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Quinta, 24 de Maio de 2012

Reportagem

Conectados

Sites de relacionamentos para pessoas acima do peso, para os que gostam de cachorros, para os que possuem conta bancária recheada e até mesmo para aqueles com DNA compatível: nestes casos, não são os polos opostos que se atrem

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Gustavo Scatena/ Marco Pinto/ Divulgação/ Arte: Paulo Werner
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O contrasenso moderno não está no fato de que, sim, as máquinas dominaram o mundo. Afinal, essa era, há alguns anos, a expectativa na previsão do futuro próximo. Talvez o maior disparate seja saber que esse domínio é voluntário. Mais de um bilhão de pessoas no mundo, e um pouco mais de 40 milhões no Brasil, estão conectadas à internet, e não desagarram-se de suas máquinas nem mesmo para os relacionamentos. O namoro virtual abre-se como uma possibilidade real para resgatar uma busca antiga de qualquer ser humano – de se completar pelo outro. Até aí nada de novidade, mas tal como uma grande feira de variedades, a internet resolveu diversificar – se alguém procura uma pessoa bonita, há rede social especifica; se é milionário e procura outro milionário, o local exige para o sócio um patrimônio de 3 milhões de dólares e um salário anual de 300 mil dólares; se o caso for amor pelos cães, a ideia é unir pessoas que tenham essa preferência.

E assim prossegue-se para quem quer compatibilidade genética; para aqueles que são e gostam de obesos. É o caso de Milena Zaharansky Nava, 22, formada em artes cênicas e paulistana, ela criou comunidades no Orkut que reuniam pessoas com sobrepeso. Recebeu um convite para visitar o site Namoro em Peso (www.namoroempeso.com.br) e conheceu o namorado Luís Carlos. Já são três meses de relacionamento e a constatação de que, eles têm muito em comum. No princípio, a primeira reação de Milena foi de desconfiança. Luís Carlos era magro. “Aí pedi para ele enviar fotos, visitei o orkut dele, conversamos muito pelo MSN e um dia nos conhecemos pessoalmente”, resume a moça.

Nas conversas virtuais e nessa in­vestigação por redes sociais, Mi­le­na descobriu que o futuro namorado era um ex-obeso que sofreu preconceito na adolescência, não conseguia arrumar namorada. “O preconceito contra o gordinho é muito grande e o que acontece no site é que encontramos pessoas sinceras. A mulher gordinha sente-se em casa, mais à vontade.  Podemos ser nós mesmas”, afirma.

Normalmente, quem cria um site de relacionamento pensa em todas essas possibilidades – o preconceito, a dificuldade, o desejo de encontrar alguém com afinidades para se relacionar. O presidente do Match Latam, Cláudio Gandelman, empresa que reúne os sites de relacionamento para evangélicos, Divino Amor (www.divinoamor.com.br), e para o público gay, G Encontros (www.gencontros.com.br), afirma que a ideia nasceu da análise de outro site gerenciado pela empresa, o Par Perfeito. “Vimos que havia essa grande diversidade de público e que essas pessoas tinham a necessidade de se relacionar com pessoas que tivessem a ver com elas”, diz Gandelman. Com um número global mensal de mais de 2 milhões de usuários ativos nos sites de relacionamento da Match Latam, Gandelman explica que a estratégia num primeiro momento é consolidar os investimentos no Divino Amor e no G Encontros. Não descarta a possibilidade de, no futuro, criar mais sites segmentados. “A aceitação está sendo muito boa”, afirma.

MatchandPets: afinidades com animais é ponto de partida para unir pessoas



Gandelman e outros executivos do ramo aproveitam a onda positiva da grande aceitação do namoro na internet – pesquisa feita com quase 11 mil internautas de 19 países pelo Serviço Mundial da BBC detectou que 30% dessas pessoas acreditam que a web é um bom meio para encontrar um parceiro. De olho nas possibilidades e ampliação desse tipo de negócio, o estatístico Edgard Luís Cano Basílio, 37, e sua sócia, Lílian Cristina Dable, 35, criaram o Namoro em Peso. Os dois são magros. “A Lílian teve a ideia de criar um site, mas não sabíamos qual público escolher, mas sabíamos que tinha que ser para um público específico. Pensamos na terceira idade, em gordinhos, homossexuais e a partir daí começamos a pesquisar”, con­ta. A opção pelas pessoas com sobrepeso trouxe um desafio – os números eram só estatísticos, não analisavam os relacionamentos, como as pessoas se mostravam, o que elas queriam. “Recorremos aos amigos”, conta Basílio. Há quase três meses no ar, o Namoro em Peso já conta com 6,2 mil pessoas cadastradas e quase dois mil acessos diários.

