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Quinta, 24 de Maio de 2012

Turismo

Que tal se hospedar numa mina desativada?

Ou numa manilha, num abrigo nuclear, ou até mesmo num presídio? Conheça alguns destes hotéis pra lá de diferentes

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Divulgação
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Sala Silvermine



  • É uma suíte a 155 m abaixo da superífice da terra, como se fosse a cobertura de prédio de 51 andares, de cabeça para baixo, numa mina de prata desativada
  • A estadia custa 410 reais (180 euros) por pessoa



Passar temporada na prisão. Dormir atrás das grades, onde ocorreram enforcamentos, com paredes tortas por ter sobrevivido a terremoto, em 1931, de 7.8 pontos na escala Richter, maior do que o que ocorreu no Haiti. Percorrer corredores sombrios, dizem que assombrados, vivenciar noites de terror. Não que tenha cometido crimes, seja forçado a dias de agruras, mas para experimentar vida diferente desse correr de anos repetitivos de trabalho-diversão-estudos-vitórias-derrotas, livre nas ruas da cidade, no campo, no contato globalizado com todo mundo. Há que se inventar: transmutar a diversão em experiências jamais vividas, nem pensadas, pela maioria dos habitantes da Terra, só lida, vista em filmes, tão distante da realidade que se achega, torna-se mais comum. Porque não basta viajar, há que ficar na prisão, num abrigo nuclear, abaixo da terra, em cápsulas, manilhas ou o que mais inventarem.

Há multiplicação de ideias nesta época de viver na prática, na realidade, emoções antes restritas à ficção e sem espectadores aos milhões. A analista de sistema Paula Gusmão atravessou continentes para ficar na prisão de Napier, a mal assombrada, na Nova Zelândia, erguida em 1863, sem presos desde 1993 e hoje com livre acesso às celas a quem quiser pagar para ter as chaves dos cadeados originais. “É um dos lugares mais interessantes que visitei. As histórias são muitas sobre a vida dos presos, as tentativas de fuga”, diz. Lá houve o único enforcamento feminino ocorrido no país e muitos masculinos, quando a sentença de morte era permitida.

Existem alas intocadas, como a dos enforcamentos, as solitárias, o cemitério, e as que onde se pode permanecer, dormir, com registros visíveis nas paredes dos que passaram por lá em tempos mais duros. “É possível ler nomes dos antigos prisioneiros”, conta Paula. Perceber corredores tortos pelo tremor que varreu a região, e deixou quase intacto o prédio da prisão, de estrutura de madeira flexível, no topo do principal morro da região de Hawke’s Bay. “Muitos presos ajudaram no resgate e reconstrução da cidade à época.” Impregnada de história por todos os cantos do presídio, adquirido pela família Waaka, aberto a quem quiser ter pouco da rotina dos condenados pela Justiça a ficar atrás da grade. Mas com a possibilidade de ver à frente delas o sol, a praia e a cachoeira do Jardim Centenário de Napier do alto da colina. De se surpreender dentro do presídio, no escuro inverno, com noites de terror, num faz de conta por atores contratados, vestidos para isto, nos corredores que, por si só, amedrontam. “É cenário perfeito pa­ra uma sequência de sustos”, diz a analista de sistema paulista. Ultra­passa a fantasia e cai na realidade com áudio que expõe relatos e estranhas aparições vistas lá.



Chega-se ao auge da apreensão, milimetrada, planejada, apropriada do que se foi, refeita em obra de arte que se toca, analisa, inspira. Até em manilhas de cimento, daquelas próprias para grandes obras de galerias, mas de escoamento de água e esgoto, aqui transformadas em quartos, espaçadas num parque: o Das­par­ktotel, em Ottens­heim, na Áustria. “É uma mistura de profundidade e tecnologia de pon­ta”, explica Andrea Strauss, forma­da em artes, que teve a ideia de converter tubos em hotel, sem TV, frigobar, recepção, chave, contato com outros hóspedes. Lá, a reserva é feita pela inter­net, o cliente recebe o código para abrir a porta dos canos por e-mail e paga-se o que achar justo. “Nem sabemos quem são nossos hóspedes, a não ser os que deixam mensagens e senhoras britânicas que leram sobre nós no The New York Times”, diz Andrea. Deu lá, espalhou-se a notícia entre continentes desse novo jeito de hospedagem, sem tarifas fixas, em locais antes impensados para quem ia viajar, nem cogitados em épocas de paz.

No Null Stern Hotel, em Teufen, na Suíça, o hóspede entra pelo túnel, antes saída de emergência, de abrigo nuclear, sem paredes. Todo mundo fica junto neste hotel, de seis camas de solteiro e quatro de casal, ou numa área com beliches militares. A proposta era dar função a um ambiente abandonado, inóspito. “Trans­formamos em algo sustentável”, afirma Daniel Charbonnier, da área de hotelaria que se uniu aos artistas plásticos Frank e Patrik Riklin para dar vida tranquila, maquiada ao abrigo nuclear. Deu certo: desde a inauguração em junho do ano passado, pessoas de 15 países já passaram por lá, com 30% de ocupação.

Gente que quer estadia diferente em tubo, junto, em cápsulas de um metro de altura, um de largura e três de profundidade, empilhadas no Cap­su­le Hotel, de Tóquio, no Japão. O banheiro e a sala são socializados, o quarto de plástico é só do hóspede, com TV, rádio, despertador e iluminação ajustável. Ou separado, bem distante, só dois em única suíte no meio da terra, a 155 metros de profundidade, como se estivesse na cobertura de prédio de 52 andares de cabeça para baixo, numa mina de prata desativada no condado de Västman­land, Suécia. “Nos­sos cli­en­tes são aventureiros, casais que procuram algo diferente”, diz Sofie Andersson, da Sala Silvermine.

Encontram lá embaixo, por 410 reais a diária (180 euros), isolados de tudo, nesta mina aberta por mineradores com as próprias mãos no século passado. Isto quando o restaurante, ao lado não está aberto. Há exposições, concertos, casamen­­tos. Muito pode ser experimen­tado lá, aqui sob a superfície deste dilatado mundo, com pessoas criativas e outras que buscam sair do roteiro usual de vida previsível. Querem mais, extrapolar limites, pro­fundidades: serem bem diferentes na foto de viagem.

Prisão de Napier



  • Os quartos são nas celas do presídio, desativado em 1993. Há trancas e cadeados originais, mas tem banho quente, aquecedores e carpetes em alguns dormitórios
  • A diária é de 38,2 reais (30 dólares neozelandês) por pessoa em quartos múltiplos e 63,5 (50)
    em privados

Null Stern Hotel



  • As acomodações, sem paredes, são num antigo abrigo nuclear. O hóspede chega ao hotel por um túnel, antiga saída de emergência, e o café da manhã é servido à cabeceira da cama no horário escolhido
  • A diária é de 47,8 reais (30 francos suíços) por pessoa em cama de luxo, 39,8 reais (25) em antigas e 15,9 reais (10) em beliches militares

Dasparkhotel



  • O quarto fica dentro de manilhas de concreto posicionadas dentro de um parque. Nada de TV, frigobar, banheiro, chave. A reserva é feita pela internet. O hóspede recebe e-mail com o código para abrir e fechar a porta
  • Os clientes pagam o que acham que vale a noite no cano