha válidas as mudanças na escola, antes agarrada a um trabalho sem norte que parecia ir bem, mas reprovado ao refletir no aprendizado dos alunos. 

Separou estudantes que estavam no 3º, 4º ano sem saber ler, criou as turmas do Programa de Aceleração para Vencer (PAV), reforçou o ensino, conseguiu amenizar a distorção idade-série. Alçou a meritocracia ao pódio: os alunos que atingem 80% em cada bimestre recebem medalhas e diplomas em solenidade com pais e autoridades municipais. Nesta sequência de verbos, o merecer chega ao topo da escala ao presentear o aluno que obtiver a melhor nota no total do ano com uma bicicleta. “No primeiro dia de aula quis estabelecer meta com os alunos. Um deles falou em 500. Se for preciso, vou até ao presidente da República pedir patrocínio”, diz a diretora.

Elzamíria de Moura Ramos, a Zazá, de 11 anos, conseguiu ser a número 1 em 2008 e deixou a família orgulhosa de tantas medalhas, diplomas e a bicicleta, a estatueta máxima do empenho. Também ajudou a elevar em 52% a nota da escola no Proeb de 185,5, em 2007, para 277,3 em língua portuguesa. “O estudo vai me ajudar”, diz a aluna do 6º ano Alegria. Lá na Felício dos Santos, as turmas têm nomes de cores, sentimentos e pedras preciosas para fugir da aridez das letras do alfabeto tão comum em outras escolas. É mais um meio para elevar o gosto pelo estudo, que se reproduz no bom desempenho, condensado pelo Plano de Intervenção Pedagógica (PIP) da Secretaria de Estado de Educação.


Esse plano é elaborado, após o resultado das avaliações e a análise deles pela escola, por técnicos da secretaria, professores e apresentado à comunidade. “A secretaria e as superintendências de ensino voltaram os olhos para o cotidiano das escolas e está havendo resultados”, diz Raquel de Souza Santos, subsecretária de Desenvolvimento da Educação Básica. Numa soma elementar de checar as habilidades dos alunos por meio das provas de língua portuguesa e matemática, elaboradas, no caso do Proeb, pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed), da Universidade Federal de Juiz de Fora, e reforçar as deficiências.“As escolas trabalham com resultados mais concretos. Antes as avaliações eram subjetivas”, acrescenta Juliana Riani, superintendente de Informações Educacionais.


Essa concretude do aprendizado tornou-se anual desde 2006 e imprimiu rotina nas escolas, que para ter boas notas necessitava desenvolver trabalho de longo prazo. A avaliação externa se dilui, adere ao dia-a-dia, fica normal. Renato Bruno Ferreira Maia, do 3º ano Ametista, até esquece que terá seus saberes medidos este ano. “Adoro estudar, ler, conhecer o corpo humano, neurologia, genética”, vai enumerando ele, que quer ser médico e viu de perto a melhoria da Felício dos Santos.  “Antes era péssima.” Mas isto faz parte do passado, quer virar a página e ver a escola melhorar ainda mais. Não falta vontade dos professores, que se desdobram para, além de ensinar, amenizar os sofrimentos de alunos que carregam para as salas de aula a dor de famílias desestruturadas, de mortes brutais, da carência de tudo, de um bolo de aniversário.


Não há como ignorar. “No início eles pulavam a janela, eram indisciplinados”, diz a professora Mar­ga­rida Maria da Luz, que não se deu por abatida neste desafio perseguido desde o início de 2008, no 4º ano. Foi atrás das famílias, procurou entender as adversidades, se ateve à afetividade escassa. “Meu maior presente é saber que estes meninos aprenderam e tenho certeza de que não vão fazer feio no Proeb deste ano.”


Acredita que venceu e ainda vence a cada dia a luta de alinhar afetividade e aprendizado. Sabe que terá muitos moinhos de vento reais a serem anteparados com a educação e pinçar o Vale do Jequitinhonha, tão estigmatizado como reduto da pobreza para o do desenvolvimento. Corrigir as desigualdades econômicas. “Os holofotes estão na escola”, diz Nazir Egídia da Silva, supervisora da Felício dos Santos. Outras unidades de ensino da região e de localidades mais pobres do estado também começam a mostrar resultado. É uma arma certeira nesta revolução silenciosa.

Alunos durante a merenda: melhoria no ensino

Acima da média



Confira as notas de lá e do estado no Proeb

5º ano  

Língua portuguesa  

Felício dos Santos 277,3 

MG 204,8

Matemática 

Felício dos Santos 263,6 

MG 218,2

9º ano  


Língua portuguesa 

Felício dos Santos 261,5 

MG 250,2


Matemática  

Felício dos Santos 271,3 

MG 255

3º ano  

Língua portuguesa 

Felício dos Santos 289,8 

MG 274


Matemática 

Felício dos Santos 309,8 

MG 282,2


Foram avaliados 545 mil alunos da rede estadual e 256 mil da municipal

Minas está em terceiro lugar no 5º ano do ensino fundamental e 3º do médio na Prova Brasil, e em segundo lugar no 9º ano

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Perfil da Escola

- 1.200 alunos
- 50 professores
- 42 turmas de 1º ao 9º ano do ensino fundamental e 1º ao 3º do ensino médio
- As turmas têm nomes de cores do 1º ao 5º ano: amarelo, vermelho, azul, verde, branco, roxo, alaranjado, lilás, dourado
- De sentimento do 6º ao 9º ano: alegria, beleza, coragem, ternura, doçura, amizade, bondade, sucesso, carinho, paz, equilíbrio, afeto, felicidade, harmonia, esperança, pulsação, força, atitude, energia, superação, vitalidade, dinamismo, vigor
- De pedras preciosas do 1º ao 3º ano do ensino médio: rubi, brilhante, ouro, diamante, safira, cristal, esmeralda, topázio, ametista e pérola

Fonte: Escola Estadual Felício dos Santos e Secretaria de Estado da Educação