Ele já se apresentou no Carnegie Hall (Nova Iorque), palco para nomes seletos como Frank Sinatra, Edith Piaf e The Beatles. Ao longo dos 60 anos de carreira, Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho foi ator de radionovelas, passou pelas TVs Excelsior, Tupi, Record. Hoje está na Rede Globo, onde criou mais de 200 personagens. É humorista, compositor – teve músicas gravadas por Dolores Duran, Elis Regina e Roberta Miranda – escritor, pintor, radialista, comentarista, diretor e ator. Contracenou com Grande Othelo, Zé Trindade, Walter D’Ávila, Rogério Cardoso, Bertha Loran, Zezé Macedo e um sem-número de personalidades da comédia nacional. Chico Anysio, encarnação do Professor Raimundo, Salomé de Passo Fundo, Azambuja, Pantaleão e tantos outros também fez novelas (Feijão Maravilha, Terra Nostra, Sinhá Moça, Pé na Jaca, Caminho das Índias), participou do Sítio do Pica-Pau Amarelo e A Diarista. No cinema atuou em Tieta do Agreste e Se eu fosse você 2. Ele chega em BH dia 11 de junho para apresentar, junto com o flho, André Lucas, Tal pai, tal filho. O espetáculo integra o projeto Mercado do Riso, da produtora Box Entrenenimento, que trouxe à cidade nomes que estão despontando no stand-up comedy e já alcançou a marca de 18 mil espectadores. Precursor do gênero, Chico Anysio, 79 anos, está há dois em turnê nacional com Tal pai, tal filho. Ele concedeu entrevista à revista Viver Brasil e não parece dar mostras de deixar o trabalho em favor de férias prolongadas.
Tal Pai, Tal Filho faz parte do gênero stand-up, que revelou jovens como Marcelo Adnet, Rafinha Bastos, Danilo Gentilli. Frequentemente estão lotando os teatros onde se apresentam. A que você, veterano no gênero, atribui o surgimento e sucesso de uma leva de comediantes desse tipo?
Falta de espaço nas televisões e encerramento tanto do teatro de revista quanto de shows nas boates. É preciso trabalhar, mas onde? Não existe este local, o jeito é este mesmo.
Como é o mercado brasileiro para os humoristas? O que agrada ao público e o que ele não tolera de modo nenhum?
Ninguém sabe ao certo nem uma coisa nem outra. O mercado para humoristas é maravilhoso porque o povo adora humor. Sempre dará certo; são os programas de maior sucesso na TV.
Que comediantes estão fazendo coisas interessantes e que características têm que chamam sua atenção?
Vejo muito pouco. Mas pelo que escuto, os rapazes dos Melhores do Mundo, a turma do CQC, o pessoal do Comédia em pé, além daquela patota do Pânico.
Existe alguma coisa que faz rir, invariavelmente?
O palavrão bem colocado.
Estamos em tempos do politicamente correto, mas ironicamente, os humorísticos de maior sucesso são os que, às vezes, beiram o grosseiro. O que explica isto?
Ninguém está preocupado em explicar. Ao contrário, todos estamos querendo cobrar os erros que há por aí.
Você criou mais de 200 tipos. Poderia citar alguns que marcaram de modo especial sua carreira, que significaram resultados de sucesso e que traços os tornam importantes?
Todos cumpriram a missão para a qual foram criados. Se um ou outro se destacou mais, é porque foi mais vezes ao ar.
Qual personagem demorou mais tempo para ganhar personalidade e qual deles concretizou mais rapidamente?
Não sei porque isso nunca foi importante pra mim.
Em seu site você diz: “geralmente as gravadoras são dirigidas por artistas que não deram certo”, “existe um truque, que, aliás, a Marina usa, que é o do cantor quebrar a frase ao meio ou no final da linha melódica, porque não tem capacidade de soltar graves e agudos.” Cita nomes como de Cláudia Jimenez, lançada na Escolinha, e a certa altura, fala que o público está menos exigente. Estas declarações rendem desentendimentos e até fama de encrenqueiro?
Também não sei. Desentendimentos nunca tive e ninguém jamais me chamou de encrenqueiro.
Acha que o artista tem medo de ser esquecido ainda em vida?
Tanto quanto quem não é artista. Todos que estão vivendo vão morrer um dia. O negócio é que morrer, ninguém quer, seja artista ou não.
Sente falta de ter programa semanal? E por que não tem mais?
Não, já senti. Mas hoje não sinto. Porque parei de ter eu não sei, mas acho que a Globo achou que aos 70 anos eu já devia ter um descanso.
Há algum tempo já trabalha em filmes, novelas, seriados. Gosta ou faz por algum tipo de conveniência? O que este trabalho lhe proporciona?
Atuar é prazeroso demais, seja no que for. O que mais gosto de fazer é o que menos fiz: cinema.
Você escreveu um livro sobre salvar casamentos, sendo que se casou mais de seis vezes. Então, como salvar um casamento?
Tem que ler o livro para entender.
Ainda referindo-me às suas palavras, declara que “perdeu noites com boates e bobagens” e conclui que a vida é para ser vivida em casa. O que perdeu, especificamente, nestes lugares? Se pudesse voltar no tempo faria diferente?
Se pudesse voltar no tempo, cometeria os erros que cometi. A única mudança seria não fumar.
Quais seus medos maiores? Pensa na morte?
Não tenho grandes medos e não penso na morte.
Quais seus próximos projetos?
Vou lançar este ano um show no qual aparecerei fazendo 12 personagens, trocando de roupa e maquiagem no palco, ao vivo. O título será Tudo Eu.