A mente humana é um desafio para quem tenta adentrar seus la- birintos e descortinar seus segredos. Mistérios que, há décadas, têm seduzido e levado psiquiatras, psicólogos e psicanalistas a buscar respostas e tratamentos para as doenças de ordem psí- quica. Mas a relação terapêutica entre paciente e profissional nem sempre é amistosa. Ao contrário, dependendo da doença, alguns portadores de sofrimento mental podem ser acometidos por alucinações. Em razão da perda de juízo crítico, tornam-se agressivos, e um de seus alvos nesse momento de descompasso é justamente o médico ou terapeuta que conduz o tratamento. Nesta reportagem, cinco psiquiatras contam à revista Viver Brasil como é lidar com esses pacientes e revelam seus medos e re- ceios quando estão diante de uma situação de perigo iminente.
Vale ressaltar que o objetivo desta matéria não é rotular a pessoa portadora de transtorno mental como alguém perigoso e incapaz de conviver em sociedade. As situações aqui relatadas são isoladas e referem-se a um percentual pequeno do total de casos acompanhados pelos profissionais entrevistados. Mas, assim como policiais, bombeiros e promotores de Justiça lidam com situações de risco no dia a dia, muitas vezes os psiquiatras também passam por momentos de sufoco, tornando-se vítimas de ameaças ou agressões por parte de alguns pacientes.
Entretanto, os riscos a que estes profissionais estão ex- postos vão além dos resultantes de ameaças concretas dos pacientes. Na opinião de Javert Rodrigues, psiquiatra, psica- nalista e diretor da International Federation of Psychanalytical Societies, o maior problema é lidar com as consequências do contato diário com o sofrimento psíquico humano. “Na minha experiência de 40 anos de prática psiquiátrica e psicanalítica e de atuação como professor em residências de psiquiatria pos- so afirmar que os riscos provenientes da relação intersubjetiva são muito mais preocupantes.”
Mas como o profissional deve agir diante dessas situ- ações? Javert Rodrigues é enfático. “É fundamental que o psiquiatra adquira um conhecimento sólido, por meio de uma preparação prática e científica”, instrui. Ele reforça, porém, que a principal preparação deve ser de ordem psíquica, por meio de um tratamento psicanalítico. “Isso vai possibilitar ao psi- quiatra manter uma posição ética que o torne capaz de ouvir o paciente com menor chance de se envolver neuroticamente na problemática que o confronta”, explica.
O especialista alerta ainda que “os índices de depressão e mesmo de suicídios são mais elevados no meio psiquiátrico do que no restante do meio médico”. Javert diz que nunca foi vítima de agressão real por parte de um paciente, mas frisa que já teve conhecimento de colegas que passaram por esta experiência. E medo? “Já o senti em raras circunstâncias. Há situações de risco envolvendo pacientes em graves estados de depressão e que manifestam desejo de autoextermínio que provocam o medo. Este serve de sinal para agilizarmos e to- marmos atitudes e posições para enfrentarmos o problema.”
Na avaliação do psiquiatra e psicanalista Stélio Lage, diplo- mado em estudos avançados em filosofia pela Universidade Complutense de Madrid, os riscos implicados no trabalho clí- nico da psiquiatria são muito mais amplos do que os circuns- critos no fato de o profissional encontrar-se continuamente exposto a possíveis manifestações concretas de ameaças e agressões. “Todas as consultas psiquiátricas constituem-se de encontros nos quais ocorre alguma modalidade de diálogo. Trata-se, portanto, de uma clínica onde o manejo do sofrimento vê-se ordenado pelo intercâmbio de palavras. Sabemos que, na história da nossa civilização, o homem acabou substituindo a utilização de primitivas lanças pelas palavras. Neste sentido, se por um lado a palavra pode ser utilizada como chave como saída do sofrimento, por outro lado ele pode também reconduzir o homem à violência, à morte e à perdição. Portanto, seja no caro recato do silêncio, ou no gratui- to descomedimento de conselhos excessivos, o psiquiatra sempre corre um enorme risco: aquele potencialmente presente no manejo da palavra”, filosofa Stélio Lage.
Não há dúvida de que este é um tema difícil de ser abordado e que, dependendo da revelação feita pelo psiquiatra, ele pode acabar se tornando alvo de novos riscos para o desempenho de sua profissão. Em razão disso, alguns profissionais entrevis- tados preferiram usar nomes fictícios para relatar suas histórias. É o caso de Marco Aurélio (*). Ele conta que na primeira semana de residência médica em um hospital psiquiátrico, ao entrar na enfermaria, recebeu um soco no rosto desferido por uma paciente em crise e que resultou na quebra de seus óculos. Marco Aurélio disse que, desde então, ficou mais atento. “Somos instruídos por nossos preceptores a atender urgências sentados de lado, com a cadeira de costas para a porta, caso seja necessária uma fuga estratégica. Isso já me salvou de algumas cadeiradas de pacientes agressivos”, assevera. O médico, porém, já passou por situações piores, tendo sido, inclusive, ameaçado de morte por um paciente e seus familiares, que queriam que ele fraudasse um laudo para obtenção de benefício previdenciário. “Foi uma situação delicada que me causou medo”, desabafa. O psiquiatra Paulo Henrique (*) teve mais sorte que o colega de profissão. Nunca foi ameaçado, entretanto, também já foi vítima de agressão por parte de paciente que queria ser internado a todo custo, mesmo sem haver indicação para tal. “Estava de plantão no hospital. O paciente se mostrou tranquilo durante toda a consulta e disse que queria ser internado para não conviver com a mãe. Diante da negativa, ele se levantou da cadeira e, subitamente, me deu uma gravata no pescoço, com toda a força. Fui solto com ajuda dos seguranças do hospital”, relata. Mesmo assim, o médico enfatiza que pacientes que agridem médicos são casos raríssimos. “Trabalho em serviço de urgência há oito anos, e isso só aconteceu uma vez.” Pessoas que sofrem de transtornos ligados ao grupo das psicoses, podem, eventualmente, cismar que estão sendo perseguidas. O algoz, nesse caso, pode ser qualquer um, até mesmo o psiquiatra. Foi o que aconteceu com o médico Antônio Augusto (*). “Certa vez, tive um paciente que começou a achar que eu o perseguia e, por isso, ele falava que queria me matar. Era uma crença fixa que nem mesmo o uso de medicamento foi capaz de resolver. Preferi passar o caso para outro colega. Quando o psiquiatra percebe que o paciente tem essa tendência, é necessário manter um vínculo terapêutico mais frouxo.” Antônio Augusto também já sofreu na pele as agruras decorrentes da profissão. Ele conta que trabalhava em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) – rede de serviços substitutivos criada pelo governo federal para, progressivamente, substituir os hospitais psiquiátricos – quando, de repente, recebeu um soco de um paciente. “Na ocasião, não me machuquei muito, pois caí dentro de um armário. A pessoa em questão sofria de esquizofrenia e também fazia uso de drogas, que potencializam os efeitos da doença mental.” Mas como fica a questão do sigilo médico quando o paciente oferece risco real de agressão ou ameaça à vida do médico ou de algum familiar ou amigo? Quem responde é o psiquiatra Javert Rodrigues. “Numa situação desta gravidade, não existe como manter de pé a relação médico-paciente, que é a condição básica, necessária e fundamental para que um tratamento possa desenrolar-se. O Código de Ética Médica diz ser direito do médico poder romper e não continuar o tratamento.” |