Há ainda sites polêmicos como o Beautifulpeople (www.beautifulpeople.com) que, como o próprio nome indica, só aceita pessoas que os membros consideram belas. O presidente do site, Greg Hodge, reconhece que a beleza é subjetiva e, poeticamente, fala que ela está nos olhos de quem a vê. Por outro lado, os olhos dos associados do Beautifulpeople podem ser cruéis e, como se verá no percentual de aceitação dos bonitos do site, até um tanto convencionais. Os povos nórdicos da Suécia e Noruega tiveram aceitação no site que variava de 76% a 65%. Apenas 9% dos pedidos da Polônia e da Rússia foram aceitos. Os pretensos candidatos ao site da Alemanha, 13%, e do Reino Unido, 12%, também passaram apertos. O Brasil ficou na margem de 45% de aceitação.

Para os que conseguem entrar, além de achar o modelo de beleza idealizado pelos membros, também levam algumas vantagens. Hodge afirma que os associados têm acesso a eventos e festas badaladas, além de agências de modelos, caçadores de talentos e empresas de produção que utilizam o site à procura de rostos bonitos. “Em resumo, nossos membros integram uma comunidade interativa, em que as diferentes necessidades e desejos podem ser realizados.”

Edgard Luís e Lílian: criadores do site Namoro em Peso



O que para alguns é um nicho do mercado, para o psicólogo Antônio Carlos Alves de Araújo, torna-se um ambiente que demonstra a fragilidade da internet e o preconceito de alguns de seus membros. “A sociedade não está evoluindo na esfera do politicamente correto. Ela mostra esse preconceito latente e também a banalização da questão afetiva, de pouco respeito pelo outro, em que os relacionamentos são rápidos e têm prazo de validade bem curto”, diz. Araújo é um estudioso de comportamento humano e internet. Diz que já teve quatro pacientes que encontraram seu par em sites de relacionamento e vivem bem. Parte do princípio que quem procura o namoro virtual está fragilizado porque tem consciência de que uma parte fundamental de sua vida, o relacionamento com o outro, ainda não está completa. “É um extremo perigo porque por vezes a pessoa relaciona-se e nem sabe se a pessoa do outro lado do computador existe tal como está se mostrando. É por isso que a indicação é ver se a pessoa tem um perfil sério, se colocou sua imagem no MSN, se está disposta a marcar um encontro num lugar público e mostrar o rosto.”
 

Site Beautifulpeople: entrada permitida só para bonitos



A secretária paulistana Andréa Fernandes, 31, seguiu sua intuição à procura de uma namorada. Primeiro, frequentou lugares GLS, mas a maioria das pessoas por quem se interessava estava acompanhada. Optou pelo site da G En­con­tros pela praticidade de poder aces­sar a conta de casa. Conversou com cinco moças, saiu com duas, mas não ocorreu afinidade. Quando conheceu a auxiliar administrativa Luciana Pereira, 34, há cinco meses, no dia seguinte já estavam conversando pelo MSN, que depois passou ao telefone e depois pelo skype. Uma mora em São Paulo, a outra em Tau­baté. “Já havia utilizado outros sites de relacionamento, mas não tinha encontrado ninguém com quem me identificasse. Conhecer pessoas é fá­cil para quem gosta de sair, de falar. Para as pessoas retraídas, mais caseiras, como é o meu caso, a internet é uma boa maneira, mesmo que elas estejam mais longe”, diz Luciana. 
 

Alina: cadastro aceito no site para pessoas bonitas



Para aqueles que desejam ir mais longe e procuram afinidades mais concretas, o site suíço GenePartner (http://genepartner.com) oferece uma combinação biológica. Segundo a diretora Anju Rupal os membros fazem um teste de compatibilidade em que é oferecido um exame de DNA, ao preço de 99 dólares. Tudo para criar uma rede social em que o internauta possa comparar o DNA com possíveis pretendentes. Se­gun­do Anju, os relacionamentos em que os parceiros têm DNA semelhantes têm mais chance de serem melhor sucedidos, além de os filhos desse casal serem melhor protegidos contra doenças. “As pessoas que procuram o GenePartner não querem perder tempo tentando encontrar o parceiro por meio da internet, que dá acesso a muita gente, ou aos encontros reais, em que ficamos restritos pela correria de nossas vidas cotidianas. Se você encontra alguém com quem é compatível, então, a vida se torna mais fácil”, afirma Anju.
 

Cláudio Gandelman preside os sites Divino Amor e G Encontros, com 2 milhões de usuários ativos



Há ainda sites, como o Match and Pets (www.matchandpets.com) que promove encontros a partir de afinidade pelos animais. Tudo porque a empresária Marlene Heuser, que também comanda a agência de relacionamentos afetivos Golden Years, ouviu de um cliente a reclamação de que uma futura namorada gostava de gatos. Ele era alérgico. “Ele conversou comigo e disse que não estava disposto a continuar. Percebi esse nicho de mercado e resolvi criar o site”, diz.

Para o milionário que deseja encontrar outro, o Affluence exige documentação que comprove patrimônio e renda. Em contrapartida, promete um relacionamento com as pessoas mais ricas do mundo. Para quem quiser se habilitar, o site é www.affluence.com. E por aí vai. Aqueles que não acreditam nas velhas máximas de que lados opostos se atraem e que dois bicudos não se bicam, esses sites se revelam uma boa oportunidade para encontrar a cara-metade.