Desejo, necessidade, vontade... Quase 200 milhões de pessoas no Brasil, classes ascendentes economicamente, facilidade de comprar e uma quantidade enorme de lixo todos os dias. No círculo vicioso do consumo são quase 240 mil toneladas de lixo diárias geradas no país e a constatação de que a população das grandes cidades contribui muito para o desperdício. Locais como Belo Horizonte, segundo a Fundação Estadual do Meio Ambiente, produzem em média 1,2 kg/dia de lixo por habitante. Nas cidades do interior de Minas Gerais, a margem não passa de 300 gramas. No vocabulário diário dos lares brasileiros, o conceito de reciclagem e reaproveitamento ainda é utilizado por poucos. Nunca se falou tanto em consciência ambiental e proteção ao planeta, mas, afinal, o que cada um de nós anda fazendo para contribuir com o meio ambiente?
A médica Ian Goedert é uma defensora ambiental de carteirinha. No sentido literal. Membro do Greenpeace, Ian mostra, para quem quiser ver, o cartão de associada à entidade responsável pela luta das maiores causas ambientais do mundo. No dia a dia, Ian tenta dar visibilidade para ações que incorporou há alguns anos. É um trabalho de formiga. Médica e professora, incentiva os representantes dos laboratórios e seus alunos a usarem papel reciclado; em casa, a família também aderiu às suas orientações e reduziu o consumo; ela diminuiu a água da descarga tanto do consultório quanto de sua casa; rotineiramente faz separação do lixo; transformou garrafas pets em aquecedor solar; reaproveita material de construção na reforma do sítio. Passou a andar de ônibus para evitar não só mais poluição com seu carro, como também congestionamento. Faz um trabalho de educação no consultório.
“Tem pacientes que adoram tomar de 3 a 4 banhos por dia. Tento mostrar que isso não é só ruim para o planeta, mas para a própria pele da pessoa”, diz com bom humor. Lógico que nem sempre é assim. Ian perde a graça quando vê alguém desperdiçando água na lavagem de um passeio, não consegue conter-se. “Já recebi muita resposta desaforada, mas não consigo ficar quieta”, diz. A médica também cobra um maior incentivo do poder público. Para ela, falta transporte público de qualidade para incentivar as pessoas a não utilizar o carro; falta ampliação do recolhimento da coleta seletiva; uma maior reciclagem de embalagens e de materiais como pneus.
Ian mora no bairro Sagrada Família e há alguns anos briga para que a coleta seletiva seja uma prática em seu prédio. A luta enfrenta um problema sério – não há recolhimento do material separado em seu bairro. É o mesmo problema que a empresária Renata Vale encara no local onde mora, o Funcionários. Porém, Renata percorre alguns quarteirões para depositar o material reciclado em contêiner. Para ela, é apenas uma caminhada. Para Ian, pode significar ter de atravessar a cidade para depositar o lixo. Renata, que morou há alguns anos na Nova Zelândia, incorporou os hábitos de consumo consciente e reutilização de materiais desse país à sua vida. Partiu dela, proprietária de um restaurante, doar semanalmente todo o óleo utilizado em fritura. “Doamos para uma cooperativa que transforma a gordura em sabão e produtos de limpeza. E eles nos dão sempre alguns desses produtos”, diz. Nas compras semanais de supermercado, Renata sempre pede caixas para evitar as sacolas de plástico. |
Tanto Ian quanto Renata têm a mesma opinião de que facilitaria muito se houvesse uma ampliação da coleta de lixo reciclado em Belo Horizonte. Mas, por enquanto, segundo o superintendente da Limpeza Urbana da prefeitura da cidade, Luiz Gustavo Fortini, a ampliação da coleta de lixo reciclado está no campo de projetos. Atualmente, cerca de 350 mil pessoas, de um universo de mais de 2,5 milhões de habitantes em Belo Horizonte, contam com coleta porta a porta. Há outros 115 pontos dos chamados LEVs, com 360 contêineres para coleta seletiva. “Há um gargalo na questão da ampliação da coleta seletiva, porque as cooperativas para as quais fazemos a doação dos reciclados estão no limite máximo de sua capacidade de triar”, explica. Fortini reconhece que os bairros da região sul são mais privilegiados no recolhimento da coleta seletiva, mas a ampliação para outros bairros depende, segundo o superintendente, de um estudo que ainda não foi iniciado e não tem data para começar. Essa pesquisa precisará levar em conta diversas questões, afirma o coordenador de mobilização do Centro Mineiro de Referência em Resíduos, José Aparecido Gonçalves. Para ele, a coleta seletiva não deve ser um instrumento ou apologia ao consumo desenfreado, por isso, é preciso chamar a atenção da população para a política dos 3 R – reduzir, reutilizar e reciclar. “É preciso também que a Prefeitura de Belo Horizonte valorize o trabalho dos catadores. Ao poder público não cabe apenas coletar o lixo e levar aos galpões para os catadores. É preciso implantar um programa de coleta seletiva que atenda à demanda do município e respeite os catadores de material reciclado como agentes estratégicos desse processo”, afirma. |
Enquanto essa ampliação não acontece, a grande maioria da população segue sem saber o que fazer com o seu lixo. É o caso da empresária Juliana Nogueira Soares Cruz, 39, que mora com o marido, dois filhos e duas ajudantes, e não separa o lixo porque não há como descartá-lo. “Em casa, fazemos outras ações como a economia de água para evitar desperdício, uso de energia solar, a separação do óleo de cozinha utilizado para reaproveitamento. Se houvesse caminhão para buscar o lixo reciclado, pode ter certeza de que faria essa separação”. Mesmo sem ter lugares de recolhimento da coleta seletiva, a arte-educadora ambiental do Projeto Manuelzão, Joana D’Arc de Souza, afirma que nos bairros de Belo Horizonte é muito comum a figura do catador porta a porta. O ato de doar as latinhas, papelões para a reciclagem não só ajuda na renda dessas pessoas, como também diminui o volume do lixo nos aterros. “Estamos numa sociedade em que todo mundo descarta tudo. Ninguém quer reciclar nada. Em todos os países onde o consumo consciente e a reutilização e reciclagem deram certo foi porque a sociedade civil tomou a frente. Cada um fez a sua parte.” |