Cuiabá já vive em clima de Copa do Mundo. Não a de 2010, mas a de 2014. Escolhida para ser uma das 12 cidades-sede do campeonato, a capital mato-grossense está empenhada em cumprir metas e cronogramas – as obras da arena Novo Verdão, por exemplo, começaram em 26 de abril, oito dias antes do prazo estabelecido pela Fifa. O foco, porém, está no turismo, principal justificativa para Cuiabá sediar o campeonato. Não por acaso, a Agência Estadual de Execução dos Projetos da Copa do Mundo (Agecopa) divulga o evento como a Copa do Pantanal. Dessa forma, espera atrair estrangeiros para as belezas naturais do Estado, que incluem não apenas a região pantaneira, mas também o Cerrado, o Araguaia e a Amazônia.
Com cerca de 550 mil habitantes, sem contar a região metropolitana, Cuiabá é a menor das cidades-sede. Para receber um evento da magnitude do Mundial, ela terá que passar por grandes transformações. No total, são 26 obras, como construção da arena, intervenções no trânsito e na malha viária, reforma do aeroporto e ampliação da rede hospitalar. Segundo o presidente da Agecopa, Adilton Sachetti, a previsão total de verba ultrapassa 2 bilhões de reais. “Um bilhão já está garantido por lei no orçamento do estado. Mas a Agecopa também está buscando financiamento de 454 milhões com a Caixa Econômica, 400 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e 250 milhões com o Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur)”, informa.
Só o Novo Verdão deve custar 342 milhões de reais do orçamento, sem contar os gastos com cadeiras, painel eletrônico e outros equipamentos, que serão licitados durante a construção. O atual estádio José Fragelli está sendo demolido para dar lugar à nova arena, com capacidade para 42 mil pessoas. Como o Mato Grosso não tem expressão nacional no futebol – o Luverdense, time em maior evidência atualmente, disputa a série C do Campeonato Brasileiro –, o complexo deverá ser uma arena multiuso, com conceito de business center. “O estádio será utilizado para shows e grandes feiras. Há também a possibilidade de abrigar centro de convenções e faculdade de educação física”, lista Carlos Brito, diretor de infraestrutura da Agecopa. O projeto, assinado pelo renomado arquiteto paulista Sergio Coelho, recebeu a certificação Leed, atribuída a empreendimentos de elevado desempenho ambiental. “Estão previstas energia solar e reutilização da água, inclusive da chuva. O entorno será um parque ambiental, arborizado com plantas adultas nativas”, diz Brito.
Na semana em que a reportagem da Viver Brasil esteve em Cuiabá, uma equipe da Fifa, liderada pelo arquiteto Carlos de La Corte, vistoriou as obras do Novo Verdão, mas não fez nenhuma declaração. Até o fechamento desta reportagem, a Fifa ainda não havia se pronunciado. No entanto, a Agecopa garante que as obras estão adiantadas. “Estamos cumprindo os prazos rigorosamente e, até agora, todos os comentários são positivos”, afirmou Sachetti em coletiva à imprensa após a vistoria. A previsão é de que a arena fique pronta até dezembro de 2012, já que Cuiabá pretende disputar com as 12 cidades-sede para abrigar os jogos da Copa das Confederações, em 2013 – apenas cinco serão escolhidas. |
As seleções que irão jogar em Cuiabá serão definidas por sorteio. Os centros de treinamento e concentração ficarão em pequenos estádios da cidade e da vizinha Várzea Grande, na região metropolitana. O parque de exposições Senador João Pinheiro deverá se tornar um fan park, centro de eventos para os torcedores, mais uma exigência da Fifa. O espaço terá restaurantes, telões e pista de caminhada. |
Salto de infraestrutura
Como nem só de futebol vivem as cidades da Copa, o maior desafio está na reestruturação urbana. O trânsito é apontado pelos moradores como um dos maiores problemas. Que o diga a comerciante Eva de Castro Pinheiro. No fim do dia, ela demora 1h30 para sair da loja em que trabalha, na região central, e chegar em casa, no Centro Político Administrativo (CPA), trajeto de cerca de 10 km. “Espero que as reformas na locomoção venham para ficar e não apenas para maquiar a cidade”, diz ela. |
Se depender do planejamento, Eva e os demais cuiabanos podem ficar sossegados. “A Copa vai permitir que obras que demorariam 20 anos para serem concluídas estejam prontas em menos de cinco”, garante Brito. O orçamento para intervenções na mobilidade é de 454,7 milhões de reais, além de um convênio com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), da ordem de 286 milhões, destinado para trechos urbanos que ainda são rodovias federais. “O projeto envolve a construção de oito viadutos, seis trincheiras, alargamento de pistas e a implantação do Bus Rapid Transport (BRT), sistema de locomoção 8 |
