E hoje, toda vez que ele sorri, ela sente que valeu a pena. Não acha, não pensa, apenas sente. Coisa simples, breve, porém sincera. Suficiente, mas só para os que já descobriram que 30 segundos de paz inabalável são mais raros e valiosos do que a adrenalina efêmera das novidades e seus riscos. Chega de grandes dramas. Desequilíbrio e insanidade só terminam bem em tela de cinema. Filme é filme, vida é vida. Melhor ser protagonista de uma rotina pacata, com momentos excitantes, do que sentir-se a eterna vilã de dramalhões repetidos. Há algum tempo, decidira viver de acordo com sua intuição e valores – os do bem, não os da rua – por mais dolorosas e solitárias que fossem as consequências. Na dúvida sobre o que fazer ou quem ouvir, melhor seguir os bons instintos. As fórmulas e cobranças externas, até então, pouco haviam acrescentado. Era um mais do mesmo que nunca a levara a lugar algum. Ponto final na adolescência. Não precisava mais ser aceita, estar inserida em guetos sociais prepotentes e exclusivistas. Adeus vaidades infantis. Chega de escutar a filosofia de porta de colégio desses autointitulados adultos.
Como primeira providência terminou o namoro, que lhe causava mais desgastes do que alegria. Namoro não é contrato de amparo psicológico. Ninguém nasceu para ser muleta emocional de egoístas desequilibrados. A cama de carentes e inseguros mal resolvidos é o divã. Estava cansada de ser mãe antes da hora. Primeiro, queria ser mulher, companheira. Em seguida, largou o emprego. Se não estava feliz, realizada e tinha condições familiares de fazer esta opção, qual o problema? Decidido. Aos trinta e poucos estava solteira e sem grana. Nada de baladas caras todo final de semana ou roupas de grife para curar o inferno astral – termo que usaria pela última vez.
Sentiu pela primeira vez orgulho da sua mudança interior ao transformar a primeira decepção em alegria: descobriu quem eram as verdadeiras amigas, que apoiaram sua nova postura, em vez de julgar e torcer o nariz. As outras, que agora contavam vantagem com o dinheiro do marido (antigamente a grana era dos pais), ela enfiou numa bolsa velha e guardou numa gaveta esquecida. Aproximou-se daquelas que, como ela, agora caminhavam com as próprias pernas, e só com as pernas. Adeus restaurante da moda. Bye bye circuito cigarro-fofoca (“tá, sem exageros, de vez em quando é legal”). Nunca mais 1998. Afastou-se do minimundo onde se escondia desde o primeiro sutiã. Tudo sem preconceitos ou radicalismos. Se quisesse ir, ia. Se quisesse ver, via. Não tinha a menor intenção de ser uma neo-hippie de apartamento. Porém, firmou o toco. Em cada decisão, ouvia primeiro a própria razão e o coração. Simples assim. Dúvidas e tentações não faltaram. Difícil abrir mão de tudo a que estava acostumada e que, de certa forma, sempre lhe trouxera sensação de proteção, por mais superficial que fossem os antigos desejos e prazeres. Mas não dava mais. Queria consistência, realidade. Essencialmente, o que tinha conseguido era pouco. Por anos, tudo que fez foi seguir o fluxo.
Demorou, mas conseguiu o emprego que queria. Nem tanta grana, mas muita motivação. Era só batalhar e persistir. Estava dando certo. Tudo fluía. Porém, faltava a cereja do bolo: o amor, a companhia. Desde que decidiu ser seletiva, sentia o peso da solidão. “Não existe felicidade completa se o coração não está ocupado”, repetia para si mesma e para quem quisesse ouvir. Queria alguém, sentia falta, mas não cedia aos apelos da carência que gritava por escolhas erradas. Não deixou de fazer suas tentativas, agora bem mais criteriosas. Foi tentada pela pegadinha do dinheiro-estabilidade-boa-pessoa-não-o-amo-mas-quem-sabe-um-dia-eu-venho-a-gostar-dele. Não levou adiante. Era muito digna para fingir amor. Nos piores momentos, olhava cada nome da agenda do celular duas vezes. A primeira, para lembrar o número. A segunda, para esquecer. Não mais inventava desculpas para justificar a repetição dos erros e arrependimentos. Um teste. A solidão era só um teste de fé nas próprias convicções, nas novas escolhas, no novo jeito de pensar a vida. Era só um teste. Era isso que passava pela sua cabeça quando tocou o telefone. Era sábado. Continua na edição 43.
Bruno Fernandes,jornalista
http://twitter.com/Brunodo12