Marcos Coimbra é considerado um dos papas da análise política e das pesquisas eleitorais não apenas no Brasil, mas em vários países da América Latina e da África. Desde 1987 dirige a Vox Populi e, por sua experiência, se arrisca a dizer que a eleição presidencial deste ano está praticamente decidida, e no primeiro turno. Já a sucessão mineira ainda está aberta. Coimbra acha que muita coisa precisa ser mudada na política brasileira, mas considera que desde 1989 a qualidade do eleitor melhorou muito. Nesta entrevista ele revela um pouco do que pensa sobre nossa política e sobre o pouco interesse do jovem para o assunto.
-Qual é o quadro das eleições nacional e da sucessão em Minas?
Estamos entrando numa fase em que finalmente, a partir do dia 16 de agosto, a campanha chega à televisão e, através das inserções dos comerciais, de manhã, de tarde e de noite, atinge todo mundo que está diante do aparelho. Como quase 100% do eleitorado vê televisão, mesmo as pessoas com baixíssimo interesse em eleições, verão quem é a candidata do Lula, quem é o José Serra. As pesquisas até aqui foram feitas antes da campanha de televisão se iniciar, mas mesmo assim se percebe que temos uma candidatura com amplo favoritismo, que é a da Dilma, que é a continuidade do Lula. Como o povo gosta dele e está satisfeito com o governo dele, sua candidata acaba beneficiada. Ela deve vencer no primeiro turno. No plano estadual, em Minas, temos uma eleição muito menos definida. As pessoas ainda estão muito menos motivadas. O nível de conhecimento do candidato Antonio Anastasia, que certamente ainda tem muito a crescer, é baixíssimo. O Hélio Costa é um político que tem uma imagem muito pouco estruturada para a maioria das pessoas. Elas sabem que ele existe, pois já disputou três eleições majoritárias, têm uma vaga noção de sua biografia, mas muita gente sabe que ele foi ministro.
Se considerarmos os dois turnos das eleições para governador, foram cinco as eleições majoritárias que Hélio Costa disputou. O nível de conhecimento dele seria então recall?
Mas é um recall sem muito conteúdo. O José Serra, por exemplo, já disputou um primeiro e segundo turno de uma eleição presidencial, tem recall, mas tem conteúdo também. As pessoas sabem quem ele é, o que pensa. Diferente do Hélio Costa que, mesmo em Minas Gerais, é muito pouco conhecido. É um nome conhecido, mas com conteúdo pouco formulado. Isto estabelece um cenário de uma eleição muito menos previsível. Um tem muito por onde crescer, apoiado na boa imagem de Aécio. O outro tem por onde crescer por ser um político conhecido, que disputa eleições há mais de vinte anos e que ninguém tem nada a falar mal dele. Além disto, tem o apoio do presidente Lula, o que faz com que se possa prever uma eleição muito competitiva.
Se a decisão da sucessão presidencial acontecer no primeiro turno, qual será a influência sobre as disputas estaduais que forem para o segundo turno?
Não tem influência grande não. Nós já tivemos experiência com Fernando Henrique em 1994 e 1998 e isto não fez com que ele se dedicasse mais ou menos nos estados onde a disputa foi para o segundo turno. Em Minas, por exemplo, a eleição foi para o segundo turno entre Eduardo Azeredo e Hélio Costa e ele não veio para cá fazer campanha. E se viesse, acredito que não teria muita influência. Existe um pensamento em parte do eleitorado de que é bom que o governador seja próximo do presidente. Mas este certamente não é critério para que alguém deixe de votar num candidato em que votou no primeiro turno. Tem gente que diz que o eleitor tem uma sabedoria que é de não colocar todos os ovos numa mesma cesta.
Entre Lula e Aécio quem influencia mais na sucessão estadual?
Existe um certo consenso na literatura de que a transferência se dá mais horizontalmente do que verticalmente. O presidente influencia mais na eleição presidencial, menos na eleição de governador e menos ainda na eleição de prefeito. Então pode-se dizer que o governador tem uma influência maior na eleição de governador, o presidente na de presidente e o prefeito na de prefeito.
E a eleição para senador?
As eleições para o Senado costumam se resolver com qualquer combinação de três fatores. Uma, muita notoriedade, como o caso do Hélio Costa que, quando disputou o Senado, vinha de outras eleições majoritárias em que se tornou conhecido. O segundo é a mão no ombro quando alguém muito respeitado, muito querido, põe a mão no ombro do candidato e sai fazendo campanha com ele. Um exemplo é o senador Eliseu Resende que foi eleito com o integral apoio de Aécio Neves. O terceiro caminho é muito dinheiro e muita sola de sapato. Dinheiro para poder se financiar durante um ano, para ter material para distribuir e se tornar conhecido. José Alencar é um exemplo do que estamos falando aqui. Já tinha disputado uma eleição para governador. Fez campanha para o Senado ao lado do Itamar Franco e não poupou investimento. Só o quanto de camiseta de José Alencar que tinha pelo estado afora...
Nove governadores deixaram seus cargos para disputarem o Senado. Lá é uma casa de ex-governadores?
O voto para o Senado quase sempre é, para o eleitor, uma espécie de chave de ouro de uma carreira política. É um lugar onde a presença de ex-governadores é muito comum, assim como de ex-presidentes, de pessoas que se distinguiram em seus estados. Isto tem muito a ver com o fato de a eleição para o Senado ser muito difícil. É tão complicada como a eleição de um governador e o resultado é uma cadeira em Brasília, não é chefiar o Executivo. Penso que a safra de senadores que se elegerá este ano é melhor que a safra passada em qualidade média, representatividade e liderança.
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