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Quinta, 24 de Maio de 2012

Violência

Pedra mortal

Pesquisa comprova relação direta do aumento de homicídios com armas de fogo na capital mineira com o consumo de crack

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Paulo Werner
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O que as pessoas imaginavam em virtude do noticiário, agora é fato comprovado por pesquisa: o crack é um dos responsáveis diretos pelo crescimento das ocorrências de homicídios, desde 1997, entre jovens de 15 a 24 anos, em Belo Horizonte e região metropolitana. Esta é uma das conclusões da pesquisa A Problemática do Crack na Sociedade Brasileira: o impacto na saúde pública e na segurança pública.

Desenvolvida no período de dezembro de 2008 a julho de 2010 pelo Centro de Pesquisa em Segurança Pública (Cepesp) da PUC Minas e coordenada pelo professor do Curso de Ciências Sociais, Luis Flávio Sapori, o estudo mostra que este é um tráfico mais violento devido à compulsão do usuário, que chega a fumar acima de 10 pedras da droga por noite. “Fica-se muito endividado. E, muitas vezes, para pagar a dívida, o usuário vai trabalhar para o dono da boca, mas acaba consumindo a mercadoria que devia vender, o que gera dívida. Este tipo de conflito é resolvido com violência, arma de fogo e paga-se com a própria vida”, afirma Sapori.

A pesquisa desmente a ideia do crack como droga barata e de classes baixas. Basta fazer as contas: um papelote de cocaína custa, em média, 20 reais enquanto uma pedra de crack a metade do preço, às vezes até menos. Mas em contrapartida não se usa uma única pedra por noite. O perfil dos usuários abrange classes sociais diversas.

Na opinião do pesquisador, a pedra, feita com restos da cocaína, é caso de polícia em virtude do tráfico, mas também de saúde, e exige, por parte do poder público, novos modelos, com a droga sendo atacada em duas frentes: a repressão deve ser mais firme e a presença da polícia ostensiva para diminuir o lucro do traficante e inibir a violência crônica. “Também mais investimento em programas de prevenção, em campanhas de massa relacionada ao crack. É preciso tanto superar modelo em que a polícia entra e sai do morro, como desenvolver programa nacional de atendimento ambulatorial e de internação.”

frases



 

“ O crack é ouro!” (traficante entrevistado para pesquisa)

“Eles não se interessam em vender maconha que é barato, interessam vender o crack. Porque crack é uma droga pequena, de consumo muito rápido. A pessoa vai voltar toda hora. É muito viciante.” (ex-traficante entrevistado)

“A maconha dá movimento, cheiro e pouco dinheiro. É pra quem mexe com coisa pequena!” (traficante entrevistado)

“O traficante não mata o usuário porque ele tá devendo. Ele mata porque ele é um sem-vergonha, tá devendo e foi comprar na outra boca. É nessa situação que ele mata o usuário. Se ele comprou e não pagou, mas não tá devendo, não tá usando, o traficante segura mais a onda. Mas se vê que ele tá chapado, tá tirando mercado dele: você tá achando que eu sou otário?” (traficante entrevistado)

“Agora tem nego que não fuma a pedra, é a pedra que fuma o cara. Bandido que é bandido não é viciado. Você tá vendendo 50 bolinhos, você vai queimar 10? Aí queimou o lucro todo!(traficante entrevistado)

Fonte: A Problemática do Crack na Sociedade Brasileira

Para entender



 

A ENTRADA DO CRACK EM BH

Aparece, inicialmente, em 1995, na Pedreira Prado Lopes. O crack que chega é proveniente de São Paulo e trazido pela quadrilha da família Peixoto, da Pedreira. A partir de 1997, os conflitos relacionados ao tráfico de drogas tornam-se a principal motivação de ocorrência de homicídios na cidade. O período da disseminação e consolidação do comércio da droga coincide com o crescimento da vitimização de jovens entre 15 e 24 anos. A taxa de homicídios nesta faixa etária torna-se 2,5 vezes maior que a dos adultos acima de 25 anos