Logo Revista Viver Brasil - Assim é viver
Sexta, 10 de Fevereiro de 2012

Esp. Saúde e Estética IV

Terapia pela arte

A tela, as cores, o prazer em criar e, quem sabe, expor ao público. Em total inspiração e concentração, as mazelas da vida são deixadas de lado

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Pedro Vilela
Opiniões ou sugestões sobre a matéria?
Mande e-mail para: web@revistaviverbrasil.com.br

Angústia, depressão, nervosismo. Que falta de vontade de levantar da cama, de tomar banho e pentear o cabelo! Faltam forças até mesmo para acudir a filha que sofreu um acidente brincando. Quanto sofrimento, meu Deus! Clara Lima, diretora de escola, aos 39 anos, chegou ao fundo do poço. Havia sofrido 2 abortos, que acredita terem sido consequência da depressão. Não via sentido na vida e o casamento estava por um fio. “Sei que desde criança sentia melancolia, ficava desanimada e chorava. Aos 14 anos fiz um vestido novo para o baile, mas quando cheguei à frente do espelho, detestei o que vi. Chorei muito e não quis ir.”

Clara está com 65 e toma antidepressivos. Fala que precisará tomar para sempre; no entanto, vê o mundo de modo diferente, mais claro pelo brilho do sol. Mas o que faz também grande diferença em sua vida são as aulas de pintura. “É o que mais gosto na vida. Esqueço que tenho depressão e o dia voa! Não penso em nada e quero fazer sempre mais”, diz Clara. Ela fala que sente a autoestima fortalecida e até participou de exposição coletiva em Bra­sília. “Uma honra para mim”, afirma. “Não tenho mais vontade de morrer igual eu tinha.”

O professor de Clara, o psicanalista e crítico de arte Glauco Mo­raes – também artista plástico – explica que aulas de arte não curam as pessoas, mas são caminhos de cura. “No ato de pintar, desenhar, esculpir, as pessoas têm prazer garantido e desenvolvem o hemisfério direito do cérebro, do subjetivo, do emocional. É o contato com o lado criativo de cada um, o que ajuda a trazer alívio para depressões e até esquizofrenia.” Ele avalia que a arte, como terapêutica, torna-se uma cor­da para estas pessoas se segurarem e também uma espécie de aprendizado para se sofrer menos.

Clara Lima: “Não tenho mais vontade de morrer”



O caminho é feito em etapas que incluem esforços: para cada um encontrar o que tem de singular – e todo mundo tem pincelada e traços próprios, por exemplo – e o que faz de melhor. Aprender e se aperfeiçoar nas técnicas, aprofundar estudos e pesquisas até chegar a uma exposição. “Neste ponto, vem o conforto psíquico quando este pintor ou escultor vê que um estranho admira seu trabalho e por vezes compra pa­ra colocar em casa”, avalia Moraes. Dar conta, ser capaz de fazer e sa­ber-se talentoso para algo. Não necessariamente tornar-se artista, mas desenvolver nova habilidade. É a comprovação de que não se é incapaz para a vida.

Há 14 anos Elaine Tarssini aposentou-se. Também começou a sofrer de pânico. Sensação de morte iminente, achava que ia ter enfarto, corria para o hospital e o médico diagnosticava piripaque. Com viagem marcada em 1995 para os Estados Unidos com filhos e sobrinhos, passou mal de última hora e teve que submeter-se à cirurgia. Teve infecção hospitalar e não foi. “Acho que tudo foi causado pelo pânico”, avalia Elaine. Há 10 anos começou aulas na Maison de Arte e progressivamente foi se recuperando. Já fez mais de 50 exposições, vendeu quadros e hoje é artista plástica. “A arte me ajudou inclusive na elaboração do luto de meu marido, há 5 anos. É um momento em que não penso em nada a não ser nas cores que vou usar. Me acalmo e nem me sinto tão sozinha.”

Na opinião da psicóloga Conceição Marinho, a arte é o mecanismo de defesa mais inteligente do nosso inconsciente: uma das maneiras do ser humano liberar sua angústia e procurar ponto de equilíbrio. “Todos temos necessidade de buscar a felicidade. E de acordo com o filósofo Aristóteles, a felicidade é ter algo que fazer, ter algo que amar e ter algo que esperar. E a arte é um algo a fazer, a tentar. É ter no que pensar. Todos temos capacidade de criação.”