Reza a lenda que a Rede Globo nunca gastou tanto na divulgação de um evento como no Enduro da Independência de 1983 – primeira edição. Na época, um dos diretores da emissora, Ivys Alves, aficcionado por moto e história, se uniu ao Trail Clube de Minas Gerais para refazer o trajeto realizado por dom Pedro 1º em 1822 – do Rio de Janeiro a Belo Horizonte e que mais tarde ficou conhecido como Estrada Real.
Nas quase três décadas que se passaram, o Enduro da Independência sobreviveu a mudanças de moeda e governo, mas parte de seu glamour parece ter ficado pelo caminho. Bons e maus momentos narram a história do evento que só persiste em função de alguns treieiros que lutam anualmente para que o enduro não acabe. “Se houvesse patrocínio e interesse da mídia, seríamos maiores do que o Rally dos Sertões (este em sua 18ª edição). Houve época em que as pessoas dormiam na fila para não perderem a inscrição. Abríamos mil vagas e acabava em um dia”, relembra o diretor do uro do Trail Clube, Cassius Nunes.
Para ele, a redução no tamanho do evento tem seu lado positivo. “Com mil pilotos era uma quebradeira geral.” Com 400 inscritos e mudança no formato – o Independência quer se mostrar ecologicamente correto, com preocupação social e que, em vez de um problema para as prefeituras, aparece como espaço para divulgação da cultura e história do país –, Milton Furtado, novo promotor do evento, pretende trazer de volta o glamour que a poeira comeu ao longo dos anos. “Atualizamos o evento, mostramos opções de off-road e recreação enquanto a prova acontece. Iniciamos um novo momento.” Gustavo Jacob, presidente do Trail Clube, afirma que os sobe-e-desce faz parte da história de qualquer evento e isso é perfeitamente normal. Gil Canaã, produtor de 1992 a 2000, concorda e acredita em uma retomada. “Em 1998 o Independência teve seu auge. Foi o ano com maior número de patrocínio” diz. Foi aí que outra nuvem de fumaça afeta o brilho da prova. A CPI do mensalão cita o Independência como fonte de lavagem de dinheiro naquele ano. “Desde então, não conseguimos mais apoio governamental. Em 2001, com a saída da SMPB, o Independência quase não aconteceu. Não tínhamos mais patrocinadores. O evento continua porque quem o faz são os pilotos. A inscrição é cara. É quase um evento filantrópico” desabafa Helvécio Ribeiro, ex-presidente do Trail Clube. |
A gestão atual mantém os mesmos perrengues quando o assunto é dinheiro. “Aqui ninguém recebe”, afirma Jacob. “Mesmo assim, deixamos nossos negócios e família de lado para realizar o Independência e outros eventos que acontecem durante o ano. São oito homens apaixonados pelo esporte.” Outro fator que contribui para a não-popularização é o custo. Um Independência fica em torno de 3 a 5 mil reais para cada piloto. As surpresas da trilha levam a custos ainda maiores, com acidentes e peças quebradas. O que não assusta os apaixonados. Renato Furman fez o primeiro Independência ao lado do irmão, Sérgio, em 1998. Desde então não faltou um ano. Hoje, compete ao lado da mulher, Michelle, uma das 5 que participará desta edição. “Vale mais ganhar o Independência do que o Brasileiro ou o Mineiro. No Independência estão os melhores pilotos do país.” E os mais abnegados também.
NÚMERO 360 motociclistas inscritos este ano. Na primeira edição foram 400 |