E já que se tocou no assunto, o Aeroporto Internacional Marechal Rondon pede reformas urgentes: o local tem apenas um terminal de passageiros e estacionamento com capacidade para 500 vagas. O diretor de relações interinstitucionais da Agecopa, Agripino Bonilha Filho, garante que o espaço será quadruplicado já em 2012. “Serão inseridos quatro módulos pré-moldados do mesmo tamanho do módulo atual”, diz. Quanto ao estacionamento, a expectativa é que a capacidade aumente para mais de 2 mil veículos. “Estão sendo feitos estudos para construção de vagas subterrâneas”, antecipa Bonilha. Além disso, a logística operacional e o controle alfandegário devem ser reestruturados. |
Atualmente, a capacidade hoteleira de Cuiabá é de 4,5 mil leitos. Até 2014, esse número deve dobrar. E isso já vem acontecendo mediante iniciativa privada. Um exemplo é o hotel em que Pablo Rafael Barbosa trabalha como gerente: o grupo está construindo um empreendimento cinco estrelas, a ser inaugurado em 2011. “Fico preocupado que a nova estrutura não fique ociosa após a Copa. Para que isso não aconteça, o governo deve investir pesado no turismo”, cobra. |
Mas esse é o ponto em que Cuiabá está mais confiante. Os governantes enxergam no Mundial a oportunidade ideal para mostrar o que o Mato Grosso tem para oferecer. O diretor de assuntos estratégicos Yuri Bastos revela que “cerca de 350 milhões serão investidos no turismo, sendo que 150 milhões estão destinados para construção e reforma de estradas”. Projeta-se, por exemplo, o asfalto da estrada para Nobres, destino praticamente exclusivo para a prática de flutuação – divide o posto apenas com Bonito (MS) –, e a duplicação da rodovia para Chapada dos Guimarães. |
As obras turísticas também incluem a revitalização das margens do rio Cuiabá, do paisagismo urbano e das fachadas dos casarões do centro histórico. Posteriormente à Copa, há projeto de o fan park se tornar um siriródromo, espaço para atividades ligadas à dança regional, como o siriri e o cururu. Além disso, será construído um aquário de água doce, com espécies do Pantanal, e um planetário, com um núcleo dedicado ao corpo humano. Percebe-se que, no fim das contas, o futebol é apenas uma desculpa para a cidade se reinventar. |
Os dois lados da moedaDe goleada Turismo - Embora esteja sendo chamada de Copa do Pantanal, o turismo no Mato Grosso é muito mais amplo. A Chapada dos Guimarães, por exemplo, na região do cerrado, está a apenas 64 km de Cuiabá, em estrada asfaltada e de fácil acesso. Destaque ainda para o turismo de aventura de Nobres (142 km) e Jaciara (144 km) Estádio - A arena Novo Verdão, estimada em 342 milhões de reais, deve ser uma das mais modernas do país. Como o estado não tem tradição no futebol, o complexo servirá como palco para shows, feiras e outros eventos. Poderá abrigar até uma faculdade de educação física. A vantagem em relação a outras cidades é que a construção não implica desapropriações, devido ao tamanho da área (33 hectares) Sustentabilidade - Os líderes da Agecopa repetem como um mantra que o projeto de Cuiabá para a Copa passa pelo tripé da sustentabilidade ambiental, social e econômica. Mas o destaque fica mesmo para o meio ambiente. O planejamento leva o conceito Copa Carbono Zero: a emissão de carbono de todas as obras está sendo quantificada para ser devolvida em plantio Na retranca Hospitais - A saúde representa um dos maiores desafios de Cuiabá. O atendimento ambulatorial precisa ser modernizado e o número de vagas de hotelaria hospitalar precisa aumentar consideravelmente. O sistema privado também é apontado pelos moradores como deficiente Trânsito - O tráfego de Cuiabá está longe do caos de Belo Horizonte, mas também apresenta muitos problemas nas principais avenidas. As intervenções de mobilidade já têm verba locada e devem ser colocados em prática até 2012 Aeroporto - O Aeroporto Internacional Marechal Rondon, em Várzea Grande (região metropolitana), tem apenas um terminal de passageiros e estacionamento com capacidade para 500 veículos. Apenas as pistas são suficientes para a demanda da Copa Isolamento - Cuiabá está muito distante dos principais centros urbanos e maiores estádios brasileiros: 1.586 km de Belo Horizonte, 1.604 km de São Paulo e 2.034 km do Rio de Janeiro. A distância do Rio é a mais preocupante, já que a capital fluminense é o principal destino turístico de estrangeiros e abriga o Maracanã. Voos diretos resolveriam a situação, mas, normalmente, há muitas escalas e conexões Segurança - O Mapa da Violência 2010, divulgado pelo Instituto Sangari, coloca Cuiabá como a 12ª capital mais violenta do país, com 38,8 homicídios em cada 100 mil habitantes, à frente do Rio de Janeiro (35,7) e de São Paulo (17,4). A Secretaria de Segurança Pública se mobiliza para reduzir os índices de criminalidade |