Não é coisa de artista ou moda passageira: as mulheres estão mesmo se relacionando com homens mais jovens. Não só por meio de paixões fugazes, namoricos passageiros; elas estão se casando com seus parceiros 10, 20 anos mais jovens. É o que comprova a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): este tipo de união cresceu, nos últimos 14 anos, 31%, enquanto a tradicional, 25,3%.
Os menos avisados podem achar tratar-se de mudanças de padrão social. Não é isso, uma vez que os casamentos em que os homens são mais velhos, mais altos e melhor remunerados, como manda o figurino, predominam. Muito menos se trata de comportamento inovador. Estudo realizado pela matemática e estatística Elza Berquó indica, com dados do Censo Demográfico de 1980, que 9% dos casais casados daquele período já eram formados por mulheres mais velhas que seus cônjuges. A exemplo da empresária Maria Auxiliadora Brockerhoff, 69, casada com o alemão Rainer Brockerhoff, 59. Estão juntos há 31 anos e parecem ter antecipado a realidade constatada pela pesquisa do IBGE e de Elza.“A idade não deveria nem ser mencionada em um relacionamento. Isto é de mínima importância”, avalia Maria Auxiliadora.
A opinião de Maria Auxiliadora parece comprovar as constatações da antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mirian Goldenberg. “As mulheres mais independentes fazem mais escolhas. Podem ampliar e questionar a lógica que as obrigava escolher determinados tipos de homens. Encaram com mais coragem os preconceitos que ainda existem.” Uma das razões é, sem dúvida, a independência financeira. De acordo com o sócio-diretor da Fundação Getúlio Vargas Business School, Mário Lopes, o mercado virou e observa-se mais mulheres em cargos de gerência. “A necessidade delas é de investimento na própria cultura e de independência e não mais de um marido.” Nada mais que a busca por se encontrar no próprio desejo. O que levou a relações públicas Mônica Reale, 43, a começar, há 9 anos, uma brincadeirinha com o advogado Francesco Serra, 29. No dia 18 de agosto de 2001 deram o primeiro beijo numa boate. Ela com 34 e ele 21. Mônica fazia pós-graduação e Francesco estava no 1º período da faculdade. Ele era magrelo, tinha espinhas e não tinha cabelo no peito. Se iam viajar, as contas eram por conta dela. A não ser que o garoto tivesse 50 reais. “Eu vivi aquele momento sem me preocupar. Pensava apenas numa distração”, conta Mônica que estava recém-separada. Hoje estão casados, têm uma filha de quase 2 anos e Francesco Serra é o provedor da casa. “Ele virou homem rapidamente. É o amor da minha vida.” Se Mônica ouviu o próprio desejo, igualmente pode-se dizer de Francesco Serra. “Sempre me senti à vontade com mulheres mais velhas; são mais verdadeiras, seguras e convictas. Ser o provedor, hoje, não tem a mínima importância; um dia ela foi. A sociedade vem superando tantas diferenças, o mundo é mais democrático e nos leva a avançar também no campo pessoal”, opina o advogado, que não se preocupa com o fato de a esposa envelhecer primeiro. “Eu também vou, e acho minha mulher muito bonita. O que importa no momento é nossa família maravilhosa.” Entre os casais em que elas são mais velhas há a tentação por parte de terceiros de tentar explicar por que funcionam: sexo nota 10, eles serão mais carinhosos que os mais velhos, se sentirão encantados com a experiência delas e elas desfrutarão de vida social mais divertida. Tudo bobagem. O que garante o equilíbrio de namoros e casamentos é a reciprocidade. “São mulheres atraentes para homens de diferentes gerações”, avalia Mirian. |
A assistente social Regina Vaz, autora do livro Vamos Discutir a Relação?, também não acredita em mudança de padrões e sim em comportamentos diferenciados e muita conversa. “Um relacionamento vive de retroalimentação, não pode ser descartável, em qualquer idade. A base é o diálogo. Gostar de conversar, ter o nível cultural semelhante, estar numa mesma sintonia. Pensar no outro, querer estar com ele, sem ser par de jarras.” O supervisor de telemarketing Valdiney Barbosa Santos tem 20 anos e namora há 7 meses a colega de trabalho Erlaine Márcia de Aguiar, 30. Ela nunca tinha se relacionado pra valer com alguém tão mais jovem. Aliás, a preferência era por parceiros com idades próximas. Namorar Santos, no início trouxe receios. “Comparava-me com as mais novas; corpo, beleza. O preconceito era da minha família: achavam que ele devia estar com uma jovem e sem filho – Erlaine tem uma filha de 10 anos. Mas dei tempo ao tempo e percebi que ele era maduro. No momento, a diferença de idade até ajuda, pois não tenho medo de mostrar minhas fragilidades. E Valdiney não gosta de baladas, gostamos de programas tranquilos.” “O que importa é a química. Acho a Erlaine muito bonita. É mais alta que eu. Mulher tem que ter presença”, diz Santos. Nunca, em nenhuma fase da história, houve a predominância de uniões em que as mulheres fossem mais velhas que os homens, afirma o professor do Instituto de Psicologia da USP Ailton Amélio. Mas também de acordo com ele as estatísticas mostram que os modelos rígidos estão enfraquecidos. Os papéis estão em modificações. “A idade é só um dos mais de 100 fatores que influenciam na formação da parceria conjugal. O resto é especulação.” |